quinta-feira, 9 de julho de 2015

Trail Camp UTMB - Inglourious Basterds - Missão comprida!

Obviamente não vão perceber nada se não leram esta aventura desde o princípio. Cliquem aqui para lerem desde o início e não precisam de pagar mais por isso.


Dia 4 Refúgio de la Croix du Bonhomme  -> Chamonix

Era um dia de festa. Vejam pela cara de felicidade do Boelto. Acordámos mais tarde e saímos por volta das 8h30 depois de um pequeno almoço miserável. O dia era de descer. E descer foi o que fizemos durante 26Km, quase sem interrupção. Quem for fazer o UTMB já sabe que tem de os mamar a subir. E bem, que a parte final é bem dura. 

Arranca tudo do refúgio eufórico. É por aqui, olha as marcas! Rapidamente perco o track no relógio. Que raio? Ainda estava eu a tentar perceber porque raio não estávamos no track diz o Boleto lá de longe. Epá têm a certeza que é por aí? Não! Toca a voltar ao refúgio e a seguir pelo trilho correto. 



A .localização do refúgio como podem ver na foto é simplesmente incrível. Como era a descer ninguém queria levar os bastões na mão. Para quê? A resposta veio depressa. A neve era mais que muita por todo o lado. Do refúgio ainda se sobe um pouco antes de começarmos a descer. Cada vez mais neve aos 2500m.


Mas quando começamos a descer as coisas não melhoram. A neve abunda e começamos a ter de atravessar grandes troços inclinados, alguns muito inclinados. Em muitos locais é preciso extremo cuidado. Aqui e ali um bate cu, mas nada de grave. Nalguns sítios um pé em falso e a inclinação tratava de nos arranjar um triste final para a nossa aventura. O risco é bem avaliado por todos e meio a brincar, meio a sério lá vamos passando todas as zonas mais complicadas.  



Quando a neve começa a rarear vem a pedra escorregadia e por fim trilho para correr. Achei o trilho muito destruído pelo inverno. Os ribeiros invadiram os trilhos em muitas zonas e encheram tudo de cascalho, noutras zonas está completamente destruído. A montanha vai talhando a sua forma a cada ano. Descemos desenfreadamente e começamos a cruzar com muita gente a subir. Para além de malta do trekking com as suas enormes mochilas, também muita gente local que viaja mais ligeira, grupos de amigos, casais, famílias, grupos de pessoal a treinar. São às dezenas as pessoas com que nos cruzamos montanha abaixo, bonjour, hello, bom dia, oi, vou ensaiando várias línguas. A verdade é que não é fácil adivinhar a origem das pessoas com que nos cruzamos. Para quê usar o francês?

Depois de endireitar um pouco segue-se uma brutal descida para Notre Dame de la Gorge sempre num bosque e depois uma suave descida até Contamines. Em Contamines era hora de tomar o pequeno almoço porque aquela treta no refúgio não serviu mesmo para nada. Uma volta no supermercado e depois de repor as energias e tomar um grande café é tempo de seguir vale abaixo. Vamos em direcção a St. Gervais, 
Já extra TMB o track pertence agora exclusivamente ao UTMB. Recordo-me bem deste pedaço da prova, ainda feito ao final da tarde. Íamos descer até St. Gervais num carrossel tendencialmente descendente, às vezes. Em St. Gervais esperava.nos o ultimo pincel da etapa. Mais 900 metros quase verticais. Uma brutal descida no UTMB...
Mas ainda saboreávamos o cafézinho em Contamines quando vejo que o Boleto me tinha ligado. Mau!!! Devolvo a chamada. O Melo estava a piorar do joelho e tinham combinado que ele iria ficar mais para trás e apanhar um transporte na próxima cidade. Já estavam num local com muitas pessoas e habitações, estava tudo controlado. Ficámos com pena dos 2. Um coxo ia ter de abandonar, e o outro fazer o resto do dia sozinho, Mas estava tudo bem e esta zona é já bastante povoada, sempre com rede, aldeias e casas espalhadas pelo vale. Não haveria qualquer problema. 

Em St. Gervais, depois de uns pequenos desvios de rota e a descoberta de novos single tracks, parámos para almoçar. Encomendámos uma pizza que rapidamente foi o nosso almoço. Força para a subida que lá vinha.

A subida começa bem, bosques, casinhas, inclinação, cascatas. Falhamos uma entrada num trilho que mais parecia mato o que nos vai custar talvez quase 1 hora. Seguimos uma linha de comboio mas nada daquilo me fazia sentido. Lembrava-me que a descida para St. Gervais era sempre a pique. Depois de andarmos a tentar corta mato e esbarrarmos em paredes de rocha, decidimos finalmente o mais racional. Assumir o erro e voltar para trás até encontrar o track de novo. Só estávamos a perder tempo e não íamos conseguir atalhar de volta ao track.


Depois de assumirmos o erro e voltarmos atrás, tudo se recompôs. Encontrámos o track, retomámos a subida íngreme. Demasiado íngreme! E atingimos o colo. Ultimo colo!!!! YUUUHUUUHH!!!
Restava descer até Les Houches (nada de especial, 800m em 8 km...) e depois ir pela floresta junto ao rio até à meta.
Faltavam 2 surpresas. A primeira foi encontrar o Melo na descida. O que estás aqui a fazer pá?!?! Então não ias apanhar um transporte. Afinal sentiu-se melhor e começou a seguir as placas do TMB e a olho já ia ali. O TMB não vai a St. Gervais, mais o nosso atraso o bandido tinha-nos passado à frente. Depois de nos certificarmos que já se sentia melhor lá fomos andando. Tinha começado a chover e não havia jeito de parar.  A segunda surpresa estava à nossa espera no Hostel. O Sr. Boleto apanhou-se sozinho e resolveu seguir um trilho alternativo... claro que o GPS o mandou seguir o TMB que atalha caminho. Acabou por fazer exactamente o mesmo que o Melo fez, mas à frente dele. Com a nossa passagem em St. Gervais, mais o almoço de pizza, mais o engano, claro que já tinha chegado há muito tempo. Bandido número 2!


Mas para chegarmos à surpresa 2 faltavam-nos 8 Km de bosque carrossel. A vontade de correr lutava contra a vontade de acabar, e lutavam ambas contra a chuva que cada vez era mais forte. Os últimos 3 Km foram feitos já de raiva com o Turtles, non stop. Quanto mais perto estávamos mais as nuvens descarregavam, E como tudo o que é bom acaba depressa, acabámos também a nossa aventura. Só o tempo de esperar pela foto do grupo da praxe e lá fomos para o Hostel. Várias coisas em formato mega nos esperavam. Banho, jantar, bife, cerveja, Estava feita a volta ao morro lá do sítio. Que viagem e que aventura! 

E é chegada a hora da lamechisse, dos agradecimentos e do caneco. Dois gajos sem os quais isto não tinha sido possível; em primeiro o Luís Trindade que me ajudou no planeamento e na preparação do projecto. Foi uma ajuda um pouco espiritual demais, é um facto, mas fundamental para avançarmos com a epopeia. O outro gajo sem o qual isto não tinha sido possível é o meu fenix2. Quase 200 Km, 4 dias, um grupo de doidos, dependentes de uma cena da Garmin na montanha. É obra! Só nos assustou em Courmayeur e provavelmente devido a algum problema com o mapa da zona que tinha carregado. É que para além dos tracks tinha no fenix2 os mapas dos trilhos de toda a zona do Monte Branco. Obrigado por nos guiares companheiro. 

Last but not least, au contraire mes amis! A todos os que ousaram acompanhar-nos, as boas notícias são que para a próxima já não temos de levar o Trindade. Obrigado pela vossa confiança. Ainda bem que tudo correu ainda melhor do que o planeado. Estou a falar da cerveja claro :)

E vou desligar o modo lamechas. Esta viagem vai viver dentro de cada um de nós para sempre. Foi um prazer partilhar os momentos inesquecíveis que passámos juntos. Epa afinal não tinha desligado a lamechisse, Tá encravado!

Epá bazem daqui meus grandes cabeças de porco! Só sei que estou à vossa espera no final de Agosto na MBC em Chamonix, com um jarro de litro e meio de cada uma. Agora sim!

Cliquem para verem o mapa do dia 4

Cliquem para ver mais fotos do dia 4

Ainda aqui estão? Não me digam que querem saber porque dei este nome ao post? Ah não era por isso? Não faz mal. Vão ver o filme do Tarantino para poderem descodificar.

Alguns números finais:

4 dias
192 Km
10.500 D+
40h30m
3 refúgios de montanha
1 mochila de 20L e 8 Kg
1 par de ténis
1 mão cheia de amigos
Esqueci-me de contar os litros de cerveja.

Até à próxima aventura!

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