Já há canos que não escrevia sobre provas. Embora tenha continuado a participar em provas de estrada e sobretudo de trail, chegou um ponto em que era apenas mais do mesmo. Ano após ano o calendário repete-se, os eventos também. Algumas desaparecem, outras surgem, mas na realidade é quase sempre igual. Mais trilho menos trilho, mais subida menos descida. O nosso país não é assim tão grande, mas sobretudo o que eu escrevo interessa a cada vez menos pessoas.
Nestes quase 20 anos o mundo mudou muito, sobretudo o mundo digital. Hoje ninguém tem tempo a perder com nada. Ler é uma chatice, ainda por cima má prosa, como a minha. Hoje não se perde mais que 2 ou 3 segundos com um conteúdo. O tiktok, o insta, as stories, a parangona, ou nos conquista por mais alguns segundos, 10, 20 no máximo, ou já foi. É como o Tinder, ou gostas ou zuuut, já foi.
Por isso letras, histórias e conversas não interessam a ninguém. Nada a fazer. Sinal dos tempos.
Mas não há regra sem exceção, nem bela sem senão. Por isso aqui estou de novo para um pequeno balanço.
Eu ainda sou do tempo em que o MIUT era a única prova em Portugal que pertencia ao defunto circuito UTWT (Ultra Trail World Tour), um circuito que incluía as mais emblemáticas provas do mundo e que culminava com a final do Mont Blanc. Era uma coisa muito elitista e sobretudo pouco acessível para quem tinha ambições de topo. Só atletas profissionais e com muita pasta conseguiam ganhar o circuito que decorria pelos 5 continentes. Além disso promovia enormes viagens de avião o que era um contrassenso com os valores ecológicos perseguidos pelo UTMB. E claro houve também uma tal de pandemia…
Até 2021 as coisas assim continuaram, até que o UTMB reformulou todo o processo. O MIUT ficou de fora do novo formato que o UTMB impôs chamado UTMB World Series a partir de 2022. Para além de uma série intrincada de exigências, o novo processo de seleção exigia agora que se participasse em eventos organizados pelo UTMB (os chamados by UTMB) para se poder sequer concorrer ao Mont Blanc UTMB. Sem querer entrar em mais pormenores ou explicações, até para não perder a unica pessoa que ainda deve estar a ler isto, o problema que se colocou é que desde 2022 era preciso ir no mínimo a Espanha para poder participar numa prova by UTMB e assim poder concorrer ao Mont Blanc UTMB, alegadamente o Santo Gral de qualquer praticante de trail, o sonho supremo.
No fundo os eventos by UTMB são provas que esta organização abraça com o seu branding e merchandising. A troco de uma, seguramente razoável quantia, o UTMB monta toda a logística, assegura a qualidade do evento, garante a participação de centenas de participantes estrangeiros e de atletas de topo. Os participantes conseguem os ambicionados pontos (chamados Stones), os organizadores o ambicionado prestígio, as localidades o ambicionado retorno, o UTMB o ambicionado rendimento e os atletas deveriam também desfrutar de um evento ainda melhor do que o que havia antes do UTMB tomar conta do pedaço. Parece o exemplo perfeito do chamado win-win, neste caso um win-win-win-win. A ver iremos.
Antes de mais, deixar claro que o que me levou a escrever sobre o evento não tem nada de panfletário, não estou ressabiado, nem estou interessado em dar qualquer visibilidade à minha opinião que, como sabem é apenas minha, num evento onde estiveram 2200 participantes (acho que ouvi este número). Apenas deixar o testemunho de uma nova época que nasceu no passado fim de semana.
Goste-se mais ou menos da produtização que o UTMB trouxe ao Trail como desporto, é inegável o seu papel. Basta assistir às finais no Mont Blanc para perceber o nível, a visibilidade e o profissionalismo que a organização atingiu, com transmissões ao mais alto nível, em direto dos trilhos, dos eventos. O UTMB é hoje uma máquina brutal espalhada pelo mundo. Dezenas de equipas com centenas de empresas, montam e desmontam semanalmente o seu circo mediático por esse mundo fora. O Mont Blanc é apenas mais um dos muitos eventos, obviamente o mais importante e ambicionado do ano.
O Oh Meu Deus é também um dos mais antigos e emblemáticos ultra trails nacionais e foi com enorme expetativa que toda a comunidade de trail viu esta prova integrar o circuito UTMB World Series. Seguramente outras provas o poderiam fazer, espero que o façam, assim hajam condiçõ€s para mais.
Mas o Oh Meu Deus merecia essa oportunidade sem qualquer duvida, desde logo porque percorre a mais alta serra de Portugal continental que é de facto um território único e excepcional.
Não sei se voltarei ao UTMB Mont Blanc algum dia (quem lê este blog sabe que já fiz (quase) tudo e mais umas botas do que há para fazer ali). Não estou a ficar mais novo e o corpo e a cabeça vão-se negando a ultra aventuras, mas não podia deixar de participar neste momento único do trail nacional.
Assim escolhi a prova dos 50Km. Encaixava bem no meu calendário anual. Preparei-me como pude. Já não vai havendo grande paciência e disponibilidade para grandes treinos, planos e disciplina.
E assim lá fui juntamente com a Dora o Eduardo e a Mena.
A máquina UTMB estava impecavelmente montada. Uma estrutura bem dimensionada. Tudo fluiu de forma simples. Uma feira de material simpática, entrega de dorsais muito eficiente. Rapidamente nos despachámos porque era preciso jantar cedo e cedo deitar. A partida às 8h de Loriga obrigou a apanhar o autocarro da organização às 6h e por isso a acordar às 4h30.Em Loriga até se esperou bem pela partida no Café Império. Único ponto a assinalar, a falta de casas de banho de apoio. A casa de banho do café e a casa de banho de uma organização local pareceram-me manifestamente insuficientes para quase 800 pessoas. Felizmente não precisei, sempre foi menos um.
Já conhecia todos os trilhos da prova, embora o percurso neste formato específico creio que foi a primeira vez que foi efetuado. As partidas por 'levas' ou waves (em estrangêro) também foram uma excelente ideia. Vê-se que a organização está bem rotinada nestas coisas. Os atletas estão distribuídos nas waves por indíce UTMB o que garante que cada onda está mais ou menos ao mesmo nível e não se verificaram filas nem stressadinhos a querer ultrapassar tudo e todos à bruta.
A minha prova não teve grande história. O dia estava magnífico, fresco sem estar frio, sol para aquecer sem ser em demasia, um vento fresco na torre mas suportável pois estava sol. Só senti algum calor na subida após Loriga, na hora mais quente do dia, De resto a prova foi toda feita em t-shirt com manguitos à partida.
A prova não teria mesmo qualquer história se a dado momento não sacasse do telefone para 'falar' um pouco com o resto da equipa que se estava a preparar para vir para Seia. Eles iam fazer os 100Km e só começavam à meia-noite. Disseram-me que estava em 5º o que me agradou porque assim podia ir tranquilo sem pensar em pódios. Sem que tivesse feito nada por isso, que me lembre, às tantas dizem-me que estou em 2º porque deixei sair o 1º à minha frente no abastecimento. Mau!!! Eu nem estava a perceber quem eram os velhos que tinha passado, mas este sabia quem era. Já tinha ficado para trás na subida após a Lapa dos Dinheiros. Só podia ser aquele, porque o resto do pessoal era tudo malta muito mais nova que eu. Não que tivesse feito alguma coisa por isso pois nessa altura nem eu sabia que estava em 2º.E pronto, Lá tive de dar ao chinelo. Estaria mesmo em 1º ? Seria mesmo aquele atleta que tinha passado o primeiro ? Só o poderia saber em Seia, por isso lá tive de me despachar para obter a resposta.
As marcações tirando um ou outro ponto, estavam muito boas, não tive qualquer engano, só me chamaram uma vez já ia desembestado. Os abastecimentos foram o calcanhar de Aquiles da prova. Eu pouco ou nada comi e sinceramente não me fez diferença, mas as várias pessoas com que falei foram unânimes: muito maus. Quando penso retrospectivamente só posso concordar. Uma bosta, sem coisas substanciais ou sequer relevantes. E que pensar de não haver sequer uma sopa digna desse nome em Loriga ? Ou colocarem um panelão de massa e bolonhesa na Lapa dos Dinheiros a 10Km da meta sendo que os últimos 6 eram a descer ? E porque só a prova dos 100Km teve direito a sopa de legumes em Loriga ?
Parecem-me coisas ridículas e inexplicáveis quando tudo o resto estava irrepreensível. Acredito que haja uma explicação e se houver sou todo ouvidos. Venha de lá esse questionário que é o sítio ideal para fazer chegar a nossa voz à organização.
Tirando o que esteve menos bem, a organização está de parabéns. Sem duvida que o que falhou chateou algumas pessoas, mas são coisa simples de resolver na próxima edição, assim haja vontade. É verdade que é uma prova by UTMB mas temos de ser capazes de lhe dar o nosso cunho tuga. E cumer e buber é conosco! Numa prova tuga não pode faltar boa e farta comida, raios!
De resto a Estrela será sempre a Estrela, a nossa menina dos olhos, única e sublime. A máquina UTMB também será sempre uma máquina e a equipa do Paulo Garcia não lhe fica atrás.
Portanto façam o favor de corrigir as falhas que vos forem apontadas e aos atletas que estão a ler isto e não conhecem o Oh Meu Deus, façam um favor a vocês próprios e não falhem o próximo.
Quanto a mim e ao resto da nossa comitiva, desportivamente a prova foi um sucesso. A Dora que inicialmente só queria ir aos 20 Km mas por questões logísticas teve de fazer os 50, superou mais um enorme desafio e conseguiu concluir a aventura. A Mena também terminou dentro das suas expectativas. O Eduardo fez 2º do escalão M55 e eu acabei mesmo por ganhar o escalão M60.
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| Os vencedores de todas as categorias |
Para um velho coxo dedicado, que é a minha real categoria, foi um feito histórico. Nunca tinha ganho porra alguma, pensava eu. Tive de ir à estante poeirenta dos tarecos confirmar. E estava enganado. Ganhei o escalão M55 do Pinga Trail em 2021. A minha única vitória até à data tinha de meter pinga, tá certo!
Por isso, sim, esta vitória foi o auge da minha "carreira" de "atleta". E sim, havia mais do que 1 velhote M60 a correr nos 50Km. Éramos 21 de 5 países. Por isso ganhar o Oh Meu Deus by UTMB, a estreia do circuito em Portugal tem um enorme significado para mim. A ver se não me esqueço tão cedo como me tinha esquecido já do Pinga Trail …
Não posso acabar sem voltar a referir a minha companheira Dora e o percurso que fizemos neste ultimo mês. Foi uma grande preparação que culminou num manancial de novos tarecos para acumular mais pó.
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| Uma colheita excepcional: Team Pires, Abril 2026 |
Mas mais importante que os tarecos é continuarmos a ter a saúde suficiente para alinharmos e superarmos enormes desafios. Parabéns para ti. Parabéns para nós. Venha a próxima.
Deixo-vos um vídeo onde gostei muito de rever toda a prova que fizemos. Parabéns ao autor.
Até à próxima!








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