quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Fastpacking - Dormir em autonomia

O fastpacking é um conceito muito abrangente. A ideia é irem em autonomia e com capacidade para correr, mais que não seja a descer, ou quando apetecer apenas, tanto faz. Como não é uma prova, não há regulamentos e não vão ser desclassificados seguramente Vão como quiserem, comam onde quiserem e durmam onde quiserem. Na realidade o que importa é passar uns dias em plena natureza, o mais autónomo possível. Mas se vale um pouco "tudo", então também vale perseguir um objectivo. E ao fim de várias aventuras onde sempre, ou quase, dormimos abrigados, então conquistar a autonomia para dormir em, quase, qualquer sítio também vale. É esse o tema deste artigo.

Adoro acampar. A sensação de ficar numa tenda e partilhar a noite com a natureza é fantástica. É verdade que depois não durmo grande coisa, habituado como estou a dormir no profundo sossego de uma urbanização da margem sul. Mas é irrelevante. Ficar a ouvir a bicharada noturna, o vento, as árvores, os pássaros madrugadores, tentar identificar os ruídos amplificados pelo silêncio da noite... não tem preço, nem hotel de 5 estrelas, onde se dorme sem se dar por nada, que se compare. Aqui sentimos que estamos de facto vivos e não anestesiados num quarto que pode custar tanto numa noite como o ordenado que muitas pessoas levam para casa ao fim de um mês de trabalho.

Por isso é lógico que tente passar para o nível seguinte nas minhas aventuras de fastpacking. Nada contra ficar em abrigos, mas quero ter comigo a possibilidade de dizer, uauuu! aqui é que montava uma tenda e passava a noite. Por isso bora lá. O que é preciso?

Tenda

Como gajo que gosta de acampar tenho várias tendas. Infelizmente nenhuma que consiga transportar, muito menos numa mochila enquanto corro. Mas há. Há tendas a começar em 500 gr, ou menos se forem unipessoais, Mas para não cair no problema anterior de coisas que custam tanto como 1 mês de salário (embora neste caso até seja um bem que vai durar muitos anos) há que pesquisar bem. Vamos deixar este tema para outro post. Fiquem apenas com a ideia que convém levar uma tenda. Sim há outras opções, dependendo do clima e da meteorologia, mas fiquemos pela tenda que é de utilização mais universal

Sistema para dormir

A questão de lhe chamar sistema é por ser composto por vários componentes. Quando estamos a dormir o corpo arrefece (e por isso sentem frio) de 2 formas: por um lado a parte que contacta com o chão, por outro lado a parte de cima, chamemos-lhe assim, que supostamente deverá estar tapada com algum material isolante. 

Por isso e para começar, não deverão estar em contacto com o solo. O corpo vai perder imenso calor. E também porque dormir no chão é doloroso e rijo que nem cornos (já dormi em lajes e não quero repetir) não é nada boa ideia dormir no chão. É fundamental ter um colchão. Por mais minimalista que seja, um colchão confere algum conforto e mais importante, confere isolamento térmico do chão. Ou seja preserva o calor que o nosso corpo produz. 

Os colchões não nascem iguais

Um dos melhores isolamentos térmicos é o ar. Ainda por cima é grátis. O problema é que precisa de um invólucro. E como não convém levar um colchão Repimpa (lembram-se desta mítica marca?)  a dificuldade é, no menor espaço e peso possível, colocar o ar suficiente que garanta um bom isolamento térmico. Apontem para 500 gr. É um valor razoável e encontram-se algumas alternativas no mercado.

O valor R mede o isolamento térmico dos materiais. Está regulamentado pela ISO 8302 e é um parâmetro necessário em engenharia, arquitectura e qualquer atividade para a qual seja importante conhecer a capacidade específica de isolamento de um qualquer material. 

Os fabricantes também testam e divulgam o valor R dos seus colchões. No entanto e dado que a ISO 8302 não foi propriamente pensada para colchões de campismo, a metodologia aplicada não é uniforme entre fabricantes. Os americanos estão um pouco mais à frente e definiram uma metodologia de teste ASTM F3340-18 específica para colchões de campismo. Esta metodologia entrou em vigor no início de 2020 e vai permitir, futuramente, comparar produtos de diversos fabricantes de forma mais fidedigna. 

Por isso atualmente comparar um valor R de um dado modelo de uma dada marca, com outro de outra marca é.....mais ou menos....

De qualquer forma tenham isto em conta na escolha de um cochão. O valor R vai definir a altura do ano em que o devem usar. Claro que há inúmeros fatores a ter em conta, mas usem esta tabela e terão uma ideia aproximada


Com o valor R adequado e na casa dos 500 gr , com um orçamento razoável, verão que as escolhas são poucas e limitadas. Se o modelo que estão a avaliar nem sequer refere um valor R, procurem outra coisa.

E para tapar?

Normalmente usa-se um saco cama e aqui já é mais normal sabermos que um dado saco cama só é confortável até X graus, sendo que quanto mais frio estiver mais isolamento vão precisar, logo mais peso e mais volume. O melhor isolamento que ao mesmo tempo permite menos peso e mais compressibilidade quando o guardamos continuam a ser as penas. 

A cena das penas é que ao expandirem-se criam espaço com ar e, tal como no colchão, é esse ar que encerrado num invólucro vai garantir o isolamento do vosso corpo. Quanto mais penas, mais bolsas de ar, maior isolamento. Simples.

Mas então é razoável pensar-se que, num saco cama, a parte das penas que está a ser comprimida pelo nosso corpo contra o colchão, não serve para nada. São penas que pagámos, transportamos e não dão qualquer isolamento.

Por isso a ultima tendência são os quilts, ou mantas vá (para esta há tradução). Um quilt é uma manta de penas com a qual se tapam. Assim poupa-se nas penas, no peso e no preço que se paga. Claro que para alguns fabricantes isso não é razão para  não cobrar o habitual preço astronómico.

Mas aí temos de entrar com a nossa capacidade de pesquisar e seleccionar uma opção que sendo mais razoável, não comprometa de todo uma noite confortável.

Um quilt tem outras vantagens. Não precisam de se enchouriçar lá dentro, embora seja possível fazer um abrigo juntamente com o colchão e umas fitas que o prendem por baixo, para as noites mais frias. Mas nas noites mais amenas podem apenas tapar-se ou destapar-se à vontade. 

Resumindo

Um sistema para dormir deve incluir um colchão e um quilt ou saco cama, com o nível de isolamento adequado às condições que vão encontrar. Dependendo do vosso orçamento, existem no mercado produtos que permitem ter este sistema com 1 Kg ou menos, e ocupando apenas o fundo da vossa mochila. Não são obviamente produtos de saldos e terão de fazer algumas concessões nas escolhas, mas também não precisam de gastar as centenas de euros que pedem alguns fabricantes de renome.

Se o tema vos interessa, subscrevam o blog e fiquem atentos a mais desenvolvimentos e muitas novidades para breve... 

Entretanto criei uma nova categoria no blog para o tema fastpacking, e podem aceder diretamente a partir do menu superior. Have fun, as always!

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