quinta-feira, 17 de abril de 2014

MIUT - A Meca do Trail em Portugal




"Chama-se Hajj a peregrinação a Meca que é obrigatória, pelo menos uma vez na vida, para todo o muçulmano adulto, desde que este disponha dos meios económicos e goze de saúde in Wikipedia"

O MIUT surgiu-me na agenda no final de 2013. Já me tinha comprometido em ir fazer a Trans Gran Canaria mas uma série de colegas meus começou a dizer que ia à Madeira. Que raio, e agora? 1 mês e meio depois de fazer 125Km na Gran Canária, será que dá para fazer 115 na Madeira? Claro que estas perguntas surgem a meses dos eventos, creio que em Outubro tratámos de tudo para a Canaria e em Novembro para a Madeira. Eu já sabia que se podia fazer uma prova de 100Km 1 mês depois de uma de 100 milhas quando fiz a Cavals del Vent 1 mês depois do UTMB, portanto fisicamente se calhar dava…

O resto foi fácil. A Easyjet a ajudar com bilhetes a 25€ por viagem, o hotel em Machico com um preço excelente no booking, o facto de não conhecer a Madeira versão queijo suíço e o resto da família a não conhecer a Madeira de todo, tudo junto deu no que deu. Bute ao MIUT!

E fomos. Nas mais variadas formas e formatos. Uns antes, outros depois, uns mais em grupo, outros mais em família, outros mais a solo. Sem grandes combinações, cartões e talões lá fomos ao sabor do momento. Uns para o Funchal, outros para Machico, uns com carro, outros de táxi, cada um à sua maneira desfrutou daquela ilha como pôde. E foram dias bem passados que tivemos. Entre passeios e ponchas que iam e vinham ao sabor de quem aparecia na altura, a hora da verdade chegou.



Fisicamente estava bem. Após recuperar do primeiro cansaço da Trans Gran Canária percebi que estava bem. O raio daquela ilha tinha-me deixado mais forte. Embora sentisse o peso de uma prova de mais de 130Km e quase 8000 D+, percebi que a aposta deveria ser em treinos curtos e muito específicos. Nada de canseiras longas, massacres de horas. Totalmente desnecessários. O MIUT exigia 2 coisas. Descanso, recuperação e preparar para subir degraus. Muitos degraus. Disseram-me durante a prova e parece-me realista, que o MIUT tem 6Km de degraus. Se calhar peca por pouco.


 A única preocupação era uma dor na parte lateral exterior do pé esquerdo, principalmente quando dobrava o pé para trás. O Alberto Chaíça deu umas dicas quanto ao que poderia justificar a dôr, bem como ao que deveria fazer para resolver o problema.

Preparação sem grandes inovações foi só repetir a formula vencedora da Gran Canária. A experiência dá-nos o conforto de já sabermos o que vamos precisar e o que vamos prescindir. E aqui tenho de abrir o primeiro parêntesis sobre o tema “o que vamos prescindir”.


O tema é bastões e a proibição de levar os bastões na bagagem de cabine. Embora não seja permitido levar bastões na cabine esta proibição está longe de ser coerente. Por exemplo um senhor à minha frente na verificação de bagagens passou com um bastão na mão que foi explicitamente aprovado pelos seguranças. No meu caso levava os bastões desmontados dentro de várias malas, porque não cabiam montados, e o segurança embirrou com uma das secções devido a um espigão que faz parte do mecanismo de aperto. Reparem, não foi com o bico do bastão. Foi o mecanismo de aperto que ele diligentemente desmontou. Aberta a mala e investigada a potencial arma foi-me comunicado que não poderia levar comigo tal objecto.
Pouco importava as outras 4 secções que acabaram por seguir nas outras malas, pouco importava o outro individuo que levava um bastão na mão e logo mais duas secções com perigosos espigões prontos a assassinar hospedeiras. Consciente desde o início que era eu que não estava a cumprir com o regulamento ofereci gentilmente aquele perigoso objecto ao segurança e segui viagem. Obviamente a parte importante foi que sempre tive consciência que se fosse apanhado teria de estar preparado para ficar sem os meus velhinhos bastões da decathlon já todos a desfazerem-se. Portanto era só dar seguimento ao plano B, fazer o MIUT sem bastões. Por um lado este era um objectivo que me agradava atingir, uma experiência interessante de realizar. Talvez não o tivesse feito voluntariamente, mas quantas vezes na vida somos empurrados pelas circunstâncias para situações adversas? Mais um teste? É para fazer esta porra sem bastões? Ok, bora lá a ver se não faço!



Foto by Pedro Lizardo
Com o dever de missão que tem de se ter nestas alturas lá fomos no autocarro até Porto Moniz. Grande grupo de amigos, grande ambiente. A galhofa ajudou a passar aquele tempo fazendo esquecer a ansiedade e afastando pensamentos desnecessários.

Embora me tentassem intimidar “O quê? Tu vais fazer o MIUT pela primeira vez sem bastões? Tás doido?” não me abalaram a convicção “Opá isto é peaners! Isso dos bastões é um mito. Arrastar umas varas de chapa a tilintar durante 115Km. Arranjem mas é um kit de pernas” 
É só mudar o chip :)

Em Porto Moniz o tempo estava óptimo. Já desde a tarde que as nuvens tinham desaparecido dos cumes das montanhas e havia apenas nuvens a alta altitude, desanuviando assim um pouco o ambiente. Muitas caras cerradas, muitos amigos, muita apreensão, muito nervosismo. Eu? Eu estava apenas noutra ilha, um pouco mais a Norte da anterior. Era outra vez meia noite. Estava de novo rodeado de um bando de malucos com roupa flurescente e varas nas mãos. O Simões estava lá outra vez. O Trindade também. Que enorme déjá vu!

Sabia que era preciso ir devagar até ao km 33km e isso agrada-me porque ir devagar é o que sei fazer melhor.

Para abrir a pestana levamos logo com um brutal pendente. Porto Moniz a ficar pequenino lá em baixo e a gente aos esses e aos zês estrada acima. Rapidamente se regressa ao nível do mar para tornar a subir ainda por estradas e vilas, mas rapidamente entramos na famosa floresta Laurissilva. Não fazia ideia o que era uma floresta Laurissilva. Pensava que era uma zona a quem deram um nome como tantas outras. Mas não. Devo ter faltado a estas aulas de biologia ou já fundi os neurónios onde guardava esta informação (o mais provável). 
Zonas de floresta Laurissilva na Madeira
A floresta Laurissilva é o nome dado a um tipo de floresta húmida subtropical, composta maioritariamente por árvores da família das lauráceas e endémico da Macaronésia, região formada pelos arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Uma floresta de há 20 milhões de anos. Uaaauuu! Leiam mais neste link


Percurso do MIUT 2014
Como a ilha da Madeira é onde existe o maior e mais bem preservado núcleo desta floresta, a mesma faz parte da reduzida lista de património da humanidade em território português. Saibam tudo sobre este património fabuloso neste link da Unesco. Sim amigos. Porque isto também é trail. Não é só não estragarmos a natureza, é sabermos o que temos de proteger e porquê. Somos uns privilegiados por podermos percorrer estas maravilhas da natureza que esperaram milhões de anos por nós. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para que durem no mínimo outros tantos milhões de anos.

E deixem que vos diga que este é um dos fabulosos encantos desta prova. A floresta Laurissilva é brutal. A vegetação diferente da que estamos habituados, a densidade do arvoredo, o nível de humidade o facto de parecer que estamos constantemente numa floresta tropical a somar aos brutais declives vales e gargantas, por vezes ficamos a pensar que vai surgir um dinossauro a qualquer momento e comer o atleta da frente. Um T-Rex! Não espera, esse pessoal extinguiu-se há 60 milhões de anos. Não é desta história.

Depois de subirmos 800m a floresta prossegue agora num trilho falso plano que sobe lentamente. Vou trocando algumas palavras com o companheiro da frente que me diz que agora são 30 minutos de corrida num trilho de uma beleza indescritível que apenas se adivinha dado que a luz dos frontais não permite mais do que isso. Levada à esquerda precipício à direita, ninguém quer ultrapassar ninguém. Somos talvez uns 10 num pequeno comboio cuja preocupação é manter um ritmo constante. Excelente piso. Corremos mais rápido que a água da levada. Ninguem esboça a mínima vontade de ultrapassar ou ir embora. Parece que comunicamos mentalmente entre todos e o processo apenas é interrompido aqui ou ali por um aviso de pedra ou tronco. O trilho é uma maravilha.

85Km
115Km
Nova subida em floresta até ao primeiro abastecimento, grandes degraus, alguma lama, subida constante. O ritmo segue animado. Sinto-me bem. Vou passando alguns companheiros, tento não me deixar adormecer atrás de ninguém e manter o meu ritmo, prudente mas determinado. Estava avisado para a perigosidade da descida que lá vinha. Abastecimento rápido, nada me falta, muito cedo ainda. Logo após o abastecimento separamo-nos novamente do pessoal dos 85Km. Vamos descer 900m, eles ficam lá por cima. A grande diferença da nossa prova para a dos 85Km é que enquanto eles vão progredindo sempre a uma altitude razoável nós estamos sempre a vir cá abaixo e a voltar lá acima.
85Km sobreposto 115Km
A sobreposição não é perfeita devido a diferentes escalas e não é simples esticar os dois gráficos de forma a fazer coincidir as zonas comuns. Mas façam mentalmente o encaixe e constatem o que vos referi.

Vem a tal descida que o companheiro madeirense me tinha avisado. Muita humidade no chão, degraus de pedra com musgo. Nevoeiro. Vital escolher cada local para pôr os pés. Mas como se mal se via o chão. Sou ultrapassado por um companheiro e aproveito o seu ritmo para acelerar um pouco e tento não o largar mais. O nevoeiro desaparece com a descida e consigo acompanhar o seu ritmo a descer. Quando finalmente saímos da floresta estamos nos 300m e no 2º abastecimento. Simpatia!

Seguimos e esperava-nos um dos maiores berbicachos da prova. 1200m verticais de subida contínua e violenta. Estava avisado pelo tal madeirense. A subida mais dura da prova. Pensei, boa, pelo menos é logo no princípio. Tinha estimado 2 horas a subir. Um grupo de malta animada dava-nos força para a subida. E que subida senhores. Pela primeira vez em Portugal senti o poder do UTMB nesta subida. Pendente brutal. Subida em zês a lembrar o UTAT mas com uma grande vantagem, o piso era fofinho, pelo menos a comparar com a pedreira do UTAT. Consigo manter um ritmo forte e sigo ultrapassando pessoal. Talvez tenha passado cerca de 6 companheiros ou mais. Lembro-me de passar pelo Luis Ferreira, trocámos breves palavras mas naquelas alturas o cérebro está focado numa única tarefa.

Depois de vencer o colo a 1500m iríamos andar por ali uns tempos até retornamos novamente aos 1500m. Zona corrível, estradões, relva fofinha e de repente vejo alguém que me parecia a Susana. Era a Susuna. Boa! Ainda não estou a alucinar. Estava na fase enjoada, mal disposta, tento puxar um pouco por ela mas rapidamente percebo que ela não quer pressão e sigo. “Vai lá andando que eu vou correr aqui um pouco atrás de ti”.

Depois de alguma monotonia de subida em estradão onde agora só ultrapassava malta dos 85Km chego ao CP3. Arrepio-me sempre quando depois das provas vejo o tempo que demorei face ao tempo que estimei quando desenhei mentalmente os ritmos. Tinha estimado que demoraria 6h até ao CP3 que fechava às 8. Demorei 5h57m. Uauuu!

A partir daí a prova iria mudar e vocês vão perceber porquê na segunda parte. Basta seguirem este link

6 comentários:

  1. Gosto muito desta viagens pelas provas. Fico com a sensação que lá estive. Estou ansioso pela segunda parte... Um abraço

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  2. Boas Paulo...estes teus relatos, além de didácticos são fantásticos. Venha a parte 2 e rápido sff :)
    Abraço

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  3. Excelente planeamento!!! Assim até parece fácil. Mts Parabéns.

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  4. Excelente relato, venha o resto.......parabéns.

    www.natureza0.blogspot.pt

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  5. Muitos Parabens pela prova, já passou por lugares da minha ilha por onde nunca passei, ja agora gostaria de saber se utilizou o GPS a-rival SpoQ SQ-100? adquiri um destes apos ter visto a sua explicação sobre o produto, estou bastante satisfeito so que nao sei como adiciono um track no GPS e depois como ve lo no GPS? nao sei se me podia ajudar, desde ja agradeço

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    1. António, contacte-me no facebook e adiciono-o a um grupo de utilizadores do spoq

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