terça-feira, 24 de novembro de 2020

Peido Mestre - O fim da era da informação

 


A imagem acima representa Ouroboros. A primeira aparição conhecida do Ouroboros está no "Livro Enigmático Do Mundo Inferior", um texto funerário no túmulo do imperador Tutancamon, no século XIV A.C. 
Há várias interpretações desta representação que podem verificar no artigo da wikipedia sobre Ouroboros mas para mim, quando olho para esta imagem só vejo um beco sem saída. Estamos a comer-nos a nós próprios. 
A internet era uma utopia há 40 anos. Há 30 era uma realidade. Há 20 começou a revelar-se incontornável, há 10 uma obrigação e agora começa a mostrar o verdadeiro poder para destruir os alicerces da nossa sociedade. 

Calma, não enlouqueci, ainda... Aguentem firmes que no final vão perceber. A internet foi uma utopia fantástica que o homem conseguiu pôr em marcha. A nossa necessidade colaborativa é tal, que enquanto não ligámos todos os seres humanos, e todos os objetos não descansámos. 

Agora estamos na idade adulta desta interconectividade. Já não falta ligar porra nenhuma. Qualquer criatura ou aparelho deste planeta consegue estar online a comunicar com qualquer outro, esteja onde estiver, de borla ou quase. 

Quando vamos interiorizar que esta utopia está a destruir completamente a nossa sociedade? Isto não é necessariamente mau porque a nossa sociedade, como sabemos, é uma bela merda, cheia de podres, hipocrisias, injustiças, desigualdades, já para não falar em racismo, descriminação e muitas outras coisas que todos sabemos que são erradas, mas que assobiamos para o ar porque não conseguimos resolver dado que são intrinsecamente humanas. E errar é humano, certo?

Este não é um texto anti-internet. Pelo contrário. A utopia está a seguir o seu caminho. Mas tem um preço. Repare-se na informação. Atualmente e depois de todos os media terem tentado captar o máximo de visitantes para as suas publicações, estamos a assistir à era em que os media estão a morrer fruto do seu próprio esquema. Ninguém suporta anúncios online e as publicações não conseguem manter o seu nível de receitas com anúncios online. Isto é dramático porque as publicações começam a deixar de pagar ordenados decentes, começam a despedir. Já há uns tempos que demos por isto. O nível dos media é agora bem pior. É preciso ser rápido a publicar. Os factos não são confirmados, os erros são grosseiros. Mas ainda era o princípio da coisa.

Agora vem a estocada final. Os media começam a fechar-se sobre si próprios, Ouroboros! Queres ler esta notícia? Paga! Queres ler este texto? Subscreve! É justo dirão uns, é compreensível dirão outros. Mas como vamos pagar subscrições de 10 jornais e 30 revistas? Depois de décadas a treinar o pessoal para consumir conteúdos gratuitos? 

E o problema é muito mais grave. Porque ao contrário dos media mais conceituados que tentam subsistir na antiga economia de, bons ordenados para bons profissionais produzirem bons conteúdos, temos quem finja que é conceituado e consiga fornecer conteúdos gratuitos. Falsa informação, com uma agenda escondida, financiada por objetivos que não se prendem com objetividade, nem dignidade, nem independência. 

Já tivemos vários exemplos nos últimos anos. Centenas de sites de notícias falsas, milhões de pessoas em todo o mundo a partilharem informação falsa, autênticos pulhas eleitos em vários países apoiados por largas fatias da população, lunáticos e inquinados por demagogia, truques políticos baratos e falsas promessas. 

Com cada vez mais media fidedignos a fecharem-se sobre si próprios para quem está disposto a pagar por informação de confiança, sobra a grande maioria da população, que não quer e não pode pagar. Mas pode ler trampa gratuita e ser envenenada por lixo tóxico, partilhado até à náusea nas redes sociais! 

E é este o caminho que estamos a trilhar. Uma pequena minoria vai pagar para ter bons conteúdos, que depois não vão servir para nada porque a grande maioria vê o seu acesso vedado e fica-se pelo lixo das redes sociais, pela mentira repetida à exaustão, pelo truque político, pela demagogia gratuita. E essa grande maioria vai decidir o caminho da minoria.

Por cá estamos a começar a trilhar o caminho que já vai longo noutros países. Os primeiros artistas e manipuladores de massas começam a mostrar do que são capazes. Começam a marcar território. Ainda estamos no princípio, mas basta olhar para o resto do mundo para perceber o que aí vem. 

E é assim que a internet, uma utopia tão linda, está a fazer o seu caminho, a pôr a nú os nossos podres, a dar voz a todos, a todos mesmo, a mostrar que afinal a Educação e a Cultura não tinham chegado a todo o lado (ou quase a lado nenhum), a unir e facilitar a comunicação, não só de terroristas do estado islâmico, mas de terroristas da inteligência. 

A internet é afinal muito mais poderosa do que alguém alguma vez imaginou. É um poderoso catalisador de tudo o que temos de bom, mas também e sobretudo de tudo o que temos de mau. 

Cá estaremos para ver o que vai acontecer durante a próxima década. Eu já não tenho muitas duvidas que será imprevisivelmente doloroso para a forma como a nossa sociedade está organizada. Em 2030 falamos.

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