quinta-feira, 23 de março de 2017

O Desporto e Low Carb High Fat - Introdução


Passamos a vida a comer. Tudo o resto é opcional na nossa vida, mas a alimentação não. Podemos viver mais ou menos felizes, mais ou menos realizados, mas sem nos alimentarmos o resto é irrelevante. Talvez por isso, ainda mais do que em outros assuntos, temos as nossas convicções bem fundamentadas. Um misto de tradição, com os valores que nos transmitiram e obviamente com imensa informação que nos surge de todos os lados. Afinal é a nossa saúde que está em jogo. Somos o que comemos, isso podemos ter a certeza.
E é simples, não é?   Claro que não é...
Olhem à vossa volta. Olhem para baixo nalguns casos. Se fosse simples tínhamos 1,5 milhões de obesos em Portugal, com mais de metade da população adulta com excesso de peso? Podemos ignorar, mas muitos irão arrepender-se mais cedo ou mais tarde. Afinal mais de 40% da população portuguesa sofre já de diabetes ou hiperglicemia intermédia (fonte APDP); é apenas uma questão de tempo… Os custos desta doença por cá já representam 1% do PIB e 12% da despesa em saúde.


Mas se cada vez há mais informação, mais rótulos, cada vez os produtos são mais light, mais bio, mais saudáveis… algo está profundamente errado, porque cada vez há mais gordos, mais obesos, mais diabéticos, maior mortalidade devido a complicações relacionadas com a alimentação. Será que as pessoas são teimosas e insistem em comer mal, só para serem do contra, só para serem menos saudáveis?

E escusam de culpar a falta de exercício físico e o sedentarismo. Já viram que há um ginásio em casa esquina, e todos os meses abrem mais? Que de repente toda a gente corre, ou conhece alguém que corre, ou está a correr neste momento? Há várias provas com mais de 10.000 pessoas inscritas. Tropeçamos em tipos que correm na praia, no paredão, nos passeios, nas serras, etc.
E ainda assim...  Que tal correrem mais? Mais depressa?
Não me parece que seja por aí também.

E o nosso país é apenas um reflexo do que se passa no mundo.

Claro que quando se escreve para uma comunidade de pessoas que praticam desporto com grande afinco, parece que estamos a pregar aos peixes. “O que é que este gajo quer? Já perdi X Kgs, estou numa forma brutal e este vem-me falar de gordos?” A resposta serão vocês a dá-la, quando vão de férias, quando param umas semanas, seja por lesão ou preguiça. Se perder peso é fácil quando o desporto entra a sério na nossa vida, ainda é mais fácil retomá-lo quando ele sai. Certo?

Por isso volto a perguntar, o que se passa? Algo tem de estar profundamente errado.

E se tudo, ou quase, o que vocês acham que sabem sobre nutrição fosse mentira? Se muitas das recomendações de nutrição que passámos a vida a ouvir estivessem erradas? E se ao tentarmos ser saudáveis estivéssemos de facto a piorar a nossa saúde? Isso explicava de facto parte do problema. Será possível?

Há cerca de um ano, tropecei num artigo do The Guardian: A conspiração do açúcar; e assim começou a minha viagem. Comecei, como habitualmente, por escrever sobre isso no meu blog (podem ler o artigo aqui inclusive em português) e desde aí ainda não parei de ler e aprender sobre nutrição. É importante perceberem como chegámos até aqui, como surgiu este logro enorme onde estamos metidos. Mudar de hábitos não é fácil e a única forma de acreditarmos que vale a pena mudarmos de vida, antes de o nosso corpo nos mostrar que de facto estamos no caminho certo, é compreendermos o que está por detrás da mudança, tentar perceber onde está a verdade. Mudar não é algo que se faça por uns tempos para depois se voltar à mesma alimentação. Esse tipo de dietas restritivas e punitivas, como muito bem sabem, estão normalmente condenadas ao fracasso. A solução é mudar para uma vida mais saudável! Para sempre, claro. Só isso.

Não vos posso fazer recomendações sobre nutrição porque não estou habilitado para o fazer, mas posso dar-vos umas pistas do que aprendi e do que alterei, sendo que no meu blog encontram vários artigos que relatam o caminho que tenho percorrido. Vejam na área Nutrição.

Algumas coisas vocês já sabiam ou suspeitavam: o açúcar é um veneno, por exemplo. Mas o verdadeiro problema é que o açúcar está por todo o lado. E muitas vezes nem sequer se chama açúcar. Chama-se hidrato de carbono. E a indústria alimentar encharca-nos de hidratos de carbono, refinados, processados, eles estão por todo o lado. Nos bolos, no pão, no esparguete, no arroz, nas batatas, e de um modo geral em tudo o que está dentro de pacotes coloridos. Há corredores inteiros nos supermercados que não têm um único produto nutricionalmente equilibrado. É esta a triste realidade da indústria e do comércio alimentar.

Não costumam ler rótulos? Vão à despensa e vejam nos vossos pacotes as quantidades por 100 gr de Hidratos de Carbono ou Glícidos...

Depois temos os erros que atravessaram gerações. Os ovos, essas fontes de colestrol... os ovos não fazem subir o colesterol. Podem mesmo comer os ovos que quiserem. Há uns anos escrevi sobre os ovos neste artigo. E já agora a gordura saturada não é a principal responsável por engordarem ou por vos entupir as artérias. Usem banha de porco! As boas gorduras são saudáveis e ajudam-vos a emagrecer.

Certamente já ouviram falar na dieta do paleolítico. Eu não gosto deste rótulo. Por um lado a palavra dieta está erradamente associada a algo restritivo, que supostamente dura durante algum tempo “estás a fazer dieta?” Depois não me sinto um tipo do paleolítico nem seria possível hoje em dia comer como se comia nesse tempo. A questão tem mais a ver com tudo o que foi introduzido na nossa alimentação após esses tempos e que, aparentemente o nosso corpo não processa de forma mais eficiente, sendo que nalguns casos há mesmo várias doenças auto imunes em que, de todo, o corpo não lida bem com algumas substâncias, nomeadamente o glúten. No entanto há várias orientações deste estilo de vida que são bastante racionais e saudáveis.

Para dificultar existe imensa informação e contra-informação. Quem passou uma vida inteira a advogar uma coisa, dificilmente admite que afinal foi enganado. Já se vão ouvindo umas vozes aqui e acolá, mas o ruido do status-quo abafa tudo e todos. Por isso é normal que várias pessoas coloquem em causa este tipo de princípios. Não por serem do contra, mas porque não foi isto que lhes ensinaram e não é fácil mudar, como já referi...

Se ainda continuam a ler este texto então saibam que estão no bom caminho. Porque antes de mais esta mudança da vossa alimentação exige muita informação. Não faz sentido eu dizer “não comam isto” se não perceberem porque não devem comer. Há demasiados alimentos para os enumerar. Percebendo os fundamentos e com alguma orientação serão capazes de passar a comer de forma muito mais saudável. 

Desde logo preparem-se para ler rótulos nos supermercados e pesquisar a composição dos alimentos na internet. Quanto temos dúvidas a composição dos produtos é fundamental para procurar os aditivos “escondidos”. Os rótulos nutricionais ajudam a encontrar, por exemplo, os hidratos de carbono que vos dão mais pistas e vos ajudam a escolher as opções certas. Esqueçam as calorias, aqui não há restrições calóricas. Esqueçam os lípidos (gordura). Desde que seja gordura saudável é o que se quiser. Se precisarem de ajuda para interpretar os rótulos nutricionais vejam este blog. E ainda, tão importante ou mais do que a tabela nutricional, a lista de ingredientes. Leiam com atenção pois vão seguramente aprender algo dado que os textos são excelentes e muito detalhados.

Vão ter de mudar o chip. Fujam de tudo o que é light ou diet ou sem gordura ou com baixo teor de gordura, ou rico em proteínas ou qualquer outra afirmação. A ideia aqui é Low Carb High Fat (poucos hidratos de carbono e muita gordura). Sim! Muita gordura. Gordura saudável claro. Eu sei que a ideia de que a gordura engorda parece tão perfeita que dificilmente acreditamos que a gordura saturada é saudável, sacia e nos ajuda na verdade a perder peso. 

O que fica de fora é o açúcar, pão, massa, cereais, tudo o que tenha farinha. Praticamente tudo o que é processado terá de ficar de fora. Refrigerantes, cereais de pequeno-almoço, bolachas. Os amidos também são para esquecer: grãos, cereais, arroz e mesmo alguns vegetais ricos em amido, tais como cenoura, ervilha, batata.

Mas então o que se come? Para além de carne, peixe e ovos, todo o tipo de folhas: rúcula, couve-chinesa, repolho, acelga, endívia, couve, alface, salsa, espinafre, agrião, estão a ver a ideia. Mas também hortaliças como alcachofra, espargo, brócolos, couve de bruxelas, couve-flor, aipo, pepino, berinjela, cogumelo, quiabo, cebola, pimentão, abóbora, alho, tomate, por exemplo.
Os lacticínios podem ou não fazer parte da vossa vida. Os puristas ou quem não os tolere bem excluem-nos, mas eu como queijo com pouco ou nenhum hidrato de carbono e o menos processado possível (leite e coalho), iogurte grego gordo, com o mínimo possível de hidratos. Também bebo leite fermentado com kefir.

Entendam que, melhor que seguir cartilhas é lerem, aprenderem e depois de perceberem, fazerem as vossas próprias escolhas, dentro do razoável e seguindo uma filosofia de comer alimentos o mais naturais possível. Somos todos diferentes e temos necessidades diferentes. Depois de perceberem os princípios devem adaptá-los à vossa vida; se fazem maratonas, levantam ferro, ou apenas fazem umas caminhadas, todos os níveis de actividade física são compatíveis com alimentos de verdade, muito poucos hidratos de carbono e bastante gordura saturada saudável. 

O objetivo deste artigo não era explicar-vos em detalhe o que é uma dieta LCHF (Low Carb High Fat). A internet está cheia disso. Faço-vos a mesma recomendação que leram no meu blog (se não leram devem ler o artigo que referi, pelo menos). Estão lá 2 livros, sendo que um deles até tem link para a versão PDF. Haja vontade para mudar. O objectivo era só despertar-vos a atenção e colocar-vos inúmeras duvidas existênciais.

Então mas os hidratos de carbono não são a energia que o nosso corpo precisa?

Conseguimos praticar desporto sem consumir quantidades astronómicas de hidratos de carbono?

E o pequeno almoço? E os meus flocos? A minha aveia? Não vou ter energia!!! Socorro. Este tipo é louco.

Talvez seja, mas no próximo artigo vou contar-vos como encaixei o LCHF na minha vida desportiva.

Continua...

Se o tema vos interessa podem seguir o grupo Low Carb High Fat Endurance - Portugal no Facebook.



Nota; as fotografias são meramente exemplificativas e as infografias foram retiradas do relatório da APDP referido no texto)

2 comentários:

  1. Respostas
    1. O link está no texto no parágrafo onde falo do artigo do The Guardian. Aqui fica também http://corremais.paulopires.net/2016/08/e-banha-da-cobra-e-uma-boa-ou-ma-gordura.html

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