domingo, 8 de setembro de 2013

Ultra Trail do Mont Blanc (UTMB) - 168 Km para sonhar (2ª parte)



UTMB - Ultra Trail do Mont Blanc
Uma prova de 168Km - 100 milhas e 9600 metros de desnível positivo, realizada em redor do maciço do Monte Branco. Um circuito circular com partida e chegada em Chamonix (França) mas passando também pela Itália e Suiça. A prova é realizada numa única etapa. Cerca de 2500 participantes. Tempo máximo 46h. Tempo do vencedor cerca de 20h 30m. Condições para participação: reunir 7 pontos em 3 provas, acreditadas pela organização, nos ultimos 2 anos. Em Portugal, em 2013, 11 provas pontuavam para o UTMB. A lista de todas as provas pode ser consultada aqui. Dado o elevado número de candidatos, mesmo reunindo todas as condições é efectuado um sorteio. Em 2013 houve mais de 10.000 candidatos para 2300 vagas. Eu fui um dos sorteados...



Estava estranhamente calmo e descontraído. Parece que não ia partir para a maior aventura de corrida que alguma vez fiz. Toda a semana dormi sem qualquer problema ou sobressalto. Mesmo na 5ª feira fui dormir tranquilo. O facto da partida ser ás 16h30 retira a pressão de termos de acordar cedo e despachar tudo rapidamente, deixa margem para se resolver algum imponderável de ultima hora. De véspera tinha já verificado e reverificado tudo. A mochila e o material obrigatório estavam já verificados. Restava garantir que não me ia esquecer de algum item mais pessoal. Tinha deixado algumas coisas para comprar em Chamonix tais como um copo e a camada térmica adicional com mais de 180g. Tinha várias opções para esta camada mas ocupavam demasiado espaço na mochila. Deixei para Chamonix a aquisição de uma coisa que rondasse as 180g superando assim a exigência da organização. Também me faltava um copo e imaginei que ali conseguisse comprar um copo XPTO que se transformasse num pedaço de papel quando não estivesse a ser usado... quase que conseguia.

De véspera já tinha resolvido estes 2 pontos porque precisava de ir ao controlo já com o material obrigatório completo. As únicas coisas que me causavam alguma apreensão eram o Paulo não ter conseguido acabar a TDS e o que isso estava a afectar o seu estado de espírito, e o facto de ir ficar longe da família e dos amigos durante 2 dias. Gostamos de ter a família connosco e depois custa um pouco a separação. Ao longo daquela semana já tínhamos criado as nossas rotinas e não me apetecia muito separar delas. Nesse sentido é mais simples quando vamos para as provas sem eles. Assim como assim já estão longe, nada a fazer a não ser acabar depressa para voltar. É certo que os iria rever ao longo do percurso por alguns momentos mas não é a mesma coisa…

Fechado o capítulo do material obrigatório apenas o material opcional e os pormenores finais estava em aberto. Podemos mandar um saco para Courmayeur (80Km) com equipamento e material para trocar. O facto de também ir ter apoio noutros pontos obrigou a pensar bem a estratégia do que meter no saco. Algo podia falhar com a presença deles em Courmayeur e o que metesse no saco ia ficar “preso” no saco, por assim dizer.
Na noite anterior planeámos as viagens nos autocarros, os pontos de apoio onde poderiam estar e o que iria no saco. A família poderia sempre aparecer mais tarde noutro ponto se falhasse Courmayeur. Os itens essenciais teriam de ficar com eles e não enviados para Courmayeur.

Houve alguns riscos assumidos. Não deve haver experiências em provas. Muito menos neste tipo de provas. Muito menos numa primeira prova de 100 milhas… Mas não há regra sem excepção. 2 dias antes experimentei um adesivo na minha zona fraca dos pés. Nunca tinha usado adesivo nos pés em prova. Aquele parecia-me bem resistente e confortável. Optei por levá-lo. Poderia sempre arrancar aquilo se começasse a sentir que se estava a enrugar e a soltar.
Também revi a configuração da minha mochila. Costumo usar os bolsos frontais para levar várias coisas, comida, máquina fotográfica, etc. Mas desta vez cismei que havia de levar garrafas à frente. A minha mochila não comporta mais bolsas para garrafas à frente porque iriam sobrepor-se ás actuais bolsas que já tenho. Depois de ter analisado a questão com um companheiro do stand da Salomon que já me tinha ajudado a ajustar melhor a minha mochila e explicado e reconfigurado o suporte dos bastões, decidi seguir a sua dica: em vez de bidons, iria levar garrafas de Nestea (0,5 lt) nas duas bolsas frontais e usar as bolsas traseiras para levar o material que costumava levar nessas bolsas.

Os ténis de substituição foram uma dúvida até à véspera. Já tinha decidido que iria partir com os meus habituais e já muito estafados Asics Fuji Attack. São confortáveis e estão totalmente adaptados aos meus pés. Sofro muito dos pés e fazer 168 Km deixavam-me claramente preocupado. Este poderia perfeitamente ser um ponto de falha. Se alguma coisa pudesse fraquejar eram seguramente os meus pés.
Na véspera a Salomon tinha-me convidado para ir tomar um café com o Miguel Heras. Éramos cerca de 12, dos quais eu era o único português.


No bar da piscina do Hotel a conversa estava animada, eu lá ia pescando umas coisas do espanhol em que a conversa seguia. Foi muito interessante. O Heras mostrou a sua mochila e tivemos oportunidade de verificar que, tal como nós, tinha todo o material obrigatório lá dentro. A mochila tinha o chip colocado e ele foi pessoalmente levantar o dorsal e verificar o material. Entre muitas coisas o Miguel às tantas mostra os ténis que usa para treinar e eram iguais aos meus Salomon Sense Mantra. estavam já bem gastos, prova que os usava mesmo para treinar. Eu gosto imenso dos Sense Mantra e em breve vou escrever uma review dos mesmos. 
Perguntei-lhe se ele achava que eram uns bons ténis para fazer a UTMB ao que ele me respondeu, "hombre por supuesto que si". Ele próprio iria usar os Sense Ultra uma espécie de Sense Mantra na versão S-Lab, um pouco mais leves ainda e com um rasto um pouco mais agressivo entre outras diferenças claro. Ficou ali logo decidido que seriam os Sense Mantra e não os XT Wings 3 que iriam ser os ténis de backup. Bolas, se o Heras diz, não há que enganar. Na realidade nunca fiz nenhuma prova com nenhuns deles e não estão bem moldados ao meu pé. Mas os Sense são muito confortáveis. Tinha receio da dureza do XT Wings 3.

Já que estávamos numa onda de levar material de substituição nunca testado em prova, também as meias teriam a mesma sorte. As minhas Wright Sock já têm tantos milhares que Kms que, coitadinhas… Iria na mesma levá-las mas precisava de algo para trocar se fosse necessário. A conselho de um vendedor de uma loja lá me decidi por umas Compressport Proracing, aquelas com a tecnologia 3D Dot. Acho que aquilo é mais marketing que outra coisa qualquer mas a marca é de confiança e as meias pareceram muito confortáveis. Além disso eram só de substituição… siga.

Para finalizar as inovações não resisti a comprar um porta dorsais. Uma cinta que se coloca e retira facilmente para levar o dorsal. Isto facilita a troca de roupa já que o dorsal não vai preso com alfinetes a qualquer peça de roupa. O dorsal já têm a furação compatível com os pontos de fixação na cinta. O material do dorsal inspira alguma confiança que poderia resistir a 2 dias pendurado naqueles ilhoses. Além disso a cinta oficial tem uma bolsa para levar qualquer coisa, um telemóvel por exemplo… uma bolsa impermeável. Convenceu-me. Vamos lá usar isso. Sem o saber esta decisão iria condicionar a minha prova….

Depois de um almoço leve lá saímos de casa. Entregar o saco com as coisas para Courmayeur e regressar à partida. Na zona da partida a confusão era já enorme. O caminho de saída de Chamonix estava já repleto de gente. Arranjámos um local para a Manuela e elas foram-me levar até o mais perto possível da praça da partida. Fiquei numa lateral já que era impossível toda a gente caber naquela praça. Despedi-me delas, um momento um pouco angustiante. Na prática iria vê-las já em Contamines….  era só um até já. 
Faltavam mais de 30 minutos para a partida. Ali fiquei. Rodeado de estrangeiros de várias nacionalidades. Mais perto da partida o ambiente era de festa. Ali estava tudo mais circunspecto. 



O pessoal lá ia tentando distrair-se com o speaker de serviço que nos tentava entreter. Era hora de tentar antever o que aí vinha. Quase 2 dias de montanha longe das habituais rotinas do dia a dia. Não ia dormir, sentar, almoçar, descansar, talvez nem mesmo conversar. Mesmo que fizesse a prova com alguém haveria longas horas de solidão. Iria ter sono? Exaustão? Como seria a 2ª noite? Como se iriam portar os meus pés, um ponto sempre fraco. Iria chegar ao fim? Iria resistir aquelas brutais subidas? A resposta vinha já a seguir.


E a hora chegou. Um misto de felicidade e inevitabilidade invade-nos. Por mais que se tenha treinado o coração fica apertadinho. As emoções ficam à flor da pele. O momento é de uma loucura total. Milhares de trailers dirigem-se para o arco da partida. A praça está louca. Há centenas de pessoas à janela a aplaudir. Impossível não ficar comovido. Estava a começar a viagem pelo Monte Branco. Tanta preparação, tanto planeamento, que ambiente fantástico. Continuava a sonhar acordado. Logo depois da 1ª curva procuro e encontro a família e os amigos. Loucura!!!! O ultimo adeus e vamos embora. 

A emoção dá lugar à concentração. É como se carregássemos no botão REC e a prova começa. Internamente percorremos a check list de cenas. 1 Km de corrida. All systems GO. Nada foi esquecido. Ajustam-se os ultimos detalhes para o conforto. Uma coisa mais solta ali, a maquina fotográfica aos saltos acolá. 

Os primeiros Kms já sabia como eram. Planos, agradáveis, entramos num bosque e mantem-se o perfil suave. Uma ou outra subidinha e o pessoal metia a passo. Simpático o ritmo. Toda a gente a resguardar-se e a não arrancar que nem doidos. Sempre gente na berma, sempre, sempre. Vejo algumas bandeiras portuguesas, festejo com eles. No bosque também imensa gente. Ninguém regateia palmas, buzinas, chocalhos. Que festa rija. Seguimos ao longo do vale de Chamonix ao lado da estrada e por dentro do bosque. Ribeiros, pequenos lagos, famílias em picnics. O costume num local de sonho.



As minhas primeiras sensações eram boas. O ritmo calmo, o tendão de Aquiles esquerdo a queixar-se, falta de aquecimento, em breve iria desaparecer… ou não… sei lá. Saímos da floresta praticamente em Les Houches a vila logo a seguir a Chamonix onde iríamos abandonar o vale e começar a subir. Um abastecimento líquido que passei ao lado. Ao fim daqueles 8 suaves Kms não tinha tocado em água e nem sequer sentia necessidade disso. De forma progressiva o terreno começa a empinar e começamos a sentir os Alpes.
Ainda apenas um primeiro cheirinho. Era preciso subir 750 m em 6 Km. Somos imensos e toda a gente segue a passo. Les Houches a ficar pequenina lá em baixo. E a gente a subir, a subir. Cada vez mais inclinado. Às tantas encontro o Tiago Martins e colo-me a ele. Vai um pouco mais lento e sigo à frente. Prefiro companhia e a diferença de andamento é insignificante. Alguns minutos depois encostamos ao Carlos Fonseca.





Seguimos os 3 à conversa. Eu fiquei contente já vinha calado há muito tempo. Alguém para eu azucrinar os ouvidos era bom. Achei que eles estavam um pouco lentos a subir. Invariavelmente esperava um pouco por eles. Não me apetecia seguir sozinho. Ainda passa por nós o Carlos Barrocas com um companheiro mas decidem não ficar no nosso ritmo.





Vencida a primeira subida em Délevret seguia-se uma fantástica rampa para descer 900m em 7 Km até St. Gervais, o primeiro abastecimento a sério. Descida com piso de luxo. Erva, caruma, uma maravilha. Um pouco de inclinação a mais mas compensada pelo piso muito macio. Era mesmo isto que eu pensava que a prova ia ser, estes trilhos fantásticos até ao fim…
Ao longo da descida vários chalets de montanha, pessoas a apoiar, muita gente monta abastecimentos por conta própria com água, coca-cola, um luxo!
Que qualidade de vida há por ali.

Na descida ainda encontro um grupo de companheiros tugas, o Paulo Picão e o Vitor Andrade, fomos um pouco à conversa até que de repente estamos a entrar no abastecimento de St. Gervais. Ambiente eléctrico com a vila inteira na rua a aplaudir. A musica, as palmas. Fantástica recepção. Estamos com 20 Km e 3h13 de prova. Entro em 1928º no abastecimento. Éramos 2500. O primeiro milho é dos pardais… deixós poisar…


Ainda vejo a Paula Fonseca que me apanha já de costas à entrada do abastecimento. Tento perder pouco tempo até porque não sinto grande necessidade de abastecer. Agarro umas barras que guardo na mochila, sorvo a primeira de muitas sopas instantâneas tipo caldo de galinha em pó com massa, tento não me perder do Carlos e do Tiago. A sopa é super salgada o que é excelente para repôr o nível de sal. A confusão é imensa. O abastecimento está bem desenhado, há imenso espaço e as coisas estão bem distribuídas mas há muita gente ainda acumulada nesta fase da prova. Era tamanha a quantidade e variedade de alimentos disponíveis que nem consegui apreciar bem tudo. Saímos rapidamente e conseguimos encontrar-nos novamente à saída do abastecimento. Nesta altura um facto iria ditar o rumo da minha prova. Rodo a fita do dorsal para o posicionar melhor na cintura, o dorsal prende-se algures e rasga-se um dos ilhoses. O dorsal fica pendurado só num ilhós e eu fico a olhar para aquele serviço. Que raio! E agora. Pensa, pensa! Olho para aquilo e não havia nada a fazer. Amaldiçoo o Paulo Fernandes que me tinha recomendado aquela porra e que o material do dorsal era muito resisitente... Talvez usar um ilhós de baixo e ficar com o dorsal na diagonal, não iria durar muito assim. Como ia agora prender aquilo? Pergunto ao Carlos se tem um alfinete. O Carlos passa-me um alfinete. Paro para prender aquilo melhor e fico talvez 1 ou 2 minutos de roda do assunto. Quando me dou por satisfeito levanto os olhos e não vejo ninguém. Seguiram e vão mais à frente, pensei. O dia estava a escurecer e no meio de tanta gente à minha frente é impossível descobri-los. Decido forçar um pouco o ritmo para os apanhar mais depressa. Ao fim de uns minutos tinha passado imensa gente e nada deles. Fico a pensar que de facto parar 1 ou 2 minutos tem um impacto enorme para recuperar já que eles não pararam e seguem pouco mais lentos que eu. Decido acelerar mais um pouco. Onde é que eles estão? Continuo a passar gente. A noite começa a cair. Começa-se a ver imensa gente nas bermas, a vestir casacos a colocar frontais. Não está frio para casacos e o meu frontal está no bolso traseiro. Não preciso de parar para isso. Vou-me colando a um e a outro que já levam os frontais acesos. Ainda era demasiado cedo para começar a gastar as pilhas. Já começo a duvidar que os vá encontrar. O que terá acontecido? Descarto a hipótese de os ter ultrapassado sem os ver. Teriam parado também algures perto de mim e nem os vi quando arranquei? Teriam acelerado um pouco e continuavam à frente? Que raio!

Contamines fechava às 22h30. Sem problemas. Ainda não era 9h30 e Contamines estava à vista. Pouco menos de 2h para fazer aqueles 10Km em que subimos 300m. Parece pouco mas passei quase 400 companheiros. A noite já ia cerrada. Já tinha posto o frontal e já o tinha ligado uma ou outra vez. De resto continuava na poupança. Entro no abastecimento e meto a passo, imensa gente aguarda pelos atletas. Sigo na esperança que me reconheçam porque não se consegue olhar para tanta gente ao mesmo tempo. Ainda por cima aquela zona tinha pouca luz. Acabo por entrar na zona da comida e ninguém me chamou. Estou um pouco angustiado. Não terão conseguido chegar a tempo? Não me viram? Mal como e saio para a zona de assistência. Resmas de gente por ali, atletas, assistentes, um mar de gente. Não consigo ver ninguém. Fico um pouco perdido e desmoralizado. Como iria encontra-los? 
De repente oiço a Dora a chamar-me, estava mesmo á minha frente. Ahhh que alívio! Foi quase só apoio moral. Estivemos um pouco à conversa. Tinham deixado entrar também a Margarida. Ela tentou prender melhor o dorsal com o alfinete e eu lá me fui vestindo e preparando para a noite. Ainda só o casaco impermeável e o gorro. Não perdi muito tempo, tudo estava bem. Saí e encontro o resto do team. A Mónica a tirar fotos, a Manuela e o Paulo que veio comigo um pouco a correr. Conto-lhe a história do dorsal e pergunto-lhe pelo Carlos. Nada, não o tinha visto. Aí compreendo que os perdi para trás definitivamente. Fiquei sozinho. Bolas, não vou ter companhia.

Seguimos noite cerrada por uma zona de floresta. Montes de coisas estavam a acontecer por ali. Tendas enormes acesas com gente aperaltada a aplaudir-nos, seria um casamento? Mais à frente outro evento este ao ar livre, acho que li algures exposição de fotografia ou algo do género. Imensa gente, todos aplaudem e vibram. E começa a subida. E que subida. Sempre a dar-lhe. Íamos ter de vencer 1300m até ao Refuge Croix Bonhomme aos 2439m. A meio da coisa, em La Balme um abastecimento para dar ânimo. Estávamos aos 1700m e a noite e a altitude começavam a fazer-se sentir na temperatura. Sabiamente depois de me abastecer e antes de retomar a subida tomo a decisão de vestir a minha nova camisola térmica. Ainda bem. Um arrepio de frio percorre-me de alto a baixo, fecho-me todo e arranco numa caminhada rápida montanha acima em busca de calor. Sinto imenso frio. Quando páro o corpo molhado arrefece muito rapidamente. Entro um pouco em paranóia com arrepios de frio mas mantenho a calma. Vesti tudo o que era preciso, logo logo vou estar quente. E assim foi. 1 ou 2 minutos depois estabilizei. O calor chegou e pude concentrar-me em subir a bom subir. O pico revelava-se agora cada vez mais técnico e acidentado. Subia a bom ritmo. Ora em filas de pessoal um pouco mais lento para descansar, ora ultrapassando e seguindo depois um pouco mais solto ao meu ritmo. Centenas de companheiros sobem a montanha. O silencio é total. O bater dos bastões é a nossa musica de fundo. A comunicação é reduzida ao mínimo. Subir esgota todas as forças. A língua é outra barreira. Nunca sabemos que língua fala o tipo à nossa frente. Será francês, espanhol, italiano, alemão, japonês, ou outra coisa qualquer, ou um misto destas todas. Na duvida seguimos em silêncio. É mais seguro. A musica dos bastões é interrompida aqui e ali por um vómito profundo. Daqueles que até fazem doer. Ecoam pela encosta. Alguém em dificuldades. Quando passo por um deles sinto um aperto no estômago. Ao ver a quantidade que o homem vomitava pergunto-me onde terá estado a jantar?

No colo voltamos a conseguir correr a espaços e quando as pedras não perturbavam muito o percurso. Vencido este 2º pico, 1º dos grandes, tinha papado mais 250 lugares na classificação. Seguia-se uma descida algo técnica, não sou forte nas descidas. Normalmente é aí que os pés se vão à vida. E toda a zona lombar que sofre com o peso do menino. A coisa correu ainda assim razoavelmente bem. Foi quase 1 hora a descer aqueles 900 m. A somar às 3 horas para subir desde Contamines. Em 4 horas aquele pico foi vergado. E ainda subi quase 270 lugares na classificação. Estava agora em 1290º. Nada mau para um coxo. 50Km e quase a meio da tabela dos quase 2500 que alinharam à partida.

Em Les Chapieux aguardava-nos um controlo de material surpresa. Afinal o material obrigatório é mesmo obrigatório para todos. Foi verificado o telemóvel, a camada térmica, o casaco impermeável e o 2º frontal. Isto não é só fazer regulamentos a dizer que é obrigatório. É preciso verificar e punir quem não cumpre. Passei com distinção. Feito o abastecimento era tempo de partir e de novo a rotina do frio. Decididamente não posso parar tempo nenhum nos abastecimentos. Mesmo resguardado e quentinho arrefeço rapidamente. E para sair e voltar a correr para o frio é uma desgraça. Saio de novo a correr e a tentar aquecer. Passo montes de gente até começar a aquecer e voltar a poder meter a passo. Afinal era a subir. Pouco mas era. Esperava-nos novo pincel, subir 1000 m e descer 500 m até ao novo porto de abrigo. Seriam por volta das 2 da manhã. Depois de um bom pedaço em alcatrão onde tentava correr a espaços a coisa lá desviou para os trilhos quando começou a subir a sério. A subida era muito semelhante à anterior. De noite todos os gatos são pardos. A Lua nem vê-la embora eu soubesse que ainda devia haver um restinho. Afinal a lua nova era só na 5ª feira, próximo treino lunar.

Tal como no pico  anterior tudo correu dentro do esperado. Mais uns tipos a vomitar, os bastões a tilintar, a subida a empinar e depois de mais 3h15 e mais 150 lugares na classificação lá chegámos ao Lac Combal. Aqui também a rotina do frio. O abastecimento era menos resguardado, comi sopa e vários chás para tentar não arrefecer mas na hora de partir… que frio. É verdade que embora tivéssemos descido 500m ainda assim estávamos quase a 2000m de altitude num vale, rodeados de montanhas com neve. Corre amigo, aquece, aquece. Aqui estava muito frio. 5 da manhã, deviam estar para aí uns 3 graus se tanto. A nossa sorte é que não havia vento. Nos abastecimentos recarregava os alforges com algumas barras, quer salgadas que doces. O material da Overstims é mesmo muito bom. Nunca tinha provado e arrisquei um pouco em levar e tomar gel desta marca pela primeira vez, mas sei que o estômago não é um ponto fraco e melhor ou pior lá se acaba por ruminar tudo o que me põem à frente. Gostei de tudo o que experimentei :)

Aos 2000m com 65 Km e 12h35  de prova só faltava agora transpor o ultimo colo da noite e descer depois sem fim desde os 2400 até aos 1200 em Courmayeur onde se tudo estivesse a correr bem a minha super equipa me esperava para uma bem vinda muda de roupa. Mas antes disso era preciso transpor este ultimo colo. O dia já nascia e conseguia-se agora apreciar a magnífica e deslumbrante paisagem. Vacas espalhadas pela montanha, a dormir, a ruminar, vales glaciares, picos cobertos de gelo. Aqui e ali zonas com gelo. Que paisagem. A subida era dura mas não era já nada de novo. No pico lá estavam os voluntários com a habitual pistola sem fios à espera de validar o nosso dorsal. A tecnologia em uso na prova é impressionante. Todos aqueles picos e pontos de passagem estão online e aquela pistola sem fios despoleta um complexo processo que termina com um post no meu mural do Facebook, um Twit em meu nome e um SMS no telefone da Dora. Divertia-me a tentar imaginar o que estaria a acontecer naquele momento. O que estariam a fazer, quem estaria no Facebook e iria ver o post, que emoções isso iria despoletar. Aqui devia ter tirado umas fotos de facto. Mas o cansaço e a vontade de chegar a Courmayeur foram superiores a tudo isso. Já não tinha paciência para mais fotos. Guardei na minha memória de forma egoísta aquele amanhecer lindo de morrer com os glaciares a acenderem-se lentamente. Que deslumbramento.
A descida para Courmayeur foi fantástica. O piso tinha alguma pedra mas deixava correr aqui e ali. O dia estava cada vez mais luminoso. Céu imaculado. O dia ia ser quente embora aquela hora nada o indicasse. Estava cansado mas conseguia ainda correr nas descidas. Ainda iríamos parar no Col Chécrouit para um abastecimento intermédio antes da descida empinar definitiva e literalmente escada abaixo até Courmayeur. Era preciso algum cuidado e a inclinação era brutal nalgumas zonas, quase tudo feito em degraus ou socalcos. A velocidade não era grande mas descíamos a bom descer e num trote suave arriscava-se aqui e ali uma escorregadela tal era a inclinação. Seguíamos em fila e por vezes era possível ultrapassar arrepiando caminho por atalhos ainda mais inclinados.

Quase 3 horas depois de Lac Combal estava a chegar a Courmayeur. 15h24m quase 78Km. Tinha já subido 900 lugares na classificação desde Saint Gervais. Estava agora em 1074º.
Aqui não houve duvidas. A Dora surge ao caminho. Estava feita quase metade da prova. A Paula pergunta-me se vi o Carlos e digo-lhe que não o vejo desde Saint Gervais. Ela diz-me que ele já passou mal e que as coisas não estão a correr bem. Aqui pude-me dar ao luxo de ter tempo para tudo. Troquei de roupa e subi para comer uma massa mal amanhada com uma molhanga manhosa. Que raio, nem parecia que estávamos em Itália. Decidi manter os ténis. Os pés não estavam muito mal tratados, os adesivos que coloquei mantinham-se no local. Não havia qualquer mazela. 
Deixo 2 ou 3 peças de roupa molhada no saco, dou tudo o resto à Dora e devolvo o saco. Pouco mais de 30 minutos e saio para a estrada. Roupa seca, ainda conservo o casaco e bem. Estava bem fresco às 8h30 da manhã. O sol já se fazia sentir nos picos mas no vale ainda era preciso esperar um bom bocado. O Paulo acompanha-me até ao principio da subida. Fotos e mais fotos. Seguimos à conversa. Ele diz-me que estou bem que estou a fazer uma excelente prova, sempre a passar abaixo do tempo que tinha estimado. Courmayeur ia fechar ás 11h e às 8h30 eu já estava despachado e a correr. Estava sempre a ganhar tempo às barreiras horárias. Embora ainda fosse muito cedo para cantar vitória a coisa estava a correr bem e isso anima qualquer um. Nesta fase embora estivesse bem tinha apenas passado a parte mais fácil e sabia que o pior estava para vir. Os restantes picos, a 2ª noite, o cansaço acumulado, passar dos 100Km, conseguiria resisitir ao que estava para vir? O sentido de missão tinha-me trazido fresco até aqui. Ao iniciar o 2º dia ia começar tudo de novo, menos o empeno de 80 Km e 4400m de desnível positivo que já carregava às costas. Faltavam apenas 5000 m de desnível positivo e quase 90 Km. Bora lá!


sábado, 7 de setembro de 2013

Ultra Trail do Mont Blanc (UTMB) - 168 Km para sonhar (1ª parte)



É um local mágico aquele onde nos encontramos. A sensação de estarmos a viver um sonho torna-se mais real à medida que nos aproximamos daquele vale fantástico de Chamonix (diz-se Chamoni, o x é mudo). De repente as montanhas ficam gigantes e Chamonix encaixada no fundo do vale a 1000m de altitude está ladeada por enormes paredes, que chegam aos 3800 m de um dos lados e do outro aos 2500 m

A chegada ao final do dia com as luzinhas da vila a acenderem-se nas casas de madeira e foi amor à primeira vista. É impossível não nos apaixonarmos de imediato por aquele local. Do lado da Aiguille du Midi(3800m) os cumes brancos com neves eternas e um gigantesco glaciar que desce montanha abaixo dão o toque final nesta obra de arte que a natureza desenhou por aquelas bandas.
A montanha é omnipresente e por quase toda a cidade basta levantar a cabeça para que  os cumes branquinhos nos cumprimentem de volta. Sente-se uma satisfação enorme pelo contraste daquelas duas realidades.

Com o nascer do dia seguinte descobrimos a outra face do sonho. Com um tempo magnífico o sol acende toda aquela neve e o cume da montanha fica ainda mais bonito. O contraste com tudo o resto intensifica-se, o glaciar que desce a montanha ganha vida e parece que vai chegar cá abaixo e engolir Chamonix e é impossível não soltarmos um Uaaaauuuu!!! quando se vê aquele cenário pela primeira vez. Depois de o termos tentado, em vão, capturar com todas as máquinas fotográficas disponíveis, lá nos resignamos e continuamos a descoberta.


As ruas estão pejadas de lojas, bares e restaurantes. Como continuamos num sonho, as lojas não são da Zara nem da Osho, nem sequer da H&M. Que me perdoem as gajas, mas por uma vez alguém fez uma cidade com ruas e ruas de lojas de trail, caminhada, escalada, alpinismo, etc. Há lojas das marcas de topo, lojas multimarca, lojas gigantes onde entramos e não apetece sair. Todas as gamas, todos os produtos, marcas desconhecidas, tudo. As mulheres aproveitam para se fazerem compreender. Estão a ver como é? Não fosse pelos preços podia-se vir fazer o UTMB e comprar todo o equipamento por cá e ainda se levava muita coisa a mais só para aproveitar.


Para completar o sonho resta o enorme evento que estava a tomar toda a cidade de assalto. Na noite em que chegámos ainda fomos brindados com a partida da PTL, essa gigantesca aventura de 300Km em equipas de 2 ou 3 atletas. Os aventureiros apareciam de todo o lado e cruzavam-se connosco a caminho da partida. Olhava apreensivo para aqueles doidos, tentava perceber o que levavam nas mochilas, pouco maiores que a minha ou nem por isso. Como iriam suportar 4 ou 5 dias em autonomia total de um percurso ainda mais duro que o nosso. Um misto de respeito e fascínio invade-nos. Entre eles reina uma boa disposição que não consegue esconder o nervosismo do aproximar da hora da partida. A PTL não tem classificação. Quem chegar chegou. É o puro espírito de aventura em montanha. Assistir à partida foi uma enorme emoção. E lá foram. 80 equipas, cerca de 200 atletas. 
No dia seguinte foi dia para sentir um pouco o que é a organização de um evento desta dimensão. Já tínhamos verificado o espírito da coisa. Já tínhamos percebido que toda a cidade participa no evento. Em casa, através do site e pela amostra de todo o material que a organização põe à nossa disposição já tinha percebido que este é um mega evento organizado de forma irrepreensível. Tudo está pensado. 11 anos para praticar. Esta organização soube crescer e está completamente à altura de receber vários milhares de atletas e as suas famílias ou amigos. Para além de tudo estar pensado e fluir de forma eficaz, as pessoas são de uma simpatia extrema, as excepções são tratadas de forma eficaz. Como formiguinhas aos 2000 voluntários juntam-se seguramente muitas outras centenas de pessoas que de forma mais profissional ou contratual vão montando o puzzle de forma perfeita. 

A feira do evento é também um ponto alto. Embora os preços não sejam nada de especial e por vezes até bem exagerados, todas as marcas lá estão representadas. Mais um sítio para nos perdermos horas a fio. Centenas de acessórios, as ultimas novidades, todos os produtos de trail de todas as marcas. É irresistível. As lojas da cidade competem com a própria feira pois pouco ou nada há naquela feira que não esteja também à venda nalguma loja da cidade. Por toda a cidade as lojas fazem 15% a 20% de desconto aos participantes nalguma prova do UTMB. Na feira também há descontos. É um apelo irresistível a comprarmos tudo e mais alguma coisa. Que desgraça!

Ao fim de 1 ou 2 dias já conseguimos movimentarmos bem naquele sonho. O apartamento que alugámos, mesmo no centro da cidade junto à partida, é impecável. Não nos falta nada. Desde máquina de lavar loiça passando pelo Wifi e acabando na RTP Internacional. 
É como se estivéssemos em casa. O supermercado a 50m é um pouco mais caro que os nossos mas permite ainda assim contrariar um pouco os preços de ir comer fora. Em breve iríamos dar início aos nossos objetivos. O Paulo ia fazer a TDS (110Km) na 4ª de manhã. 

Dificuldades logísticas não nos iriam permitir assistir à partida em Courmayeur (Itália), do outro lado do Monte Branco mas onde se chega rapidamente passando pelo túnel do Monte Branco. Mas iríamos partir de manhã e usar o serviço de autocarros da organização: uma infraestrutura montada de propósito para seguir as provas, com horários adequados a seguir os atletas nos vários pontos de passagem. Os autocarros vão de abastecimento em abastecimento. Isto permite-nos também desfrutar da paisagem e conhecer a região, mesmo que apenas de passagem.
E assim passámos o dia de 4ª feira. Começámos por conhecer o túnel do Monte Branco, um buraco por debaixo do Monte Branco que nos põe ao fim de 11 Km directamente em Itália, na belíssima cidade de Courmayeur. Não é barato passar no buraco. Um ligeiro de passageiros paga mais de 40€ e um pesado passa dos 300€ com camiões TIR duplos a chegar aos 600€. Safa! Mas mesmo assim deve compensar bastante pois a alternativa é contornar todo o Monte Branco e perder várias horas, litros de gasóleo e portagens de auto-estradas. As medidas de segurança são grandes, obrigam a distâncias mínimas elevadas entre cada carro, os camiões TIR são agrupados em comboios e escoltados à frente e atrás com pace cars dos quais não convem aproximar. A entrada no túnel é controlada de modo a que não seja possível seguir-se muito perto uns dos outros. Os camiões passam por uns scanners que avaliam se alguma parte está demasiado quente e são obrigados a parar em caso positivo. Estas medidas de segurança estão em vigor desde o gigantesco acidente neste túnel que matou quase 40 pessoas. Ao passarmos no buraco acreditamos que todas as medidas de segurança que estão agora em vigor não permitem que torne a ocorrer a tragédia que o memorial do lado francês à entrada do túnel evoca:
No dia 24 de Março de 1999 um camião incendeia-se dentro do túnel e de um lado e do outro forma-se uma coluna de camiões e de automóveis. Os socorros italianos chegam primeiro mas têm de bater em retirada porque o fogo que progride a 4 m/s e asfixiantes - monóxido de carbono - causarão a morte dos viajantes que se tinham refugiado nos abrigos de segurança. No total morreram 39 pessoas dentro os quais um bombeiro francês e um socorrista italiano que antes, e na sua motocicleta, havia conseguido salvar 8 pessoas. Mesmo com máscaras, 18 bombeiros tiveram de ser evacuados para o hospital.
O incêndio que durou 53 horas, e destruiu 24 camiões, 9 automóveis, e dois carros dos bombeiros, só permitiu a entrada no túnel três dias depois de ter começado. As temperaturas atingiram os 1 000 C°. O túnel ficou fechado durante três anos e os trabalhos custaram entre 200 e 250 milhões de euros


 
Mas ponhamos de lado a tragédia. O dia é de vibrar com a prova do Paulo. Em Courmayeur trocámos para outro autocarro que nos iria levar ao Col Petit St Bernard. Um antigo posto fronteiriço a 2188m. Meia dúzia de casas, das quais 2 ou 3 são bares de apoio. Um pequeno teleférico na zona permite que no Inverno esta zona ganhe vida extra com quem procura encostas nevadas para escorregar. Um dos bares é parceiro da organização. Entrámos para esperar um pouco pelo Paulo e tomar umas cervejas e uns cappuccinos, afinal estávamos em Itália.



O Paulo surge pouco tempo depois de forma inesperada. Estávamos a fazer o trilho ao contrário a cruzar-nos com atletas quando de repente lá vem ele. Super bem disposto. Quase 3 da tarde, 8h de prova e 36Km. Este ponto tinha uma hora de fecho ás 16h30 pelo que aqui o Paulo seguia bem. 
A paragem não foi grande. O Paulo estava bem e de pouco precisava. Ele iniciou a enorme descida até Bourg Saint Maurice e nós saltámos para dentro do autocarro que nos iria levar também até lá abaixo ao vale a 837m de altitude. Os trilhos, enquanto os conseguimos seguir encosta abaixo pareciam excelentes. 

Dezenas e dezenas de atletas desciam, a montanha. Em breve perderíamos o trilho e descemos às curvas até à cidade. Hora de corte aqui 19h, 50 Km. Achei que o Paulo aqui iria ganhar alguma folga extra para juntar aquela 1h30 que trazia sobre a ultima barreira horária mas não.  Afinal ia descer ao longo de 14Km. Mas as coisas nestas provas nem sempre correm como prevemos. 
E o Paulo acaba por chegar às 17h37 e só saiu às 18h12. Reduzindo assim perigosamente a sua folga para pouco mais de 45 minutos. Ao que nos contou a descida era demasiado técnica, ingreme e conseguiu correr muito pouco. Algum sangue numa das meias era a razão de algumas dores que vinha a sentir. Mas isso não o afetou e lá seguiu com o moral reforçado. Dali para a frente as ligações dos autocarros não iriam permitir continuar a acompanhar a sua prova, pelo menos sem ser extremamente penoso para a Manuela com a perna partida e em cadeira de rodas. Voltámos a casa e iríamos continuar a acompanhar a prova pela net e pelos SMS’s da organização e ver como evoluía a noite para planear o dia seguinte.
Depois de Bourg Saint Maurice vinha uma colossal subida talvez a pior da prova, que o iria levar até aos 2567m. Temi que as coisas fossem correr mal porque as subidas não são o forte dele mas surpreendeu-nos quando passou Fort de La Platte de novo a mais de 1h do tempo de corte. Tinha recuperado de novo algum tempo. Isso iria dar-lhe ànimo para a noite….ou não.
A próxima dificuldade estava às 0h45 em Cormet de Roselend. As coisas pareciam bem encaminhadas e a principal dificuldade da prova parecia de novo ultrapassada. Agora era a descer e plano. Parecia tudo bem. Mas não estava. Várias dificuldades ditaram que o Paulo chegasse aqui já com 2 minutos depois do tempo limite. A organização foi tolerante e o Paulo seguiu viagem mas tinha-se esfumado a hora que tinha conseguido acumular. Ficámos preocupados e fomos dormir um pouco apreensivos. O que se estaria a passar? De novo uma descida e de novo imenso tempo perdido. Vinha aí um novo colo para vencer e numa nova descida. Em La Gite uma nova barreira horária o esperava. 3h da manhã!
E o Paulo foi barrado em La Gite onde chegou às 3h12, 74Km. Estava bem, sentia-se bem, mas estava a fazer uma prova demasiado lenta e não conseguiu cumprir os tempos de passagem máximos. Foi uma enorme deceção, obviamente. E nós ficámos também muito tristes por ele. Mas as regras são conhecidas à partida e quando alinhamos sabemos que essa é uma delas. Há que aceitar com desportivismo e o melhor que podemos fazer é desfrutar do resto e treinar com mais afinco para a próxima.

Enquanto o Paulo descansava da sua prova a minha ia começar. A manhã foi passada a comprar as ultimas tralhas em falta, uma volta na feira, levantar o dorsal, etc.
Fui bastante cedo para o pavilhão. A ideia era levantar o dorsal o mais rápido possível e fugir ás filas. Quase 4000 atletas iriam levantar ou tentar levantar o dorsal nesse dia…
Foi tudo tão rápido que, graças a começarem as verificações um pouco mais cedo, antes das 10h (hora de início) já estava despachado. Tudo pronto. UTMB À VISTA!!!!!