sexta-feira, 29 de julho de 2016

Haute Route - Dia 3 - Cabane du Mont Fort - Gite de Moiry

( post anterior Haute Route - Dia 2 - Col de La Forclaz - Cabane du Mont Fort )

A cordilheira do Monte Branco vista da Cabane du Mont Fort
Para se perceber a etapa de hoje é necessário voltar ao dia anterior Esta etapa era a que desde início sempre me preocupou mais. Por tudo um pouco: a distância, o desnível positivo, o acumular do cansaço. Por mais que desenhasse não conseguia baixar dos 50 Km. É uma zona muito selvagem do percurso e sem grandes alternativas. Claro que se poderia encurtar 10 ou mais Kms mas teriam de ser feitos no dia a seguir. Não havia forma de reduzir um pouco sem comprometer os dias seguintes.


A espectacular Cabane du Mont Fort
Ainda assim tínhamos 2 alternativas para o início do percurso e 2 para o final, infelizmente sem impacto no desnível ou na distância. Uma das iniciais estava logo referida como perigosa e a carecer de confirmação do guarda in loco. Tratava-se do Santier des Chamois que basicamente contornava os 3 picos iniciais da outra alternativa, a mais segura pelo Col de La Chaux.



Por isso mal chegámos indagámos junto do guarda do abrigo como estava o Sentier des Chamois. O guarda foi peremptório, muito perigoso e não devíamos ir por aí, muito menos sem equipamento específico para a neve, crampons, piolet etc. Fora de questão portanto.

A outra alternativa era a que estava no plano inicial e representada acima, Incluía 3 passagens perto dos 2900 e uma aos 2800. O Col de La Chaux estava ali por trás da cabana para apreciarmos...

Seriam praticamente 400m quase verticais com muita neve até ao col e o pior não era isso, subir era relativamente pacífico, O pior era que esta encosta, por estar virada a sul era a que tinha menos neve. Do lado norte só saberíamos a extensão de neve quando lá chegássemos acima. Depois era só repetir mais 2 vezes para vencer os primeiros 10 Km.... dos 50... que seguramente seriam 55 ou mais devido à diferença entre o traçado no PC e a realidade no terreno. Com muita neve e descidas perigosas a vantagem de correr mal se nota e pouco tempo ganhamos. Por isso as 6 a 8 horas para os primeiros 10 Km que o guarda nos disse seriam talvez 5 horas vá, se as coisas corressem bem. Mas depois ainda faltavam 40-45 Km. Na melhor das hipóteses esperava-nos um dia de 15-16h no mínimo. Mesmo saindo às 5 da manhã chegávamos às 8 ou 9 da noite. Não era razoável. Falámos com várias pessoas que estavam na cabana e todos iam pelo Col de La Chaux, mas o destino deles era a Cabana de Prafleuri ao Km 10... 

Tudo pesado, reunimos o máximo de informação possível e tomámos uma decisão unânime. A única alternativa era descer e apanhar um comboio que nos deixasse mais à frente no trilho. Com alguma pena tivemos de deixar este troço para a próxima vez. Mas foi preferível assim. Mesmo sem cenários catastrofistas, iria ser uma etapa extremamente extenuante, chegaríamos muito tarde ao abrigo seguinte, com possibilidade de perder o jantar (o pessoal dos abrigos é muito rigoroso com a hora do jantar, 19h) e com todos de acordo foi fácil de arrumar o assunto. 

Obviamente o erro foi meu ao desenhar uma etapa tão grande. Hoje sei que o terreno é por vezes muito complicado, de progressão muito lenta, as descidas acima dos 2500 m são muito acidentadas ou estão com demasiada neve, o que não nos permite recuperar a correr. Como não era possível encurtar a distância total, acho que é preciso mais 1 dia, ou pelo menos mais meio dia para a totalidade do percurso. Também é importante ir um pouco mais para o final de Julho ou então levar crampons e um piolet. Mas claro que foi preciso lá ir para saber. Agora já sei :)

Sendo assim o objectivo do dia passou a ser descobrir a forma de mais rapidamente voltar ao trilho, ultrapassando o obstáculo inicial. Felizmente a eficácia dos transportes públicos suíços ajudou-nos na tarefa. Depois de descermos rapidamente para Le Chable, na estação de comboio a funcionária ajudou-nos a planear a viagem para o destino, integrando comboio com autocarro e vendendo um bilhete que tem logo as duas opções em conjunto. Tratava-se então de conjugar os horários dos autocarros versus a zona do track e a distância remanescente. O facto da zona ser muito remota e de limitado acesso por transportes rodoviários limitou as escolhas e facilitou o trabalho. O dia estava meio perdido pelo que só nos restava desfrutar da rede publica suíça até conseguirmos retomar a viagem a pé.

Para verem o percurso bem como todas as fotos do dia georeferenciadas, explorem a aventura no Garmin Adventures clicando no símbolo (abre uma nova janela e podem continuar a ler)

A subida suave para o Col de Torrent
Em Evolène retomamos o trilho. Tal como esperávamos a subida até ao Col de Torrent a 2919 m decorreu sem qualquer problema. Seriam 1600m D+ sempre com bom piso, prados verdes, paisagem fabulosa. Tinha menos neve do que o col Tsaté que era a outra opção que nos tinha sido desaconselhada pelo proprietário do Gite de Moiry. Atingido o col toda a descida até à barragem e ao nosso local de destino foi pura magia com paisagens lindíssimas.
O melhor é verem todas as fotos do percurso no link do Garmin Adventures. Simplesmente maravilhoso.




No Gite de Moiry tivemos os melhores alojamentos de todo o percurso até agora, bem como as melhores refeições. O simpático dono não tinha TV mas disse-nos desde logo que a França ia ganhar à Alemanha nessa noite e que nós iríamos ser campeões europeus. Impressionante! E não o disse por sermos portugueses, era a sua convicção. Mal sabíamos nós o que ainda lá vinha...

O sossego, a vista e a cerveja gelada, que final de erapa fabuloso
Amanhã é o 4º dia da viagem e o grupo está cheio de vontade de mais um dia em pleno, depois de termos confirmado no Gite que seria possível passar os 3 colos a 2900 m que nos esperavam.


O parcial do dia marcou 15 Km com 1500 m D+ (em 3h e 50m)
O total vai em 85 Km com 6000 m D+ (em 19h e 50m)

(post seguinte Haute Route - Dia 4 - Gite de Moiry - St Niklaus)

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