quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Camadas no Trail Running - está na hora de evoluir para um mundo melhor



Este artigo é a continuação do artigo A montanha, o frio, o poliéster, e outras histórias de plástico (clica para ler se ainda não o leste).

Depois da investigação que fiz no artigo anterior, está na hora de revelar algumas conclusões.

Sabemos que a melhor forma de lidar com o frio, em provas ou mesmo treinos mais longos, são as camadas. Acrescentam-se ou retiram-se consoante a necessidade, adequando a temperatura do corpo às condições exteriores.

Quando as variações são grandes, a coisa funciona bem. Quando se alterna entre uma t-shirt num vale resguardado, ao sol, e o cume de uma montanha com vento frio já com uma camisola de mangas compridas e um corta-vento/impermeável, para voltar a descer a um vale com sol, é simples irmos gerindo  as camadas. A roupa vai secando e, pior ou melhor, é fácil voltar a vestir o que já se despiu devido à subida da temperatura.

O pior é quando as condições são muito agrestes e não vamos ter possibilidade de secar as camadas interiores, e nem sequer pensamos em retirar a ultima camada, normalmente o impermeável. Frio, chuva contínua, vento forte, estão entre as piores condições para a prática do trail. Enquanto produzimos calor a coisa ainda se tolera, mas as paragens são sempre um quebra cabeças, principalmente em provas longas. Com o cansaço acumulado qualquer paragem leva rapidamente a uma quebra acentuada da temperatura corporal. A roupa completamente ensopada por baixo da camada impermeável a ajudar à festa e a ampliar o frio. Daí ao princípio de hipotermia é um fósforo, como muito bem sabe quem já sofreu um golpe de frio em provas. 

Acredito que será possível minimizar o problema se apostarmos no equipamento certo. O esquema da t-shirt por baixo, mais uma de mangas compridas e o impermeável, pode resultar em muitas situações mas naquelas alturas mais importantes a probabilidade de falhar é grande. 

Isolamento Sintético como segunda camada

Há uma nova geração de equipamento que aposta em novos materiais, leves, sintéticos, com alta capacidade isolante mas também extremamente respiráveis, compatíveis com desportos de elevada produção de energia (leia-se calor, suor, etc.)

Claro que não vale a pena fecharmo-nos numa estufa. O truque é isolamento qb apenas. Respirabilidade, muita. Mas estes materiais não podem ser à prova de água, senão voltávamos ao problema da estufa.

A camada impermeável deve ser evitada e reservada para a chuva ou para vento forte. Vejam este artigo bem interessante sobre a respirabilidade das camadas impermeáveis. Respiram tanto como uma posta de salmão ultra congelado...


Ideias chave para uma protecção eficaz em baixas temperaturas 

- Usar uma primeira camada de qualidade, idealmente lã de merino. A lã de merino é um excelente isolante que regula a temperatura corporal. Mantém o corpo quente no frio e fresco no calor. O pessoal do trekking e da montanha sabe destas coisas. A lã de qualidade não ganha cheiro, seca rapidamente e pode ser usada vários dias seguidos, passando por momentos de esforço sem ganhar cheiros. Uma boa camisola de lã de merino não é barata, mas é um bom investimento para as aventuras na montanha

A segunda camada deverá ser um casaco com um leve isolamento sintético e o mais respirável possível. Há muita oferta neste segmento de casacos com isolamento sintético mas a maior parte deles não são compatíveis com trail running. Lembrem-se que vão suar, e muito claro. Qualquer coisa mesmo com pouco isolamento se transformará num forno. Prioridade à respirabilidade 

- O isolamento sintético, mesmo molhado, vai continuar a manter o calor corporal e a proteger do frio exterior

- A alta respirabilidade desta segunda camada torna obrigatória uma 3ª camada impermeável. De qualquer forma ela já é obrigatória em qualquer prova de montanha

- Teoricamente as 2 camadas serão suficientes para suportar o frio e manter-vos quentes durante todo o percurso. Mas no caso de vento forte ou chuva será necessário a tal protecção impermeável, mas apenas neste caso e não como único recurso, em cima das tais 2 camadas de t-shirts, de pior ou melhor qualidade, com mais ou menos compressão

Alguns dos isolantes sintéticos que deverão ter em conta nas vossas escolhas são o Primaloft Silver, o Thermoball (usado pela North Face), o Coreloft (usado pela Arc'teryx), o Polartec Alpha e o FullRange (usado pela Patagonia)

A quantidade de isolante será um dos fatores a ter em conta para definir a temperatura que vai fazer dentro do casaco. Os isolantes não são todos iguais pelo que a comparação poderá não ser direta, mas diria que 60g/m2, que é o que alguns fabricantes colocam nos produtos mais respiráveis, ainda assim é demasiado quente para o trail running. Idealmente procurem algo com 40g/m2. É mais que suficiente. Claro que isso depende sempre das condições exteriores. Se calhar para -15 ºC fica complicado, mas ainda assim possível, com uma primeira camada mais espessa, por exemplo. 

E os preços? Esqueçam esse pormenor. Tentem encontrar promoções e mesmo assim preparem-se para pagar. Uma camisola de lã de merino começa nos 40€ e pode ir aos 100€. Raio dos carneiros...
Um casaco com isolante sintético ronda os 150€-200€

Ah e tal, e a marca XPTO que só custa 40 paus? Não faço ideia. Tirando as marcas de renome que oferecem alguma garantia de qualidade, com reviews e opiniões de pessoas experientes, não faço a mínima ideia. Até podem ser felizes com algo de 10€ que compraram no chinês. Se funcionar para vocês, óptimo.

Eu estou um bocado farto de sofrer com mau tempo na montanha e já vou tendo idade para preferir algum conforto.

Aqui fica um link com alguns exemplos de casacos com isolamento sintético mas que acho demasiado quentes para o trail running


De facto esse é um problema quando se pesquisa estes produtos. As comparações não têm em conta o trail running. Alguns modelos são demasiado quentes. Investiguem as gamas das melhores marcas e procurem os modelos mais frescos e com menos isolamento. 40g/m2 acho que é o máximo necessário.

No meu caso a minha escolha recaiu no Patagonia Nano Air Hybrid, o modelo mais fresco. Aqui fica uma das reviews que vi, mas vão todas nesta direcção.


Nesta review encontram vários links muito interessantes, quer de outras reviews, quer de aventuras que ele fez com este casaco. Fiquei fã. Agora é testar a minha investigação e dar feedback para ajudar outras pessoas pois já que tive o trabalho, que sirva para mais alguém.

Bons treinos, fresquinhos!

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