quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

As lesões e as ostras


Nunca fui de muitas lesões. Normalmente era mais à base de cenas. Dói aqui, dói ali. Depois passa, ou nunca passa, mas um gajo lá vai gerindo. Era mais isso. 
Mas as que tive, revelaram-se autênticos pepinos. Uma foi no ano em que fui ao UTMB. Nem de propósito, estive o mês de Janeiro parado e mais 2 meses para recomeçar. Acho que em Abril ainda andava a apanhar bonés e a pensar como iria fazer 100 milhas dentro de alguns meses. Um adutor no estaleiro. Às tantas desenvolvi uma pubalgia, enfim... foi giro. Deu para aprender umas coisas.

Entretanto os anos passaram e estraguei outras peças. Agora são os tendões dos isquiotibiais. Já tiveram melhores dias e para além de não estarem na garantia, o fabricante não tem peças de substituição.

Reza a lenda que quando desenvolves uma tendinite nos tendões de inserção dos isquiotibiais e tens 52 anos a tua alcunha para a corrida é o "jáfoste".

Não há muita informação na net, em português, sobre esta maleita. Uma excepção está aqui. Mas ao que consta há muita gente a padecer da referida.

Os nossos amigos estrangeiros, para variar, têm imensa informação online e sobretudo partilham conhecimento, ajudam-nos a entender o problema e dão-nos algumas ferramentas para tentar resolvê-lo. Tal como em muitos outros assuntos, quanto mais estudas e percebes, mais te dás conta que por cá anda imensa gente a inventar. Quase que tens de ser tu a guiar o teu próprio tratamento. 

Alguma informação em estrangeiro e que uso para me orientar está nestes 2 links:

www.running-physio.com/phtvids/
runnersconnect.net/high-hamstring-tendinopathy-injuries-a-pain-in-the-butt/
www.runnersworld.com/for-beginners-only/10-tips-to-relieve-hamstring-tightness

Ficam só 2 exemplos e o nome em estrangeiro: PHT - Proximal Hamstring Tendinopathy, não se vá dar o caso de precisarem de investigar a coisa.

O problema desta tendinite, pelo menos para mim, foi a maneira vil e cobarde como a dita cuja se foi instalando. A princípio confundia-se com o dorido natural de uma prova ou de um treino mais rijo. Mas à medida que reduzia a carga, a sensação de dorido não desaparecia. Pelo contrário, regressava mal começava a correr. E a pouco e pouco, chegámos ao estado em que isto está. Quando comecei a pesquisar, ler sobre o tema e a procurar respostas, XARAN!!! Já está. 

Já fiz muitos caminhos de muitas pedrinhas, e seja lá porque razão for, todos foram dar com os burros na água. Já quase consegui retomar a corrida e tudo. Parecia que já tinha percebido como ultrapassar o problema, mas de repente, toma lá mais uma dose. 

Esta não é fácil. A recuperação mede-se em meses, anos, ou mesmo em anos-luz :) 

A única coisa que tenho como certa até agora é que, se não tentar, provavelmente esta vai comigo para a cova. Já li inúmeros testemunhos de malta que sofre do problema há anos, alguns há mais de 10 anos. E pelos vistos, não são mais anos, porque ainda não passaram. 

Portanto, não se perde nada em tentar.

Ah, mas e as ostras, dizem vocês? As ostras é o seguinte, eu sou um tipo positivo. A vida já me f...lixou muitas vezes, e eu já percebi que a gaja é mesmo assim: a vida está-se a cagar para nós. Por mais que ames a vida, a gaja é uma vaca porca, badalhoca e promiscua, e à mínima coisa, quando pensas que a tua paixão é correspondida, PUMBA! A gaja f....lixa-te. Borrifa-se para ti e vai tratar de fazer outro feliz. 

E tu ficas ali com cara de corno, a chorar baba e ranho? Opá, sinceramente, que parvoíce e perda de precioso tempo (que ainda por cima é pouco). O melhor é aproveitar a que temos porque 'outra vida' é coisa que não existe mesmo. É mais difícil ter outra vida, que curar uma PHT. 

Bom, isto tudo para dizer que não me afeta muito não poder correr. Até acho piada àqueles gajos que quando não podem correr parece que vão morrer. Eu sei que correr é uma alienação. Um gajo às tantas só vive para aquilo, o mundo resume-se a correr, comer e dormir. Depois há outras coisas ali de roda, mas que para alguns são quase adereços, no tempo que sobra das 3 atividades referidas, lá se interage com elas. Escusam de assobiar para o lado. Já estive nesse barco, ou num parecido. Mas depois... "Terra chama Paulo... Terra chama Paulo....Responda Paulo.... Temos uma tendinite para si...."

Quando temos de parar de correr, só temos de abrir os olhos e o cérebro, para tudo o resto. A vida não é só correr, por mais que o vosso cérebro vos diga o contrário, agarrados do baralho...

Opá mas e as ostras? As ostras, no meio disto tudo, são os teus 'antigos' amigos das corridas que te dão. Digo 'antigos' sem querer ferir susceptibilidades, até porque tenho poucos e os gajos sabem quem são. Não é que eles deixem de ser menos amigos, acho eu....
A questão é que quando tu sais do barco, do tal barco de correr, comer e dormir, o barco não pára amigos. E partindo do princípio que não costumavas comer, nem dormir, com os teus amigos das corridas, e também já não consegues ir correr com eles, então o que sobra? Lá está, para ti....ostras.

Não vejam isto como uma crítica, amigos. Nem faria sentido, afinal quem saiu do barco fui eu. É mais uma constatação, com alguma mágoa à mistura. Não sinto tanta falta da corrida, como sinto dos amigos. Mas a vida é mesmo assim, fecha umas portas e abre 'ostras'. Nesta travessia do deserto dos amigos das corridas, não te esqueças de levar limões, para pôr nas ostras.

Eu sou como o Santana Lopes, volte ou não a poder correr, mais, menos, ou mesmo nada, vou continuar a andar por aqui. Tive de sair do barco, é verdade, mas estou por aqui. 

Ostracismo - O Ostracismo era uma punição existente em Atenas, no século V a.C, na qual o cidadão, geralmente um político, que atentasse contra a liberdade pública, era votado para ser banido ou exilado, por um período de dez anos. O Ostracismo foi criado por Clístenes, o "Pai da Democracia"O termo deriva do método de votar que consistia na escrita do eleito em um pedaço de cerâmica, denominado de Óstraco, que por sua vez deriva das Ostras devido à forma dos ditos cujos.

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