segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Via Valais - Etapa 2 - Grimentz - Zinal - Turtmann Hut

Após uma noite tranquila no Hotel Cristal e um excelente pequeno almoço onde conhecemos mais uma compatriota alentejana, de Pias, estava na hora de enfrentar a segunda etapa. O início desta etapa tinha sido redesenhado por mim mas estava prestes a ser adaptado às circunstâncias e ainda não imaginávamos o que lá vinha a seguir...

Nos hotéis de montanha do cantão de Valais é habitual oferecerem um passe de 1 dia para os transportes publicos, autocarros, comboios, teleféricos...

Vista fantástica da enorme cabine
do teleférico Grimentz-Sorebois
Ora devido a termos de ficar em Grimentz, 600 m D- abaixo da barragem, já não estava nos planos subir ao Corne de Sorebois. O Corne de Sorebois é um pico com uma vista 360º fabulosa. Só que da barragem eram 600 m D+ e dali seriam agora 1200  m D+ e vários Kms para trás, ou atalhar montanha acima. A juntar a um dia que já ia ter 30 Km de montanha, estava fora de questão.

No chão de vidro dá para voar pelos trilhos
Mas e se, em vez de fazermos o percurso flat e aborrecido até Zinal (onde retomaríamos o percurso original), se em vez disso, apanhássemos o teleférico para o Corne de Sorebois e depois descêssemos o fantástico trilho até Zinal  já nosso conhecido da aventura de Haute Route? De lá de cima são 1300  m D- até Zinal, o caminho havemos de dar com ele, os bilhetes para o teleférico são oferta, o teleférico sai ali a 200 m do hotel... Epa, nem se fala mais nisso. Bora lá.

O teleférico não vai mesmo ao topo, mas vencidos os 80 m finais foi tempo de desfrutar da fabulosa vista. Voltei 4 anos atrás, quando tínhamos passado ali, vindos lá de baixo da barragem. A comparação da paisagem era inevitável e para ser sincero, há 4 anos foi francamente superior. Não só pelo efeito uaaauuu! que se perde um pouco com as repetições, mas objectivamente há 4 anos havia muito mais neve (era Julho) e também não tinha nascido o sol. As fotos não deixam transparecer isso, vão ter de acreditar em mim ou ir lá nas 2 alturas confirmar.

Barragem de Moiry vista do Corne de Sorebois (2896 m) - Início de Agosto 2020

Barragem de Moiry vista do Corne de Sorebois (2896 m) - Início de Julho 2016

Repeti também uma foto panorâmica que tinha tirado na altura, mas esse formato não é o ideal para ver no blog. Recolhidas as fotos da ordem era hora de começar enfim a nossa etapa do dia. 

A tarefa era simples e podem apreciá-la na foto seguinte. Uma descida de 1300 m D- pela encosta à direita na foto, até cá abaixo a Zinal. Esta foto foi tirada já a subir a encosta oposta, rumo a Turtamnn Hut. É verdade que descer é mais fácil que subir, embora com 7 Kg às costas os vossos quadriceps não concordem muito com esta afirmação. Sobretudo se vais estar mais de 1 hora a meter carga nos rapazes. 

Zinal cá em baixo. A encosta da direita foi a descida desde o Corne de Sorebois 1300 m D-
A descida começou por estradões que ligam os vários teleféricos e meios mecânicos existentes no topo. Obviamente viemos a atalhar por ali abaixo, pelas inclinadas pistas de ski, agora transformadas em campos de ervas. Sabíamos a direcção de Zinal e em breve iríamos abandonar o estradão para meter para um incrível trilho pedestre que nos traria até cá abaixo, mesmo pelo meio daquela floresta de coníferas (a mancha mais escura e inclinada à direita na imagem). Mas assim que nos aproximámos das placas com os destinos e tempos, sempre existentes em qualquer cruzamento de trilhos na Suiça, ficámos incrédulos. O trilho pedestre para Zinal estava interdito. Obras em curso... Ficámos a olhar para as placas, papéis colados apontavam Zinal para cima, tipo desvio... Um sinal de trânsito não deixava duvidas: transito proibido a peões! Ó diacho! E agora? Não tínhamos muitas hipóteses e muito menos tempo a perder, ainda o dia estava a começar, faltavam 30 Km e já andávamos aos papéis. 

Sem tempo a perder começámos a subir na direcção que apontavam os papéis. Subir é chato quando queres é ir para baixo. Mas pelo menos dizia Zinal. 
Passámos por uma obra (o teleférico para Zinal está a ser refeito) mas como era domingo não se via vivalma. Lá demos com outro papel provisório a indicar Zinal. Percebemos que depois de subir, nos iram fazer descer por um estradão que estava a ser usado pelos camiões da obra, um trilho um pouco mais largo apenas. Claro que o estradão em Z, devido à inclinação, era uma perda de tempo enorme e num instante estávamos a cortar caminho, sempre a tentar apanhá-lo mais abaixo. 
Ninguém sabe bem quando, nem como, mas de repente estávamos novamente no trilho, no tal trilho que estava cortado inicialmente. O estradão já ninguém sabia para onde tinha ido. Passámos por uma zona em que estavam a fazer uma sapata para o teleférico e o trilho estava todo arrasado. Pensámos que era por isso que tinham cortado o trilho. Palermas estes suíços, uns exagerados, foi por isto que puseram aquelas placas todas? Pffff!

A partir daí o trilho irremediavelmente inclinou, entrou em floresta densa e serpenteava, serpenteava, escorregadio, muito escorregadio por vezes, complicado de fazer. Pior do que me lembrava há 4 anos atrás. Talvez por estar muito mais seco, talvez por estar fechado e não ter ninguém a passar. Descer é sempre mais exigente quando se trazem 7 Kg às costas. 

Começamos a chegar aquela parte em que já cheira a Zinal, os telhados estão já quase ali, faltava uma parte que me lembrava bem de há 4 anos: uma ponte em madeira com uma cascata por trás...podem ver nestas fotos de há 4 anos.


Ora mal passo a esquina anterior e vislumbro o local... era apenas um monte de escombros, a ponte tinha sido arrasada por uma derrocada e o passadiço anterior com as correntes estava encosta abaixo. Na segunda foto percebe-se que sem passadiço fica um bocado chato. Volto atrás a informar da desgraça, mas subir 1000 m D+ estava fora de questão. Olho em redor e toda a zona é escarpada e de uma enorme inclinação. Fora de questão encontrar outro ponto para descer. Estávamos tão perto.... 

Epa isto assim vai ser mais complicado de passar...

Depois de avaliar melhor, se calhar até se passava, agarrar aqui, passar acolá, subir para o que resta da ponte, e voilá. Parecia mais difícil, o primeiro impacto foi pior. Com muito cuidado, todos passámos o verdadeiro motivo pelo qual o trilho estava cortado lá no alto. Bolas... um momento de frisson. 

O Pedro com um ar alivi....satisfeito, depois de passar.
Muito mais divertido sem passadiço! Passadiço é para meninos

Mais uma ponte, funcional mas bloqueada por um enorme compressor de obras, mas que se conseguia passar e chegámos a Zinal. Altura de tirar alguma da carga da mochila para a pança e meter água fresca, antes de prosseguir montanha acima. 1600 m D+ esperavam por nós.

O resto do percurso haveria ser tranquilo. Depois de uma enorme subida inicial, pelo percurso da famosa prova Sierre Zinal, a coisa lá estabiliza e seguimos montanha acima, sempre a subir mas de forma mais tranquila. 


O percurso já nosso conhecido de há 4 anos iria levar-nos a passar novamente no Col de Forcletta (2874 m), mas desta vez, sem qualquer neve, nem reconheci o local onde há 4 anos ficámos perplexos e nos borrámos um bocado para descer... É só recordar a coisa neste post

Depois de passar o Col Forcletta, ao contrário de há 4 anos, em vez de nos dirigirmos para Gruben subimos o vale até aos enormes lagos no sopé do glaciar de Turtmann. Paisagem avassaladora. Várias represas no final do vale glaciar, com várias cascatas, entre as quais o próprio glaciar, a despejar água. As fotos dos Alpes são sempre fraquinhas porque é impossível caber numa foto a imensidão de toda aquela paisagem. Mas reparem no cato superior esquerdo, mesmo de frente para o glaciar à direita na foto, a cabana de Turtmann onde iríamos jantar e passar uma noite fantástica, junto ao glaciar.  

A cabana de Turtmann no topo superior esquerdo e o glaciar do lado direito

Pela imagem parece perto, mas tudo parece perto por ali. Faltava contornar os 2 lagos e subir talvez 200 m D+. O suficiente para nos fazer chegar já com o jantar a decorrer (janta-se às 18h30 no abrigo). 

O glaciar visto da janela
do nosso quarto
Aos poucos lá fomos chegando e demos prioridade ao jantar. Iríamos instalar-nos depois de repor energia. O único senão da cabana era não haver duche. Teve de ser um banho checo... chec! chec! chec! já está. Também não havia água quente de modo que um duche com água àquela temperatura não ia ser muito memorável. A camarata era enorme e embora estivessem mais pessoas nas águas furtadas por cima de nós, para a nossa camarata não veio mais ninguém. Uma área enorme só para nós. Espalhámo-nos por ali, para nos protegermos do homo roncus que provavelmente iria aparecer como nas noites anteriores....

Depois de comer, só o tempo para umas imagens fabulosas do glaciar e quando a noite cai, já se está na cama. Uma paz brutal. O glaciar ao longe derrete-se em gigantescas cascatas e embala-nos o sono. Amanhá há mais. Fiquem com um filme que dá uma boa ideia do final de dia no local. Full screen e som bem alto SFF


Seguir para a próxima etapa:  Via Valais - Etapa 3 - Turtmann Hut - Tasch

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