segunda-feira, 5 de outubro de 2015

UTAT 2015 - À descoberta da alta montanha e de outras realidades


Após ter feito por 2 vezes a prova dos 105 Km, este ano fui conhecer os outros dois percursos (42 Km e 26 Km) fazendo o Challenge (2 etapas em 2 dias). Gostei muito do desafio. Um excelente treino de alta montanha, passagem aos 3200 m, subidas exigentes, paisagens, como habitual, deslumbrantes. Aldeias isoladas ligadas apenas por trilhos que partilhamos com os habitantes nas suas habituais deslocações diárias. Caravanas de burros que transportam o que não se produz na aldeia, ou que sendo ali produzido se pretende vender noutros locais. A apanha das nozes a ocupar grande parte das aldeias. Uma viagem a um tempo perdido que já não faz parte sequer das nossas memórias. Outras formas de viver, despojadas de tantos bens materiais que não ousamos sequer imaginar,

Tão importante como participar em mais um UTAT, foi também a responsabilidade de apoiar a deslocação da comitiva portuguesa, quer antes da partida, ajudando a esclarecer questões, quer no local, na ligação com a organização, quer após a prova na, infelizmente, curta estadia em Marraquexe, que tive o prazer de organizar para toda a comitiva. 

Foi um grupo fantástico que apostou nesta viagem que é muito mais que uma prova de trail. Desde já agradeço, em nome da organização, a vossa participação. Acima de tudo sei que conheci novos amigos, o que não me admira nada porque é uma das características desta viagem e tão comum naquele país. Da minha parte e pelas vossas palavras percebo que desfrutaram de cada minuto o que me deixa imensamente feliz. O meu objectivo último é partilhar com todos a magia de Marrocos. Um país que nos cativa com a sua beleza natural e hospitalidade, com a sua atitude perante a vida, com o seu exotismo e que nos proporciona descobertas constantes. Acima de tudo destruir preconceitos parvos, ideias erradas e convicções absurdas. Marrocos é um país pacífico, totalmente seguro, extremamente tolerante e amigo. Podem circular livremente por qualquer rua de qualquer cidade a qualquer hora, não vão apanhar diarreia com a comida, os polícias não vos vão extorquir dinheiro, vão adorar a gastronomia local (o mesmo não podem dizer os frangos), e tanto outros mitos parvos que o desconhecimento produz e a vontade de não perceber propaga. Claro que, como em qualquer outro país e cidade, há criminalidade, há miséria, há doenças, há perigos, mas o que o país não merece são rótulos absurdos e redutores. Espero que um dia façam como eu fiz há uns anos, peguem na família, no vosso carro e partam à descoberta numas férias emocionantes para quem é apaixonado por conhecer outras culturas e não gosta de palas que o levam sempre aos mesmos sítios da treta, ano após ano, após ano. 

Este ano não sou eu que vos vou contar a história da viagem. Mas antes de passar a palavra e sem qualquer demérito para todos os participantes, que tiveram excelentes prestações e levaram o nome de Portugal bem alto, há 3 exemplos que creio que toda a comitiva concordará em enaltecer (e se não concordarem depois podem-me dar um calduço).

A Ana Ribeiro que mesmo debilitada e com grandes dificuldades, com o apoio do Luis Canhão, lutou e conseguiu terminar a sua prova. Esse querer foi premiado com um pódio e um primeiro lugar na prova de 42 Km. Bravo Ana. Um exemplo para todos. Quando queremos mesmo muito uma coisa, por vezes temos como recompensa muito mais do que desejámos. O teu 1º lugar foi brutal!

O Carlos Rodrigues que sonhou correr no Atlas e que concretizou esse sonho, Ainda longe de ser um arquétipo de atleta (o que acredito vá acabar por acontecer) conseguiu vencer a prova dos 26 Km, uma distância que nunca tinha superado. E foi ao Atlas demonstrar o que é resiliência. Amigo, já tens quase tudo o que precisas para vencer muitos outros obstáculos, O pouco que falta chegará, se continuares este caminho. Mas cuidado, o caminho é longo e duro! O que não é mau de todo porque dureza é o que a malta gosta.

E por fim o Filipe de Oliveira mostrou-nos o que é ser destemido. Apenas com o Hard Trail da Padela, que lhe conferiu os mínimos para participar nos 105 Km do UTAT, encarou o touro de frente e levou de vencida o bicho. Como todos lhe dissemos, fazer o UTAT com tão pouca experiência confere-lhe automaticamente a capacidade para enfrentar e vencer qualquer desafio em Portugal, para além de um ego gigantesco. E é totalmente merecido. Foste um valente amigo! Provavelmente não esperarias algo tão difícil (nem podias com a tua pouca experiência), mas a forma como desembrulhaste uma das provas mais difíceis de montanha, mostra que és tão ou mais rijo que as montanhas por onde andaste. Parabéns pela tua coragem! Grande exemplo. 

E agora tem a palavra a Filipa Vilar que melhor que ninguém vos vai contar a sua visão desta aventura. (e pensavam vocês que os meus textos eram longos heheheh)

Ultra Trail Atlas Toubkal: Day One - 29/9 (texto e fotos de Filipa Vilar)


 
Às 15h, o avião TP 1454 aterra no aeroporto Marrakech-Menara com 14 portugueses a bordo. É um aeroporto pequeno e simples, sem mangas de embarque.
Dirigimo-nos para o posto de controlo com o visto de autorização de entrada preenchido e aguardamos pacientemente que este seja validado. Quarenta minutos após a aterragem reunimo-nos com o membro da organização que nos veio acolher e encaminhar para o transfer que nos levará ao coração do Atlas.

A viagem é para Sul, em direcção a Oukaiimeden, com paragem no centro alpino francês (CAF), onde pernoitaremos 4 noites. A estadia neste refúgio de montanha era a alternativa "de luxo" a pernoitar em tendas no meio do vale desta estância de ski.
Quando chegamos dirigimo-nos ao edifício e somos divididos em duas camaratas (C14 e Ikkis 14). Depois de instalados encontramo-nos na recepção e descobrimos que o CAF disponibiliza gratuitamente rede Wi-Fi. Ora o que fomos descobrir...

Pelas 19h vamos explorar a área. Telemóveis em punho captam paisagens soberbas com o cuidado de enquadrar tudo o que a vista alcança na imagem.
Findo o reconhecimento, dirigimo-nos para as gigantes tendas que se encontram posicionadas em frente ao CAF, no meio do vale. Uma “passadeira vermelha” guia-nos para uma “cerimónia sofisticada”…o nosso jantar! A decoração é muito simples. Uma mesa gigante no fundo da tenda onde são colocados os pratos e loiças, 40 mesas redondas com capacidade para 8 pessoas, gigantes carpetes de tons avermelhados e 6 caloríficos. Tanto as mesas como as cadeiras estão “forradas” num tecido branco bordado com motivos florais.
Sentamo-nos em duas mesas contíguas e aguardamos que os auxiliares de apoio à cozinha tragam o banquete. Primeiro, um panelão de sopa harira, seguido de arroz com frango e legumes. Um pão grande e redondo, feito com uma farinha desconhecida mas saborosa, acompanha a refeição.
Regressamos ao CAF e dedicamo-nos ao vício. Por fim, o merecido descanso.



Ultra Trail Atlas Toubkal: Day Two - 30/9 (texto e fotos de Filipa Vilar)





As hostes agitam-se na camarata Ikkis incitando-me a levantar. Que noite tenebrosa! 2 panelas de pressão em pleno funcionamento deram-me cabo do sono.
De manhã o ritual seria sempre o mesmo…descer do beliche, calçar, apanhar a roupa a vestir (previamente escolhida e disposta num móvel em madeira dividido em 16 quadrados), segurar na bolsa com produtos de higiene e na toalha e dirigir-me ao wc/duches. Descobri que as mulheres tentavam manter a privacidade, resguardando-se numa zona com apenas dois duches e separada com uma cortina. A água era excessivamente quente, de resto, as condições de higiene e instalações sanitárias eram suficientes.
O pequeno-almoço pecava na variedade mas era de qualidade (chá marroquino, chá preto, café, pedaços de pão, doce de figo, doce de morango, doce de alperce, mel, figos secos e tâmaras).
A etapa seguinte era efetuar a acreditação nas provas e o controle do material obrigatório. Nós estávamos à entrada da tenda às 9h como anunciado, mas a organização só iniciou os procedimentos pelas 10h.
Um controlo bastante rigoroso, contrastante com a despreocupação em seguir os horários estipulados aliado a falhas de comunicação entre os voluntários e membros da organização.
Depois de “matar o vício” comunicacional com o Mundo, o grupo reúne-se e vamos fazer um passeio com o intuito de ambientar o corpo à altitude, vencer o ar rarefeito que teima em dificultar a respiração e conhecer os trilhos de saída e de chegada das diferentes provas.
Os almoços não estavam incluídos no pack da prova, como tal, almoçamos numa tasca da vila, uma bela tajine.
E resto da tarde foi puro lazer!
A competição ocupa um lugar quase primordial na rotina dos atletas que passam o ano a saltitar entre provas e países. Mas a competição não era o meu foco. Era sim desbravar o Atlas, contemplar um palco de beleza quase selvagem e usufruir do trail no seu estado mais puro.
Um mês após um problema de saúde extremamente grave ir fazer o Challenge do Atlas (42K 26K) poderia ser considerado insano mas, na realidade, eu estava a ouvir o corpo. Ele dizia-me para tentar! E eu sentia que era capaz.. Não era a mesma Filipa que um mês antes tinha aterrado no Aeroporto da Portela nem tão pouco o “corpo débil e enfermo” que vagueava por Chamonix.
Durante este mês recuperei a força extinguida pela doença, tive imensos cuidados alimentares, efetuei a medicação prescrita, repus as horas de sono, fiz treinos leves e fui-me mentalizando que estas duas provas seriam um teste, uma tentativa, e, se por algum motivo não conseguisse concluir o Challenge, a experiência valia por tudo.


Ultra Trail Atlas Toubkal: Marathon d`Atlas 42K D+2600 - 1/10 (texto e fotos de Filipa Vilar)

5H55: Tensão no auge, últimos preparativos...
6H: Soa a partida! Partimos em direção à montanha com as estrelas a vigiarem as nossas passadas. Os atletas dos 105, do Challenge e dos 42...todos juntos. Estava um frio de morte e o vento não ajudava a festa. Seguimos em estradão até ao K11 com D+530. Perto dos 2800 o dia começa a clarear e o sol a nascer. A visão é magnânime! Tons laranja forte contrastam com as diferentes tonalidades das montanhas. As mais próximas castanho escuro num degradé até as mais distantes. Sigo constante e forte. Faço os 11K em 1h35 com trote em alguns troços. Chegada ao primeiro controle é hora de descer 9K com D+1000. Os voluntários são uma animação e incentivam os atletas. Na descida, o sol começa aquecer o corpo. Ainda assim não retiro as camadas, apenas as luvas e buff. Inicialmente seguimos em estradão com muita pedra solta, até a separação das provas. A minha segue pela esquerda e passo por uma aldeia “escavada” na montanha. Atravesso caminhos de cabra, trilhos estreitíssimos, singles, uma zona arborizada e o rio Ourika num sobe e desce adorável! Cumprimento todos os locais e eles respondem afavelmente: "Ça vá? Fatigué?".
Homens, mulheres e crianças afastam-se para nos dar passagem. Locais à parte! Ainda me oferecem nozes acabadas de apanhar e tudo!
Chego ao primeiro abastecimento dos 20K com 3h de prova certinhas! Preparo-me para demorar! Ataco os alperces e os amendoins salgados. Peço para atestar os soft flask e tiro o softshell. A senhora não está interessada em ser rápida. Conversa e esquece-se de mim. Solicito alguma urgência e fica indignada. Com tudo isto demoro 7 min. Sigo. Não gostei muito do abastecimento. Muito fraco. Tinha apenas água, coca-cola, banana, batatas fritas, alperce seco, amêndoas e amendoins. Quando estou a sair vejo o Paulo Jorge descer. A minha subida é uma parte da descida dos 105K.
Encontro atletas com quem me cruzei no caminho, atletas que conheço do CAF, o Filipe e o Ricardo Diez e ainda o Eduardo e o Nevile um pouco mais acima. Todos fortíssimos! Sigo cheia de energia! Uma subida de 8K com D+1300 (K28 D+1785) onde atinjo o altitude de 3200 no colossal Tizi n´Tacheddirt!!! Woww!!! A subida é potente! Extremamente técnica, com diferentes graus de inclinação e num trilho com biliões (quantos biliões...) de pedras, pedrinhas, pedregulhos, rochas, areia...O calor começa apertar! Tenho 1,5 lt água...não me parece que vá chegar!
Começo a ouvir uma cascata! Boa! Paro 2x para beber água e em uma delas atesto o soft flask. A água é tão fresca!!! Tive o cuidado de apenas beber água de uma zona mais alta onde não vejo cabras a pastar. Outros atletas fazem o mesmo. Nunca páro. Sempre a subir no meu passinho.
Desde o início da prova que ingiro algo de hora a hora. E resulta na perfeição. O corpo nunca perde energia e consigo manter o ritmo. No topo dos 3200 encontro o posto de controlo médico. Demorei 2h30 a chegar. Agora seguem-se 6K com D-1000! Técnico! Agressivo! Num trilho muito estreito e onde a areia me faz derrapar muitas vezes. Por 2x quase que resvalo. A 3K do abastecimento, numa zona muito perigosa e que me faz saltitar bastante encontro um grupo de caminhantes. O último avisa os da frente que vou passar. Impecáveis! Chegam-se todos para o lado. E começam a aplaudir, dar força, desejar sorte!! Uma festa!! Nem sabia o que dizer! Só sabia dizer "merci!!!" Adorei aquele publico! Tentaram trotar comigo e ainda conseguiram uns metros. Depois deixaram-me seguir e disseram "you are the first"!!!
Atravessei uma estrada e desci novamente em trilho. Medonho!!! Nem havia quase trilho! Areia para derrapar! 1km bem bem complicado. MIUT? Comparado com esta zona é super seguro! Desemboquei na vila e segui por o caminho até chegar ao segundo abastecimento sito em Tacheddirt. Fizeram uma festa! Demoro 1h30 a fazer esta descida. Comi novamente alperces e amendoins. Atestaram os soft flask rapidamente, perguntaram se queria atestar o camelback e ofereceram queijo e/ou fiambre. Priceless!! O queijo não estava a mostra Foram super atenciosos, cuidadosos e eficientes. Informaram-me que no dia seguinte passaria novamente por ali. Despedi-me "see you tomorrow"! Subi 5 degraus e comecei logo bem!! Uma subida quase vertical! Bom...na verdade seriam 5K com D+600! Demolidora a subida! Calhaus e rochas para trepar!! Tipo Km vertical mais muito mais técnico e num trilho super estreito! As montanhas são rochas autênticas! Agrestes, totalmente expostas ao sol, arenosas e áridas. Esta subida coloca-nos em contacto com a sólida Jebel Anggour (de 3614 metros) mas ficamos pelos 2960 Finda a subida nem queria acreditar! Passei no controle e dei o número de dorsal. Mais umas fotos. Pronto...só faltavam 6K a descer até a meta com D-400. Inicialmente muito técnico nem trotar conseguia. Depois 1.5K de estradão para voar mas as dores no joelho esquerdo não deram tréguas e trotei em câmara lenta. Volto a entrar num trilho técnico mas no qual consigo fazer um trote nalgum troços. Os caminheiros são fantásticos! Deixam sempre passar e dão imensa força. Chego a uma zona plana. O vale tem um trilho pedregoso e o rio segue pelo meio da nossa rota. Faltam 3K. Bora lá correr/trotar menina. Consigo fazer esta proeza até a meta. Nem queria acreditar! Terra molhada em que afundo as sapatilhas, trilho corrível mas com pedrinhas. A 1.5K começo a perceber por onde vou chegar. As marcações são muito espaçadas e não dão confiança. Ocorreu-me N vezes parar e tentar perceber por onde seguir. As marcações são com uma tinta azul na rocha (há imensas rochas mas as marcações são muito espassadas e insuficientes). Avisto ao fundo as casas de Oukaiimeden e mais à frente às bandeiras vermelhas e o pórtico da meta. Sigo constante e umas lágrimas escorrem pela face. Felicidade pura!! Consegui! Venci a altitude, a caixa torácica aguentou, o coração conseguiu bombear o sangue que tinha e as pernas nunca falharam. Uma epopeia! Um Challenge sem dúvida! A 500 mts ouço o speaker dizer que se aproxima uma atleta feminina e colocam uma música para mim! Brutal!!! Nunca tal tinha acontecido. Uma música para a minha chegada! Ver o pórtico...atravessá-lo...priceless!!!
Com 9h02 totais terminei 42,67K com D+2385. Orgulho!!!


Ultra Trail Atlas Toubkal: Virée d´Ikkiss 26K D+1400 - 2/10 (texto e fotos de Filipa Vilar)

08h45: Desço com o Paulo Pires para o pórtico de partida. Esqueci-me dos bastões! Volto a correr para os ir buscar. Reencontrámo-nos e seguimos até à linha de partida. Conversámos com os restantes atletas do grupo que nos vieram acompanhar e com o Eduardo e Neville que tinham terminado a prova dos 105K.

Às 9h soa a partida. Corremos quase em plano 3K. Uma autêntica tortura! O coração quase a sair pela boca, os músculos das pernas acusar o empeno do dia anterior...manter a constância foi um teste a minha resistência mental! Até que finalmente o trilho começa a subir e posso dar uso aos bastões. Os meus salvadores!
A subida era a descida do dia anterior. 5K com D+400 divididos em 3 níveis. Um trilho estreito arenoso mas de andamento fácil, um trilho pedregoso mais inclinado e por fim um trilho com rochas e troncos para escalar um pouco mais. No topo da subida encontro o primeiro posto de controlo. Dou o número de dorsal, poso para a foto e começo a descer. Uma descida de cortar a respiração, rodeada por imponentes montanhas de cor ocre. Desço a medo porque a inclinação é acentuada. Sou ultrapassada por vários atletas mas não me importo. Prefiro ser cuidadosa e regrada na descida porque a partir dos 17K, necessitarei de toda a força para atingir os 2800 metros sem fraquejar. 4K de uma descida exageradamente técnica e "perigosa" culminam num trilho muito estreito mas corrível. Dou asas as pernas. Chego ao segundo posto de controle (último posto de abastecimento do dia anterior) e sou informada que o abastecimento é a 5K. Duvido logo. O meu GPS contabiliza 10K e segundo o perfil da prova, este situa-se ao K16.5. Sigo sempre a correr. Yeahhhh!!!! Atravesso duas aldeias, cumprimento todos os residentes invejando-lhes a vista, a pacatez, o despojo do materialismo, a simplicidade e constato (novamente) a inacessibilidade das gentes. A terra árida, povoada por pequenas matas, com grupos de cabras a roer o chão, transporta-nos para clássicos do cinema, cujos protagonistas encarnam vidas passadas em locais ermos, palco de aventuras e trilhos pedestres, mas na realidade, os protagonistas deste filme somos nós!
Contemplo sobrados coloridos pelas vestes que ao sol secam. E ao K17 encontro a tenda branca onde os voluntários calorosamente aguardam pelos atletas.
Cinco crianças estão a chegada do abastecimento a bater palmas e a gritar por nós. Maravilhoso!! O fotógrafo capta este momento. Eu a chegar, sorridente e os miúdos em festa. Para eles deve ser um acontecimento único no ano, ver tantos atletas, roupas diferentes, mochilas, bastões, os nossos procedimentos, rituais...a azáfama.
Este abastecimento permite-me tomar fôlego antes de prosseguir, hidratar bastante e ingerir suficientes calorias, afinal vou emergir em altitude numa subida difícil de "abarcar". Duas mãos cheias de alperces e uma de amendoins. O voluntário enche-me dois copos de água para ajudar.
E agora sim, vai começar a verdadeira dureza. 8K D+1000. A início um estradão largo que desemboca num trilho técnico. A paisagem é impactante! Areia fina, rochas escuras (e até lilases), troncos de madeira (alguns formam socalcos/degraus)...uma montanha que se eleva dos 2800 metros de profundidade, um oásis de vida berbere e trilhos vertiginosos.
Não temos medo de nos aventurar naqueles colossos? De assentar os pés em zonas quase sem trilho? Claro que sim! Todos nascemos com medo e é bom que o tenhamos. Por isto é que nos aventuramos. Porque conseguimos superar o medo, desafiar a vida, atingir um estado de plenitude imensa, tornar-nos "mais respeitáveis" aos olhos dos outros. Mas houve momentos em que pensei “e se sucedesse algo?...” Um trilho em que só cabe um pé a frente do outro…mete respeito!
Avisto as enormes bandeiras vermelhas. Estavam cada vez mais perto! Estas indicavam que o fim da subida estava próximo.
A experiência acumulada destes dois dias e a estrondosa força que descobri que residia em mim eram o meu ópio! Avançava forte e constante, capacidade de alerta no máximo e mantinha-me alimentada e hidratada, o que me permitiu passar mais de 10 atletas. A 500 metros de atingir o cume, um atleta senta-se no chão, exausto. Sinto-me impelida a dar-lhe força. E no meu inglês digo-lhe que o final da subida está mesmo ali, que ele a está a ver, que tem de pensar que em poucos minutos vai atravessar a meta, vai poder comer cuscuz ou pasta e que vai tomar um banho quente e aromático…e surte efeito!! Fico radiante!! Levanta-se e segue-me deveras debilitado.
Finda a subida encho o peito de ar e de orgulho. Troto na descida e olho para o relógio. Vou chegar mais tarde do que previ mas chego bem. A uns metros da meta, a equipa portuguesa aplaude-me, assim como, atletas sentados nas esplanadas e os locais. Chego à base e sou engolida por uma grotesca sensação de missão cumprida.
25,86K terminados em 5H26 com D+1380


Ultra Trail Atlas Toubkal: Day Five - 3/10 (texto e fotos de Filipa Vilar)

Se o pequeno-almoço dos dois dias de provas nos brindou com uma novidade: a banana, no último dia o espanto era ainda maior! Crepes!! Divinais!! (um pouco açucarados demais para mim mas ainda assim, deliciosos!).
Pelas 7h50, o grupo português reúne-se na receção do CAF e encaminhamo-nos para o autocarro que nos levará de volta a Marraquexe. Antes de subir para o autocarro faço uma pausa como que a saborear a recordação. Sinto-me num espaço sideral! De outro planeta!
A meio da viagem o autocarro tem um problema mecânico e somos forçados a parar à beira da estrada. O condutor tenta resolver a situação mas ao final de meia hora percebe que não é possível e solicita ajuda. E agora? Quanto tempo teremos de aguardar por outro autocarro?...
2h foi o tempo que aguardamos. Entretanto duas voluntárias que seguiam no autocarro, desesperadas com a hora de embarque, pedem boleia a um taxista. Quase ao mesmo tempo chega um jipe 4x4 para levar mais atletas para o aeroporto. Continuamos à espera que nos venham buscar…35 minutos depois chega um mini bus de 14 lugares e encaminhamo-nos todos afoitos para o mesmo. Mas, dois atletas estrangeiros e o vencedor do ultra trail e sua família ocupam 6 lugares. Não existe espaço para todos…desolador!
Apesar deste percalço, mantemo-nos "como equipa" e aguardamos a chegada de um transporte que permita que os 14 sigam juntos para Marraquexe. A manhã estava perdida! Enfim…enquanto aguardávamos, a galhofa imperou! Por fim, chega o transporte para “nos salvar”.
A carrinha pára na praça central e desperto do meu cochilo matutino. Está um bafo! Ainda ensonada vou buscar a minha samsonite.
14 Portugueses, em fila indiana, rumo ao endereço de um hotel de charme e qualidade, renovado recentemente, que o Paulo Pires fez o favor de arranjar. A 3 minutos da praça mais mediática de África, união e sintonia ao estilo marroquino aliado a uma decoração moderna e possante. O hotel está por nossa conta.
Depois de instalada, dirijo-me ao terraço. Que vista de sonho!
Entretanto o estômago dá horas, por isso, há que fazer uma paragem obrigatória. Dirigimo-nos para as portas de um dos melhores endereços gastronómicos da cidade. A carta apresenta vários clássicos marroquinos e propostas arrojadas ao paladar. Finda a refeição, vagueamos agora com toda a calma do mundo pela cidade primitiva.
Os sorrisos que nos brindam são uma mão cheia de boas recordações.
Marraquexe, a "cidade vermelha" sita no sopé norte do Alto Atlas, é um caldeirão fervente de etnias, religiões, cores, nacionalidades, estratos sociais, comerciantes, sons, cheiros, artefactos, vestes, animais, especialidades alimentares, meios de transporte, hotéis, bancas de rua, frutas...
O canto hipnótico dos altifalantes das mesquitas, muralhas e habitações de tons ocre, hotéis a cada esquina, azulejos que decoram as entradas das casas e os pátios interiores, candeeiros arco-íris, uma poeira suspensa no ar...esta cidade é um íman exótico que pulsa os sentidos.
A parte antiga da cidade, vulgo Almedina, são ruas pelejadas de lojas e comerciantes de rua com artes e ofícios tradicionais marroquinos. Desde bijuteria, tapetes e carpetes, tecidos costurados ou bordados, cerâmica e louça berbere de cores, formas e decorações exuberantes, peças esculpidas em madeira, objetos em metal com rendilhados, esculturas, pinturas figurativas, velharias, livros de literatura marroquina imersos em pó, calçado em bico, artigos em pele, blusões de design quase exclusivo, telecomunicações...Há lojas que mais parecem exposições...um incrível espólio marroquino! Nas ruas, uma confusão de pessoas, bicicletas, motoretas e carroças ameaçam, constantemente, a segurança dos peões! Andamos em ziguezague a tentar sobreviver a esta aventura mágica. Uma motoreta apita de um lado, passa um bicicleta a toda a velocidade do outro, aproxima-se uma carroça cheia de fruta, uma banca de pão no meio da rua esburacada, turistas que param bruscamente ao chamamento do comerciante...
A praça mais animada e movimentada de África – Jemaa el-Fna – é uma insana loucura! Encantadores de serpentes, músicos, acrobatas, contadores de histórias, dançarinos, tocadores de instrumentos (do mais banal ao desconhecido, tocam músicas barulhentas e extravagantes) e macacos amestrados animam durante o dia, onde todos os sentidos são apelados ao consumo desenfreado. E ao final da tarde, quando o sol se começa a recolher no horizonte, o coração de Marraquexe vibra intensamente. É então que surgem dezenas de restaurantes em bancas no meio da praça e todos reclamam ter a melhor cozinha da cidade. Mas é no Chez Aicha, que descobrimos uma verdadeira instituição gastronómica: uma cozinha variada e fortemente condimentada, com o típico cuscuz, a famosa tajine, a sopa harira, a pastilla, o merguez e o thé à la menthe.
Esta viagem jamais será uma memória remota por estas paragens...
O UTAT pode estar ofuscado pelo brilho mediático de lugares como Chamonix, Cortina, Zegama, Pirinéu mas quem lá vai descobre uma terra de sonho, uma relíquia marroquina que não se compra com dirhams, a pureza do trail, o vital esforço dos voluntários, um coração árido e ocre que nos impele a voltar.
A receita e o retorno mediático desta prova, que está no mapa das provas mundiais mais duras pela dureza do piso, altitude, condições atmosféricas e capacidade de adaptação a uma autonomia quase total, são diminutos comparativamente a provas como UTMB e LUT. As experiências e vivências são igualmente diferentes.
Em cada viagem há um prazer no planeamento, uma sensação de prolongamento…a viagem começa a ser vivida antes e ainda temos o durante. Mas esta…assumo dizer que deixará mais “marcas”...será sempre uma viagem exploratória em que se formou uma equipa de 14 pessoas cheia de energia, boa disposição, cordialidade e que partilharam momentos únicos, momentos que muitos mortais nunca experienciarão e, caso lhes contássemos, provavelmente não entenderiam a magnitude do que por lá se viveu. Mas nós sabemos…nós sentimos…e iremos sempre recordar. O “poker face” de cada um denunciava o que nos ia na alma! Todos formos campeões e isso é um feito motivo de grande satisfação.
Um brinde a momentos destes!


Ultra Trail Atlas Toubkal: Day Six - 4/10 (texto e fotos de Filipa Vilar)



O despertador não precisa de tocar porque o corpo acorda uns minutos antes das 6h. É o dia da partida...
Às 6h40 o grupo reúne-se no terraço para tomar o último pequeno almoço em Marrocos.
O dia ainda não nasceu...estamos na "penumbra" alumiados por coloridos candeeiros...
À hora combinada somos encaminhados para o táxi e 20 minutos depois de iniciar a viagem chegamos ao aeroporto.
Efetuamos o check-in, preenchemos o visto de saída, atravessamos o controlo (mulheres numa fila e homens em outra) e por fim, atacamos as lojinhas com o intuito de gastar os últimos dirhams.
O voo TP1453 parte com algum atraso, algo que nos habituamos em Marrocos. Hehehe!!
Assumimos os nossos lugares e voamos de regresso a casa.
Enquanto aguardamos que as malas cheguem ao tapete 7 combinamos novas aventuras, trocamos impressões sobre a viagem, definimos objectivos para o calendário do ano seguinte...
Até que cada um segue o seu caminho...o saudosismo bate à porta...

Há o momento de chegada
E o instante de partida
Quanta vida já vivi
Quanto resta a ser vivida?...
Quanto resta não interessa...interessa sim vivê-la!!!

Obrigada a todos os 13 com que partilhei uns sublimes 6 dias! O nosso grupo era fantástico! A boa disposição e a contagiante energia reinou!

Paulo Pires, não posso nem quero deixar de mencionar todo o trabalho, cuidado, atenção, preocupação e gestão que empregaste nesta viagem. Um ENORME obrigado e PARABÉNS!
Ficamos à espera da próxima.

Fábio Dias, obrigada pelo teu acompanhamento na minha recuperação.
Rui Runa, obrigada pelos conselhos alimentares para a prova.

Agora é tempo de recuperar e manter "os cavalos" quietinhos. Hehehe

FIM

Obrigado por esta magnífica reportagem Filipa!!!!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

FollowMe - Siga aquele atleta!

software nacional

Hoje em dia os smartphones fazem parte do equipamento habitual. Nas provas mais longas são mesmo obrigatórios para permitir uma comunicação de emergência que se espera nunca ser necessária. Mas na realidade quem gosta de se perder nos trilhos também gosta de saber que pode ser ajudado em caso de dificuldades. 

Se bem que numa fase inicial da corrida seja habitual instalar aplicações que fazem o registo do nosso percurso e inclusivamente o partilham online, quando começamos a levar a corrida mais a sério é normal passarmos a usar um relógio de pulso com receptor de GPS . A aplicação followme é um poderoso aliado que nos poderá fazer repensar a necessidade de levarmos o smartphone connosco mesmo naquelas saídas que à partida têm tudo para correr bem. Porque os acidentes e os azares acontecem em qualquer altura e normalmente quando menos se espera.

A aplicação foi criada com o propósito, de permitir a familiares e amigos, acompanhar as aventuras em treinos ou provas de média e longa duração e é ideal para praticantes de trail, BTT, montanhismo, caminhada, etc.

A aplicação é composta por 2 componentes:
  • uma aplicação instalada no smartphone que recolhe periodicamente a localização GPS e a envia por SMS para o site do serviço
  • um site cujo endereço é www.followme.pt onde os familiares e amigos podem acompanhar o percurso que está a ser efectuado pelo utilizador do smartphone
No site, depois de se registar, pode criar os seus eventos privados (As minhas actividades) e partilhá-los com familiares ou amigos. “As minhas actividades “ como não aparecem nos eventos públicos apenas são visíveis para quem possua a ligação do evento. Ao criar o evento privado, automaticamente fica associado ao mesmo. Apenas serão mostradas no evento, as localizações cuja data se encontra entre a data inicio e fim do mesmo. Se carregar o track para o evento (formato GPX) previamente, quem estiver a acompanhar o evento para além de ver os pontos no mapa tem também acesso a estatísticas do atleta.

Na aplicação o funcionamento é muito simples. Pode reportar de forma manual a sua localização actual, por mail, facebook, etc. ou pode previamente criar um evento privado no site e reportar automaticamente para esse evento

A aplicação irá periodicamente ligar o GPS do telefone, obter uma posição GPS e enviar um SMS para o servidor do site followme.pt. Deve configurar a periodicidade de envio dos SMS’s, em função da duração do envento, para que não consuma demasiada bateria ou para que os custos de envio de SMS (se não tiver um plano com SMS’s ilimitados) não sejam muito elevados. Sugerem-se 10 minutos para corridas ou treinos  de 10 a 20 Km, 15 a 30 minutos até 50 Km e 30 minutos a 1 hora para distâncias superiores.
Quem tiver acesso ao link (pode ser enviado apenas para um ou mais amigos ou partilhado no facebook) poderá através de um browser, ver várias informações do nosso percurso num mapa. Assim estamos sem dúvida mais seguros pois mesmo que algo de inesperado nos aconteça a nossa posição será conhecida.

Esta aplicação tem aspectos muito interessantes. Desde logo o facto de não usar a rede de dados. Isto permite poupar bateria, não só porque o GPS só é solicitado por breves instantes antes do envio de cada SMS, mas também porque podemos levar o telefone com os dados desligados e em modo GSM poupando ainda mais a bateria. Para quem tenha SMS’s gratuitos não existe qualquer custo ou consumo de dados associado à sua utilização.

Também o facto de poderem ser criados eventos que agregam vários participantes, o que possibilita seguirmos num mapa a localização de cada pessoa que levar a aplicação activa no telefone.

De notar que no estrangeiro, onde o recurso a dados é proibitivo devido aos elevados custos do roaming, dependendo do custo de envio de SMS’s em roaming do vosso plano e do número de SMS’s que contam enviar, esta poderá ser uma solução a utilizar.

Actualmente apenas disponível para o sistema operativo Android o autor está a ponderar a possibilidade de desenvolver uma versão iOS.

Características

  • envio dos SMS em modo manual ou envio automático por intervalos de tempo
  • o modo "Auto SMS", permite ao utilizador escolher o intervalo de tempo que quer reportar a sua localização (2, 5, 10, 20, 30 ou 60 minutos)
  • em modo automático a aplicação liga e desliga o GPS para que o consumo de bateria seja mais reduzido
  • o GPS fica ligado até que seja encontrado sinal de GPS ou até que se esgote o tempo limite (Timeout)
  • multi-linguagem (português e inglês)
  • possibilidade de parametrização do som, para saber se o SMS foi enviado com sucesso ou não
  • opção de escolha de envio de localizações repetidas (no caso da localização ser igual à enviada no SMS anterior, pode enviar ou não)
  • possibilidade do utilizador adicionar texto ao SMS (máximo de 78 caracteres)
  • registo da actividade da aplicação e possibilidade de envio do ficheiro por mail

Experimentem o followme e nunca mais se sintam sozinhos nas vossas aventuras.

Mais informações nas FAQ's do site da aplicação www.followme.pt ou na página do facebook www.facebook.com/followmept onde podem contactar o autor do programa.

Nota importante
O receptor de SMS é do operador MEO Portugal, deste modo, o custo de cada SMS enviado depende do tarifário que cada utilizador tem referente ao envio normal de um SMS para este operador.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O Mito dos Ovos e os Velhos do Restelo



Há mitos alimentares que perduram por décadas, por mais que se repita que são puras parvoíces. Como se a ciência não evoluísse e o nosso conhecimento não aumentasse. 
O mito diz que comer muitos ovos faz mal ao fígado, aumenta o colesterol e mais um conjunto de parvoíces aleatórias que os tempos foram adicionando à história.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Omega 3 - O poder da peixarada



O Omega 3 tem tido imensa visibilidade ultimamente e todos os que se preocupam com o que comem, já ouviram falar dele. Há todo o tipo de alimentos ricos em Omega 3, desde produtos lácteos passando por ovos, bolachas e toda uma gama sem fim.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

De volta ao UTMB - TD...S de Selvagem!

Pouco mais de 2 meses depois da ultima aventura regresso a Chamonix. Agora noutro registo, em família, com regulamentos e marcações, mas também com o rabinho mais apertado. Mas que não restem dúvidas, a nossa volta ao Mont Blanc foi A Aventura Do Ano, tudo o resto é paisagem. Mas uma prova tem sempre aquela componente de 1 ou 0, tudo ou nada, que é preciso ultrapassar. E por isso o rabinho....

Preparação



Tendo em conta que estivemos lá em Junho a fazer o Tour du Mont Blanc (TMB) no sentido contrário ao UTMB (por razões que poderão descobrir lendo o texto da aventura) acabámos por fazer os primeiros 15 Km do TDS. Depois mais um pouco em Contamines e a parte final de Les Houches, eram já sobejamente conhecidas. Diria que 30 Km do percurso eram conhecidos  e pacíficos. Restavan 90. Tentei estudar o percurso o melhor que pude e calcular tempos de passagem em várias zonas. Pela primeira vez consegui levar uma cábula, não com o perfil, mas com a altitude de vários pontos chave e estimativas de passagem. Perdi algum tempo a fazer contas e a tentar estimar horas para cada ponto. Mas depois dos 50 Kms a estimativa não batia certo. Acabei por considerar que 24-25h seria um bom objectivo mas tudo isto com um grande grau de incerteza. Conhecia bem a fama da prova: a mais difícil, A prova, a selvagem, etc. Não cheguei a analisar o que valiam 24h na classificação do ano passado. Deixei uma cópia das horas nos vários pontos de passagem com a Dora, para ela ir confrontando com os SMS da organização e perceber como estava a correr a prova.

Como bom Tuga falharam 2 elementos muito importantes na preparação. A nova mochila da Grivel que comprei não chegou a tempo de um único treino longo e nas 2 ultimas semanas percebo que não tinha sapatilhas de trail em condições e não ia ser fácil adquirir umas já comprovadas nos meus pés. Os meus pés são o meu ponto fraco, talvez porque eu seja uma Cinderela e tenha andado a correr este tempo todo com os sapatinhos de cristal errados,,,
Um pouco por feeling e em conversa com o Marco da run.pt decido finalmente gastar um pouco mais e compro umas Ulta Raptor da La Sportiva. Jà li tanta coisa, o João Nuno diz que são excelentes, o Marco confirma, que se lixe. Depois de uma estreia que quase me cose um pé, troco as palmilhas por umas velhinhas e sigo com as minhas lindas sapatilhas apenas com 50 Km de uso. Grande risco que a Cinderela assumiu. Nem sequer protegi com tape o metatarso por detás do dedo grande, a zona mais massacrada do meu pé direito. Foi mesmo à boss! Sentia que o raio das sapatilhas eram mesmo confortáveis. Raio dos italianos percebem disto.

Bora lá fazer a TDS



3h40, encontro-me com o Bruno Safara a caminho do autocarro que partia às 4 para Courmayeur. Até saímos antes das 4 e tento dormir um pouco pelo caminho. Não deu nada de jeito. Tinha-me deitado às 21h30 mas pouco tinha dormido a partir da 1h. O stress habitual que não deixa descansar.
Em Courmayeur o pavilhão de Dolonne estava aberto e cheio de pessoal a aguardar pela partida. Excelente porque a noite estava fria e iríamos gelar cá fora à espera. Estariam 8ºC. Encontrámos um cantinho onde esticar o esqueleto. Tínhamos 1h e ainda passei por uma ou outra brasa.
Um pouco antes das 6 lá fomos para a partida no centro da cidade e conseguimos reunir todo o grupo; Nelson, Flávio, Trindade, Bruno, Paula, Daniel, Nicolau. Aqui está a foto daquele momento único

Poucos segundos antes de começar a TDS (foto Nicolau Silva)
A primeira ascensão foi feita à conversa com o Flávio e no Lac Combal já o Bruno vinha junto e o Trindade também acabou por se juntar a nós. Até aqui nada de novo e muita tranquilidade. Depois do Lac Combal íamos separar do percurso do UTMB e virar à esquerda, por assim dizer. 
Estávamos a esmagar o tempo que tinha estimado mas sabia que tinha sido conservador e que era muito cedo para tirar quaisquer conclusões.

A subida ao Col Chavannes é fabulosa com algumas passagens bem radicais, tipo se escorregas aqui vão apanhar os teus bocadinhos lá em baixo. A vista para o vale de La Seigne é avassaladora. Toda esta parte, nova para mim e para todos no grupo, é uma maravilha. Passado o Col espera-nos uma descida em estradão, espectacular. Inclinação suficiente para deixar o corpo ir, água gelada em cascatas aqui e ali para encher os bidons, seguimos à conversa tranquilamente.


No final daquele vale infinito haveríamos de ter de ganhar altitude para subir ao Col du Petit St. Bernard já conhecido de há 2 anos quando fui fazer o UTMB mas antes acompanhei a TDS do Paulo Fernandes. Tinha ganho alguma distância do Bruno e do Trindade o que deu jeito para fazer alguma manutenção aos pés enquanto não chegavam. A Cinderela levava um boião de Halibut e sempre que começava a sentir um ponto de fricção era hora de atacar a coisa. Quando estava pronto para sair ainda chega a Paula Penedo e o Trindade e o Bruno estavam nos finalmentes de modo que fui andando devagar.

Tinha algum receio da descida a Bourg de St Maurice porque o Paulo há 2 anos tinha demorado muito tempo na descida e queixou-se imenso das pedras pelo caminho. São quase 14 km de descida em que se descem 1400 m. Aqui comecei a sentir a diferença dos Ultra Raptor. Grande suporte, bom isolamento do piso, conforto. A descida foi feita sem problemas e cheguei a Bourg em pouco mais de 1h30. O mesmo esquema de tratar dos pés, comer e chega o Bruno com a Paula, O Trindade chega um pouco depois. Fui ao controlo de material e como eles estavam a comer lá fui andando. Literalmente! Esperavam-nos 2 Km verticais. Quem quer correr?

Começou a TDS

E foi aqui que começou a TDS. Km 50. Daqui para a frente entramos em terreno inóspito. Só voltaremos à civilização quase 50 Km e 10h depois. Subidas de arrasar, como esta de 2 Km, feita debaixo de um sol abrasador. Se ao princípio ainda íamos num bosque, rapidamente a coisa fica careca e a subida fica a pique. A 2/3 do Col de La Forclaz, em Fort de La Platte água gelada a fartar. Depois a inclinação acalma um pouco. A minha preocupação era passar em Passeur du Pralognan ainda de dia, Uma descida muito técnica, a pique, com cordas e toda em pedra.
Na subida à conversa com um francês ele descreve-me todo o traçado e as horas a que íamos passar em cada ponto. Ia 2 horas à frente da minha estimativa de 25h. Tinha muito muito tempo antes de anoitecer. A coisa estava a correr bem. 
Segue-se Col de La Forclaz onde vamos descer um pouco antes de subir para Passeur de Pralognan. Que paisagem brutal toda esta zona. Contornamos um vale a meia altitude. Tudo é pedra. O trilho mal existe aqui e acolá. As bandeiras bem podiam estar em qualquer lado. As passagens são muito perigosas. Com calma tudo se transpõe. Quando começamos a ganhar altitude para Passeur a coisa fica imprópria para pessoal com vertigens. O trilho quase que não existe por vezes. Com muito respeito lá se passa nas zonas mais perigosas. Uma escorregadela ali e é o fim muitas centenas de metros abaixo. A adrenalina e a paisagem ajudam à festa. 

Por fim Passeur de Pralognan. Tal como o imaginei. Uma parede para descer, toda em rocha, cordas aqui e acolá, saltar de pedra em pedra por ali abaixo. De cá de baixo a vista deixa-me sem palavras. Não se vê o trilho, só a parede de pedra, e um maluco aqui, outro ali, Que visão!

Faltava agora rolar um pouco até ao Cormet de Roseland, muda de roupa, refeição quente. Sentado numa pedra o Romeu bate uma bela chapa.



Tinha dito à Dora que gostava de chegar aqui às 20h e sair ainda de dia por volta das 20h30, Consegui chegar às 18h20 e devo ter demorado 20 minutos ou menos a sair. A coisa estava a correr bem. Não havia euforias com esta hora e meia que tinha acima do estimado. Sabia que havia muito terreno desconhecido pela frente e as contas fazem-se só no final.
Para minha surpresa estavam lá o Nelson e o Flávio com o Tiago. Sabia que eles iam juntos porque o team que nos estava a seguir (Tulio, Raquel e companhia) me tinham dito em Bourg de St Maurice, mas não imaginei que os iria encontrar. É pessoal de outro campeonato. O Flávio barafustava que estava ali há 1 hora à espera e o Nelson dizia para ele ir andando. O costume nestas coisas. O Túlio entretanto fazia fotos à socapa do lado de fora do abastecimento.


Como e troco de roupa em multi tarefa. Insistem em esperar por mim, Acabo por me despachar quase ao mesmo tempo que o Nelson e saímos juntos. Ainda metem um trotezito porque era a direito mas rapidamente a coisa empina e seguimos em fila indiana, Segue-se Col de La Sauce.. O tal francês já me tinha dito que aquilo era só lama e barro, se calhar daí o nome. Eles vão-se afastando a pouco e pouco e acabo por ficar sozinho na descida para La Gitte. Um dos momentos mais fabulosos do percurso. Nunca imaginei passar aqui de dia. Simplesmente mágico. 



Deixo-vos um vídeo que ilustra bem o que é esta fabulosa descida bem como o Passeur de Pralognan. Uma maravilha alpina!


1m20s e 3m45s - Passeur du Pralognan. Dá para perceber porque queria passar aqui de dia.
2m13s - Descida para La Gitte. Aqui acho que também dá para perceber. Brutal!

Entretanto a dureza não dá tréguas e a noite cai a subir para o Col La Gitte. No vale tinham-me dito 2h30 até ao abastecimento Col Joly. Tínhamos deixado o ultimo abastecimento há 2 horas e cerca de 10 Km, faltavam agora mais 10 Km e mais 2h30!! Esta é outra das características desta prova. Poucos abastecimentos. É preciso planear bem a viagem!

Mais uma brutal subida, a pique em muitas zonas e depois uma falsa descida em montanha russa atá ao Col Joly. Muita dureza nesta zona, piso muito irregular, muita pedra, imensa pedra, subidas duras pelo meio. O abastecimento não estava longe...do olhar, porque tivemos de contornar todo o vale antes de lá chegar. Os Ultra Raptor mostravam a fibra de que são feitos. Não tinha trocado de sapatilhas na muda de roupa. E continuavam a fazer um grande trabalho. Foi duro passar esta zona.

Quase a chegar ao abastecimento encontro o Flávio, o Nelson e o Tiago num canto. Então?! Vocês aqui? O Nelson não estava bem e haveria de ficar a repousar um pouco no Col Joly. Ainda saí junto com o Flávio e o Tiago mas na descida para Contamines rapidamente os perdi de vista. Estava agora com 1h30 abaixo da minha previsão. A coisa estava a aguentar-se.

A descida vai dar à Notre Dame de La Gorge e depois daí é o caminho que já conheço até Contamines. Passo um abastecimento pirata de um bar, bem animado, onde me oferecem de tudo o que não é saudável e resisto bebendo apenas um sumo de laranja. No verdadeiro abastecimento fico um pouco de mais a recompor-me e a preparar-me psicologicamente para os 1200m verticais que faltavam, Já me tinham dito que a ultima subida, Col de Tricot era para arrasar com tudo. Uma parede de 600m verticais. Uma parede mesmo! Fico tempo demais e saio cheio de frio. Felizmente é a subir e passados 5 minutos já passou. Ainda assim continuo com 1h15 abaixo da previsão

Toda esta zona final Chalets du Truc, Col de Tricot e Bellevue deve ser lindíssima pois tem imensa vegetação, desnível, muita pedra, cascatas gigantes e até uma ponte suspensa, mas infelizmente não tenho capacidade para aqui passar de dia, muito poucos têm, portanto para nós só sobrou a dureza do percurso e os locais a pique e bastante perigosos, alguns com cordas, onde passámos.

Depois da brutalidade que é a subida ao Col de Tricot o estômago fecha-se. Numa parte teoricamente mais simples fico sem capacidade de correr. Não consigo comer nem beber, só de pensar nisso quase que vai carga ao mar. Quanto tento correr, a mesma coisa. Só me resta seguir a passo. Sinto-me fraco mas nem pensar em meter nada ao bucho. Acho que foi uma água gelada de uma ribeira que me soube tão bem como o mal que me fez. Acontece. Vou gerindo e forçando o andamento. Em Les Houches bebo umas goladas da água com gás que têm nos abastecimentos (que excelente ideia) e depois de uns valentes arrotos, acho que a fornalha voltou a carburar. A previsão para Les Houches dizia 5h30, passo lá às 5h22, Estava a desbaratar o meu pé de meia. Ainda assim ia conseguir atingir o objectivo pois tinha 1h30 para fazer os 8Km finais que são quase planos pela floresta, estradão até Chamonix. Veja-se em Les Houches a pujança do andamento :)


No caminho junta-se a mim um companheiro francês, que ao contrário de 99% dos franceses queria conversar. Estava mais forte que eu. Disse-lhe que estava mal do estômago para ver se ele seguia, mas o raio do homem obrigou-me a ir com ele. E lá fomos. Corremos quase tudo, só metendo a passo numa ou noutra subida. E foi graças a ele que recuperei alguns minutos e virei a TDS em 24h30.

Pelo caminho ainda me contou que estávamos em 240 e tal. Fiquei surpreendido. A prova não me tinha corrido assim tão bem. Achava que ia fazer uma prova médiazita, bem gerida, sempre sem stress. Mas pouco mais. Mas ainda deu para 250º da geral e um 17º do escalão. Oh la la!

Felizmente lembrei-me de mandar um SMS à Dora onde esgrafinhei "15 minutos". Estavam a preparar-se para as 7h mas ia chegar às 6h30. Tiveram de ir a correr mas tive uma recepção de rei, com as minhas princesas todas a vibrar.


Foi magique!

E foi esta a história da minha TDS. Percebi porque esta é A prova. Não tem 170Km, nem tem 2 noites sem dormir (até tem, porque não consegui dormir nada na noite anterior, só não estive a correr). Mas tem um piso destruidor, tem subidas muito mais brutais que o UTMB, tem 20Km entre abastecimentos que podem ser perto de 5h, depende do vosso andamento, é muito mais selvagem, os vossos amigos mal vos vão poder seguir, o isolamento é total e a experiência muito mais arrebatadora. Mas se têm o que é preciso, sem esquecer umas sapatilhas adequadas a este piso, então esta é A prova para quem gosta de montanha e quer sentir os Alpes de uma forma muito mais genuína. Não penso que devam começar por esta experiência. Os Alpes mais pacíficos já são por demais exigentes face ao que estamos acostumados por cá, quanto mais esta experiência extreme. Façam uma primeira abordagem à zona, num formato mais contemplador, que até pode ser trekking, para poderem desfrutar da TDS em toda a sua dureza. E se lá forem não se queixem. Desfrutem!



Uma nota final para a mochila da Grivel: qual mochila? :)

Características da TDS
- 120 km, 7250 m D+
- 6 abastecimentos com alimentos, 2 apoios com bebidas
- tempo do 1º cerca de 14h10
- tempo do ultimo cerca de  33h
- tempo limite 33h

Resultados 2015
- 1809 participantes
- 1214 finishers
- 595 abandonos

Classificação
- 250º em 1214
- 17º em 298 do escalão V2H
- 24h30