terça-feira, 8 de setembro de 2020

Via Valais - Etapa 4 - Tasch - Zermatt

Embora Tasch seja a última vila antes de Zermatt, apenas a 4 Km, saímos cedo na direção contrária. Tínhamos de voltar a Randa para, aí sim, subir para o trilho Europaweg que nos iria levar até Zermatt. O trilho Europaweg é um dos mais famosos trilhos da Suíça, segue ao longo do vale de Zermatt acima dos 2000 m de altitude, sempre com vistas deslumbrantes, quer para os glaciares e montanhas do outro lado do vale, quer para a paisagem cá em baixo. Mas no trilho Europaweg estava também algo único que seria o ponto sublime do dia e provavelmente da nossa viagem.

A ponte suspensa Charles Kuonen que não estava a funcionar quando lá estivemos em 2016. Mas lá chegaremos. 
Randa - Início da subida para a ponte Charles Kuonen

Deixámos Randa lá em baixo no vale
O plano era voltar a Randa, subir quase 700 m D+ para passar a ponte suspensa e seguir pelo trilho Europaweg até Zermatt. Tirando a área envolvente da ponte que não estava acessível em 2016, o trilho Europaweg era um velho amigo. É daquelas coisas que nunca mais te esqueces na vida. Se quiserem conhecer o trilho com mais detalhe é só lerem o que escrevi em 2016 neste artigo da viagem de Haute Route.

A manhã estava fresca no vale, mas chegados a Randa os 700 m D+ em poucos Kms iam resolver isso num instante. A subida é rija, floresta densa, direta à ponte que já tínhamos visto cá de baixo e que a pouco e pouco, ao longo da subida, se vislumbrava insinuante lá no alto. A nossa excitação era inversamente proporcional à distância a que estávamos. A desforra de 2016 estava perto...

O início da subida está cheio de pitorescas casinhas e abrigos agrícolas

À medida que nos aproximamos a ponte vai dando um ar da sua graça

A primeira coisa que me impressionou quando finalmente chegámos ao topo oeste da ponte, para além do comprimento do assombro e arrojo daquela estrutura, obviamente, foi a simplicidade da sua construção. As amarrações dos cabos de aço que suportam toda a ponte estão tão bem integradas na montanha que fiquei deveras surpreendido. Se compararmos com as aberrantes torres de cimento que foram usadas para a ponte de Arouca, ali a ponte está perfeitamente integrada na paisagem. Cá de baixo de Randa vê-se o que parece ser uma corda a atravessar de um lado ao outro e ali, ao lado da ponte, ficamos estarrecidos com a genialidade da estrutura.

Ao lado da ponte uma casa de banho portátil, daquelas que temos até medo de entrar.... Mas como estávamos na Suiça fui espreitar. Obviamente a estrutura é colocada ali com um helicóptero, como quase tudo o que é feito naquela zona. Mas o conceito de manutenção, que é uma coisa estranha aqui em Portugal, ali é levado ao extremo. A casa de banho tinha "conteúdo" digamos assim, embora o cheiro fosse inexistente. Até estranhei ver que tinha conteúdo dada a ausência do habitual fedor horrível, mesmo com os químicos. Para além de estar tudo impecavelmente limpo, tinha espelho, papel higiénico, ambientador de pressionar e pasme-se, alcool gel. Tudo 100% funcional. Incrível. Foi um desperdício de recursos porque não estava a precisar de usar, mas tive pena :) 
Por cá temos, por vezes, de usar o oposto de tudo o que descrevi...

A "simplicidade" das amarrações da ponte impressionou-me
Estava então na hora de desfrutarmos do momento do dia. Quase não havia ninguém. Um casal que tinha subido ao nosso ritmo seguiu outro trilho e um senhor que tinha passado a ponte ofereceu-se para nos tirar uma foto e seguiu também por esse trilho. Era muito cedo. Não havia ninguém a passar a ponte e iniciámos a nossa travessia histórica.

Vejam os vídeos. Atravessar aquela ponte é qualquer coisa de inesquecível. Atrevo-me a dizer que vale a pena a viagem para fazer aquela travessia. A ponte abana, claro, e quantas mais pessoas, mais a ponte abana. Mas temos de confiar no trabalho de engenharia que é conceber aquela estrutura que terá seguramente sido várias vezes abusada e testada. Relembro que a capacidade máxima são 250 pessoas. 

Por isso é desfrutar da oscilação natural da estrutura, da paisagem, da dimensão de tudo o que vemos lá em baixo que parece tão perto. Enfim, uma travessia sublime, não fosse esta a maior ponte pedonal suspensa do mundo. E mesmo que venha a ser ultrapassada brevemente pela nossa ponte de Arouca, dificilmente o será na envolvente, na integração, na paisagem, e na beleza.


Neste link encontram uma playlist com 3 pequenos vídeos da travessia. Não é como lá estar mas fica a ideia.
Vista do lado Este já bem iluminada pelo sol

A integração da amarração da ponte na montanha é simplesmente fantástica 

Os trilhos precisam de manutenção
O resto do percurso já era nosso conhecido e como vos disse, vejam o outro artigo onde descrevo em detalhe o Europaweg. Agora foi apenas um déjá vu. Pelo caminho ainda vimos pessoal a trabalhar em zonas do trilho que necessitavam de manutenção (a tal palavra pouco usada em Portugal), um deles era um encarregado da Europa de leste (não me lembro o país) que falava fluentemente português e com quem estivemos um bocado à conversa. Estranhámos falar um português tão fluente embora com sotaque. Explicou-nos que teve de aprender português para trabalhar com empregados portugueses... outras realidades.

Muitos trabalhos em curso perto de descermos para Zermatt. Um novo teleférico e um corropio de helicópteros a transportar material para o cimo da montanha. A descida para Zermatt que tinha desenhado naquela zona foi abandonada mal encontrámos as placas que indicavam o trilho pedestre, floresta abaixo. Um trilho florestal fantástico onde dava para um trote contínuo enquanto desfrutávamos da beleza do local. 

E por fim Zermatt, o nosso destino, desta vez ofuscado por já não ser novidade e pela fantástica viagem que tínhamos feito durante o dia. Fomos ao supermercado de há 4 anos comprar umas belas cervejas. O sol estava forte e refugiámo-nos para celebrar na estação de comboios em frente. A seguir check in no nosso hostel preferido e desfrutar de um final de dia fantástico em Zermatt. 

Zermatt, o nosso destino aos pés do gigante  Matterhorn

Depois de um produzirmos uns espectaculares bifes bem regados com Papa Figos (mais barato do que em Portugal), mal saímos porta fora estivemos meia hora à conversa com 3 raparigas portuguesas que trabalhavam em Zermatt e que estavam na sua noite de folga num jantar de amigas. Interessante conhecer as suas realidades e seguramente também gostaram de nos ouvir contar a nossa aventura e as últimas da pátria. 

A noite acabou com o habitual passeio e deslumbre com as montras e os preços de Zermatt. 

Logo à saída ficámos aqui à conversa com as nossas patrícias aqui em baixo na foto


Zermatt by night é tão ou mais bonita que by day

Amanhã esperava-nos o dia de consagração numa volta pelas redondezas...

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