MIUT - A Meca do Trail em Portugal




"Chama-se Hajj a peregrinação a Meca que é obrigatória, pelo menos uma vez na vida, para todo o muçulmano adulto, desde que este disponha dos meios económicos e goze de saúde in Wikipedia"

O MIUT surgiu-me na agenda no final de 2013. Já me tinha comprometido em ir fazer a Trans Gran Canaria mas uma série de colegas meus começou a dizer que ia à Madeira. Que raio, e agora? 1 mês e meio depois de fazer 125Km na Gran Canária, será que dá para fazer 115 na Madeira? Claro que estas perguntas surgem a meses dos eventos, creio que em Outubro tratámos de tudo para a Canaria e em Novembro para a Madeira. Eu já sabia que se podia fazer uma prova de 100Km 1 mês depois de uma de 100 milhas quando fiz a Cavals del Vent 1 mês depois do UTMB, portanto fisicamente se calhar dava…

O resto foi fácil. A Easyjet a ajudar com bilhetes a 25€ por viagem, o hotel em Machico com um preço excelente no booking, o facto de não conhecer a Madeira versão queijo suíço e o resto da família a não conhecer a Madeira de todo, tudo junto deu no que deu. Bute ao MIUT!

E fomos. Nas mais variadas formas e formatos. Uns antes, outros depois, uns mais em grupo, outros mais em família, outros mais a solo. Sem grandes combinações, cartões e talões lá fomos ao sabor do momento. Uns para o Funchal, outros para Machico, uns com carro, outros de táxi, cada um à sua maneira desfrutou daquela ilha como pôde. E foram dias bem passados que tivemos. Entre passeios e ponchas que iam e vinham ao sabor de quem aparecia na altura, a hora da verdade chegou.

Fisicamente estava bem. Após recuperar do primeiro cansaço da Trans Gran Canária percebi que estava bem. O raio daquela ilha tinha-me deixado mais forte. Embora sentisse o peso de uma prova de mais de 130Km e quase 8000 D+, percebi que a aposta deveria ser em treinos curtos e muito específicos. Nada de canseiras longas, massacres de horas. Totalmente desnecessários. O MIUT exigia 2 coisas. Descanso, recuperação e preparar para subir degraus. Muitos degraus. Disseram-me durante a prova e parece-me realista, que o MIUT tem 6Km de degraus. Se calhar peca por pouco.

A única preocupação era uma dor na parte lateral exterior do pé esquerdo, principalmente quando dobrava o pé para trás. O Alberto Chaíça deu umas dicas quanto ao que poderia justificar a dôr, bem como ao que deveria fazer para resolver o problema.

Preparação sem grandes inovações foi só repetir a formula vencedora da Gran Canária. A experiência dá-nos o conforto de já sabermos o que vamos precisar e o que vamos prescindir. E aqui tenho de abrir o primeiro parêntesis sobre o tema “o que vamos prescindir”.

O tema é bastões e a proibição de levar os bastões na bagagem de cabine. Embora não seja permitido levar bastões na cabine esta proibição está longe de ser coerente. Por exemplo um senhor à minha frente na verificação de bagagens passou com um bastão na mão que foi explicitamente aprovado pelos seguranças. No meu caso levava os bastões desmontados dentro de várias malas, porque não cabiam montados, e o segurança embirrou com uma das secções devido a um espigão que faz parte do mecanismo de aperto. Reparem, não foi com o bico do bastão. Foi o mecanismo de aperto que ele diligentemente desmontou. Aberta a mala e investigada a potencial arma foi-me comunicado que não poderia levar comigo tal objecto. Pouco importava as outras 4 secções que acabaram por seguir nas outras malas, pouco importava o outro individuo que levava um bastão na mão e logo mais duas secções com perigosos espigões prontos a assassinar hospedeiras. Consciente desde o início que era eu que não estava a cumprir com o regulamento ofereci gentilmente aquele perigoso objecto ao segurança e segui viagem. Obviamente a parte importante foi que sempre tive consciência que se fosse apanhado teria de estar preparado para ficar sem os meus velhinhos bastões da decathlon já todos a desfazerem-se. Portanto era só dar seguimento ao plano B, fazer o MIUT sem bastões. Por um lado este era um objectivo que me agradava atingir, uma experiência interessante de realizar. Talvez não o tivesse feito voluntariamente, mas quantas vezes na vida somos empurrados pelas circunstâncias para situações adversas? Mais um teste? É para fazer esta porra sem bastões? Ok, bora lá a ver se não faço!



Foto by Pedro Lizardo
Com o dever de missão que tem de se ter nestas alturas lá fomos no autocarro até Porto Moniz. Grande grupo de amigos, grande ambiente. A galhofa ajudou a passar aquele tempo fazendo esquecer a ansiedade e afastando pensamentos desnecessários.

Embora me tentassem intimidar “O quê? Tu vais fazer o MIUT pela primeira vez sem bastões? Tás doido?” não me abalaram a convicção “Opá isto é peaners! Isso dos bastões é um mito. Arrastar umas varas de chapa a tilintar durante 115Km. Arranjem mas é um kit de pernas” 
É só mudar o chip :)

Em Porto Moniz o tempo estava óptimo. Já desde a tarde que as nuvens tinham desaparecido dos cumes das montanhas e havia apenas nuvens a alta altitude, desanuviando assim um pouco o ambiente. Muitas caras cerradas, muitos amigos, muita apreensão, muito nervosismo. Eu? Eu estava apenas noutra ilha, um pouco mais a Norte da anterior. Era outra vez meia noite. Estava de novo rodeado de um bando de malucos com roupa flurescente e varas nas mãos. O Simões estava lá outra vez. O Trindade também. Que enorme déjá vu!

Sabia que era preciso ir devagar até ao km 33km e isso agrada-me porque ir devagar é o que sei fazer melhor.

Para abrir a pestana levamos logo com um brutal pendente. Porto Moniz a ficar pequenino lá em baixo e a gente aos esses e aos zês estrada acima. Rapidamente se regressa ao nível do mar para tornar a subir ainda por estradas e vilas, mas rapidamente entramos na famosa floresta Laurissilva. Não fazia ideia o que era uma floresta Laurissilva. Pensava que era uma zona a quem deram um nome como tantas outras. Mas não. Devo ter faltado a estas aulas de biologia ou já fundi os neurónios onde guardava esta informação (o mais provável). 
Zonas de floresta Laurissilva na Madeira
A floresta Laurissilva é o nome dado a um tipo de floresta húmida subtropical, composta maioritariamente por árvores da família das lauráceas e endémico da Macaronésia, região formada pelos arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Uma floresta de há 20 milhões de anos. Uaaauuu! Leiam mais neste link




Percurso do MIUT 2014
Como a ilha da Madeira é onde existe o maior e mais bem preservado núcleo desta floresta, a mesma faz parte da reduzida lista de património da humanidade em território português. Saibam tudo sobre este património fabuloso neste link da Unesco. Sim amigos. Porque isto também é trail. Não é só não estragarmos a natureza, é sabermos o que temos de proteger e porquê. Somos uns privilegiados por podermos percorrer estas maravilhas da natureza que esperaram milhões de anos por nós. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para que durem no mínimo outros tantos milhões de anos.

E deixem que vos diga que este é um dos fabulosos encantos desta prova. A floresta Laurissilva é brutal. A vegetação diferente da que estamos habituados, a densidade do arvoredo, o nível de humidade o facto de parecer que estamos constantemente numa floresta tropical a somar aos brutais declives vales e gargantas, por vezes ficamos a pensar que vai surgir um dinossauro a qualquer momento e comer o atleta da frente. Um T-Rex! Não espera, esse pessoal extinguiu-se há 60 milhões de anos. Não é desta história.

Depois de subirmos 800m a floresta prossegue agora num trilho falso plano que sobe lentamente. Vou trocando algumas palavras com o companheiro da frente que me diz que agora são 30 minutos de corrida num trilho de uma beleza indescritível que apenas se adivinha dado que a luz dos frontais não permite mais do que isso. Levada à esquerda precipício à direita, ninguém quer ultrapassar ninguém. Somos talvez uns 10 num pequeno comboio cuja preocupação é manter um ritmo constante. Excelente piso. Corremos mais rápido que a água da levada. Ninguem esboça a mínima vontade de ultrapassar ou ir embora. Parece que comunicamos mentalmente entre todos e o processo apenas é interrompido aqui ou ali por um aviso de pedra ou tronco. O trilho é uma maravilha.

85Km
115Km
Nova subida em floresta até ao primeiro abastecimento, grandes degraus, alguma lama, subida constante. O ritmo segue animado. Sinto-me bem. Vou passando alguns companheiros, tento não me deixar adormecer atrás de ninguém e manter o meu ritmo, prudente mas determinado. Estava avisado para a perigosidade da descida que lá vinha. Abastecimento rápido, nada me falta, muito cedo ainda. Logo após o abastecimento separamo-nos novamente do pessoal dos 85Km. Vamos descer 900m, eles ficam lá por cima. A grande diferença da nossa prova para a dos 85Km é que enquanto eles vão progredindo sempre a uma altitude razoável nós estamos sempre a vir cá abaixo e a voltar lá acima.
85Km sobreposto 115Km
A sobreposição não é perfeita devido a diferentes escalas e não é simples esticar os dois gráficos de forma a fazer coincidir as zonas comuns. Mas façam mentalmente o encaixe e constatem o que vos referi.

Vem a tal descida que o companheiro madeirense me tinha avisado. Muita humidade no chão, degraus de pedra com musgo. Nevoeiro. Vital escolher cada local para pôr os pés. Mas como se mal se via o chão. Sou ultrapassado por um companheiro e aproveito o seu ritmo para acelerar um pouco e tento não o largar mais. O nevoeiro desaparece com a descida e consigo acompanhar o seu ritmo a descer. Quando finalmente saímos da floresta estamos nos 300m e no 2º abastecimento. Simpatia!

Seguimos e esperava-nos um dos maiores berbicachos da prova. 1200m verticais de subida contínua e violenta. Estava avisado pelo tal madeirense. A subida mais dura da prova. Pensei, boa, pelo menos é logo no princípio. Tinha estimado 2 horas a subir. Um grupo de malta animada dava-nos força para a subida. E que subida senhores. Pela primeira vez em Portugal senti o poder do UTMB nesta subida. Pendente brutal. Subida em zês a lembrar o UTAT mas com uma grande vantagem, o piso era fofinho, pelo menos a comparar com a pedreira do UTAT. Consigo manter um ritmo forte e sigo ultrapassando pessoal. Talvez tenha passado cerca de 6 companheiros ou mais. Lembro-me de passar pelo Luis Ferreira, trocámos breves palavras mas naquelas alturas o cérebro está focado numa única tarefa.

Depois de vencer o colo a 1500m iríamos andar por ali uns tempos até retornamos novamente aos 1500m. Zona corrível, estradões, relva fofinha e de repente vejo alguém que me parecia a Susana. Era a Susuna. Boa! Ainda não estou a alucinar. Estava na fase enjoada, mal disposta, tento puxar um pouco por ela mas rapidamente percebo que ela não quer pressão e sigo. “Vai lá andando que eu vou correr aqui um pouco atrás de ti”.

Depois de alguma monotonia de subida em estradão onde agora só ultrapassava malta dos 85Km chego ao CP3. Arrepio-me sempre quando depois das provas vejo o tempo que demorei face ao tempo que estimei quando desenhei mentalmente os ritmos. Tinha estimado que demoraria 6h até ao CP3 que fechava às 8. Demorei 5h57m. Uauuu!

A partir daí a prova iria mudar e vocês vão perceber porquê quando puderem ler o resto.

Get Ready for... UTAT 2014


Ao contrário de outras aventuras nesta vamos sair da Europa. Abandonar o nosso cantinho confortável. Não fosse o suficiente vamos para África amigos. África não vos vai deixar indiferentes. Garanto-vos. Não sei se vão gostar ou detestar mas garanto-vos que os sentimentos serão fortes e vão deixar marca. Não vamos encontrar a África das florestas e dos animais selvagens, mas é seguramente África amigos. Mãe África.
Para além de ser África, é um país muçulmano. Muito europeu e nada fundamentalista, é um facto, mas ainda assim uma cultura radicalmente diferente da nossa, embora as semelhanças por vezes nos confundam.
Por isso e porque seguramente muitos de vós nunca foram a Marrocos, preparei este pequeno breefing, da prova e da nossa viagem. Divirtam-se.

Marrocos é um país de contrastes. E isto não é uma frase feita. Se por um lado em grande parte do país podemos pensar que estamos em Portugal, também tem dunas e deserto e também tem montanhas e neve, pistas de ski, praias, florestas com macacos, cidades europeias com metro de superfície, aldeias perdidas nas montanhas a horas de uma estrada, e um sem fim de maravilhas cada qual a mais inesperada.
Na nossa viagem vamos apenas deparar-nos com 2 realidades radicalmente distintas. A cosmopolita Marraquexe, um misto de modernidade com tradição e exotismo, demasiado turística, demasiado mesmo, e o Atlas com as suas montanhas, o povo berbere, cultura de subsistência, pessoas que vivem em locais e condições que desafiam a nossa compreensão. Se me perguntarem qual prefiro, digo-vos sem hesitar que prefiro o humilde povo berbere e a sua genuinidade, a sua pobreza, à exuberante, ostentativa e mega turística Marraquexe. Em Marraquexe podemos dormir em fabulosos resorts por 500€ a noite mas sinceramente esse luxo não me diz nada, não é isso que procuro nas viagens a Marrocos.

 Clima      

Vamos deparar-nos com 2 climas distintos. Marraquexe onde poderão estar 30 graus e as montanhas onde estarão com sorte 12 graus de dia e bem menos à noite. É nas montanhas que vamos passar quase toda a viagem exceto no regresso onde ficaremos Sábado e Domingo. Para lá mal conta porque saímos do aeroporto diretos à montanha.

Clica na imagem para a 
previsão para Oukaimeden:
Oukaimeden
Clica na imagem para a
previsão para Marrakech:
Praça Jema El Fna










 Dinheiro      

A moeda local é o dirham. 1€ vale mais ou menos 11 dirhams (11,25 para ser mais exato). Obviamente o Euro é facilmente aceite pelos comerciantes locais que farão amavelmente um câmbio arredondado a 10 dirhams por 1€, para facilitar claro….

É fácil levantar dinheiro nas ATM’s com os vossos cartões de débito VISA, Mastercard etc. No aeroporto e em Marraquexe há ATM’s com fartura. Em muitas lojas de Marraquexe é possível pagar diretamente com o cartão de débito ou crédito, tal como cá. Não se deixem enganar pelo aspeto da loja, provavelmente o tipo tem um terminal para pagar com cartões na gaveta.

Se em Marraquexe se vão sentir em casa no que a infraestruturas diz respeito em Oukaimeden (base da prova a 2700m de altitude) pouco ou nada há. E ATM’s não há. Deverão levantar dirhams no aeroporto. Não há muita coisa onde gastar dinheiro na montanha. Exceções: o bar do albergue (jolas, cafés e cenas equivalentes), os almoços dos dias em que não corremos 7-8€ cada nos tascos típicos locais. Há 1 restaurante “produzido” com preços mais europeus, logo vemos se lá vamos. Tirando isto só sobra algum artesanato local que queiram comprar (convém regatear até á exaustão) ou algum produto nas mercearias locais, para além do merchandising da prova. Quando lá fomos não deram absolutamente nada e até as t-shirts da prova tiveram de ser compradas.

Façam as vossas contas e levantem dirhams de acordo. Não faz mal se levarem dinheiro a mais porque ainda vamos ficar 1 dia em Marraquexe e aí os preços já são turísticos.
Os Dirhams não têm valor fora de Marrocos e não são aceites pelos bancos de cá para cambiar de volta para Euros. Antes de saírem do país podem no entanto voltar a cambiar para Euros pagando as inevitáveis taxas.

 Costumes      

Marraquexe é cosmopolita. O turista é rei e podem andar como quiserem, estou a falar principalmente para o sexo feminino. Quando passearem pelo centro tanto podem ver uma fulana de burca como uma jovem de mini saia. A tolerância impera.

O álcool é caro devido às taxas que o estado cobra. E nem todos os locais têm hipótese de pagar a licença necessária para vender álcool. Outros mais rígidos não vendem por opção. Se em Marraquexe é mais fácil encontrar locais com cerveja ou vinho, na montanha apenas o bar do albergue e provavelmente o tal restaurante “produzido” têm álcool. Os tascos destinam-se à população local que maioritariamente não consome álcool, muito menos em publico, por isso não têm sequer licença para vender. Obviamente também não encontram à venda nas mercearias de Oukaimeden.
Se bem me lembro uma lata de cerveja no albergue custava 3€, acho.

 Oukaimeden e o CAF      


Oukaimeden é uma aldeia de montanha a 2700m de altitude. Na realidade não se trata de uma verdadeira aldeia ou vila. Apenas um conjunto de vivendas e 2 ou 3 hotéis à beira da estrada. Tal facto resulta do planalto e da encosta enorme onde estão os meios mecânicos e as pistas que no inverno fazem as delícias dos marroquinos amantes dos desportos de inverno. Para além de quase deserta nesta altura do ano, em que não há neve, ficam a descoberto muitas das fragilidades que a neve esconde na época alta.


Por isso o local não tem a vida própria de uma aldeia com os seus habitantes. Apenas existe um conjunto altamente básico e precário de infra-estruturas de apoio ao turista, que nesta altura do ano quase que não existe por ali. Alguns restaurantes “típicos” de Marrocos e 2 ou 3 lojas/mercearia/drogaria onde poderão encontrar alguns produtos básicos apenas. De facto Oukaimeden fica apenas a 1h30 de Marrakech pelo que é perfeitamente possível aos locais desfrutarem dos desportos de inverno saindo de manhã cedo e regressando ao final do dia. Daí o reduzido desenvolvimento das infra-estruturas locais.

O CAF é o albergue onde ficaremos. CAF é a abreviatura de Clube Alpino Francês e de facto o albergue é uma sucursal Marroquina desse clube. Ambiente e condições típicas de abrigos de montanha. Camaratas de vários tamanhos com beliches.

Preparem-se para o ambiente de partilha durante aqueles dias. Iremos seguramente partilhar uma ou mais camaratas com outros companheiros ou apenas entre nós. Felizmente seremos uma grande família com um único objetivo comum pelo que tudo irá decorrer da melhor forma. Saco cama e almofada são fundamentais. Tampões para os ouvidos são aconselhados para os sonos mais sensíveis.
Como o número de lugares no CAF é limitado quem já não conseguir lugar ou simplesmente não quiser pagar o adicional de dormir lá dentro, terá acesso a todas as infra-estruturas no CAF (bar e WC) mas terá de dormir cá fora num acampamento de tendas montado pela organização. Uma experiência ainda mais radical. Prever saco cama bem quente e roupa extra para as frias noites da montanha. Nesta opção tem-se a vantagem da privacidade que no CAF não é possível, pelo menos a privacidade visual já que a privacidade sonora também não é possível. No CAF existem alguns quartos mas estão reservados para a organização e respetivos convidados.

(continua...)

TransGranCanaria 2014 - Como atravessar uma ilha em 133Km - parte 2

Para ler a parte 1 sigam este link

A subida começa na partida e só irá abrandar dentro de 2 horas. Era essa a minha estimativa para subir os mais de 1200 metros de desnível que nos separavam do 1º pico. Sem pressa sigo à conversa com o Simões. Ele já tinha dito que queria ir devagar. Em breve se começa a queixar que eu ia muito rápido embora não fosse sequer a forçar e caminhasse em muitos sítios onde podia chegar um pouco à frente com uma corridinha. Ainda fomos ali um pouco com a Ester mas tinha combinado ir com ele e sinceramente gosto de ir com companhia à conversa em vez de ir a fuçar num ritmo alto. Para me dar o quê? 1 hora a menos na meta? Bahhh! 
A Ester segue e nós vamos ficando num ritmo mais suave. O vento por vezes forte não era suficientemente frio para me obrigar a vestir o casaco. A minha camisola de compressão de mangas compridas mais a t-shirt estava a revelar-se uma excelente opção. Conforme as cristas e as encostas que íamos fazendo assim estávamos mais ou menos expostos ao vento. Mas era temporário e o corpo aquecia rapidamente de novo nem que fosse preciso forçar um pouco mais a corrida na subida. O Simões apercebe-se que estou com um bom ritmo a subir enquanto ele é mais ágil nas descidas. Combinamos eu subir ao meu ritmo e ele apanhar-me nas descidas onde já estou bem melhor mas até devido à minha lesão no ombro estava um bocado elefante em loja de porcelana.

O primeiro pico, verifico agora que foi passado com 1h55. Até me arrepio com a minha previsão. Segue-se uma grande descida que tinha estimado demorar 1 hora. Não tinha descolado verdadeiramente do Simões na subida até porque nos juntámos novamente após o 1º abastecimento e na descida seguimos mais ou menos a par. Chegamos ao ponto mais baixo com precisamente 3 horas de prova. Tudo a bater certinho como um relógio suiço. 

Após o 2º abastecimento a subida instala-se novamente. Conforme combinado meto o meu ritmo normal mas empenhado a subir e perco o contacto com o Simões. Passamos por sítios seguramente perigosos mas a noite tudo esconde. Dou razão ao Simões. Não faz qualquer sentido esta prova começar às 0 horas. Naquela zona da ilha, aquela altitude junto ao mar a paisagem é deslumbrante. Vê-se Tenerife ali ao lado. Uma perda irreparável. 
O segundo cume é vencido um pouco antes das 5 da manhã. Segue-se uma sucessão de pequenas subidas e descidas em que era difícil avançar com alguma estimativa de tempos. Tudo iria depender muito do terreno. Lembro-me de estimar mais 3 horas até aos 42Km onde iria partir o pessoal dos 80 e onde poderia chegar à hora dessa partida que seria ás 8 da manhã. Mas ainda estou muito longe disso. Sigo calmamente mas empenhado. Aguardo que o Simões se cole a mim mas nunca mais aparece. Estamos perto das 6 da manhã. Começo a ansiar pela chegada do dia. Estou um pouco farto da noite. Apetece desligar o frontal e descansar um pouco a vista. Começamos a chegar a uma vila. Artenara. O abastecimento é numa espécie de mercado coberto. Um pouco pobre para o que ia à espera. Sandochas de queijo e fiambre, fruta, marmelada e bebidas. Bebo um caldo quente salgado. Bem gostava que o Simões aparecesse mas nada. Começo a arrefecer e não me posso demorar mais. Meto umas barras da overstims na mochila e arranco a correr cheio de frio. É a subir forte e agradeço pois ajuda-me a aquecer. Ao fim de 5 minutos já restabeleci a temperatura.
São agora 6h30 e amanhecer tá quieto. Nem vê-lo. Já estou chateado com o raio do dia que não chega. Entretanto uma ténue luz no céu deixa perceber porque não temos mais luz. O céu está totalmente coberto por espessas nuvens baixas. Nada passa. Já tínhamos andado dentro das nuvens mais atrás a lutar contra o nevoeiro, a reduzir a luz do frontal para reduzir o encadeamento. Com o nascer do dia começo também a chegar a uma parte da ilha bem mais húmida e arborizada. O piso passa a lamacento as pedras estão molhadas por vezes com musgo. Começo a temer um pouco com as Salomon Sense Mantra que achava muito escorregadias. Mas estava enganado. Quando bem usadas revelam-se tão escorregadias como quaisquer outras. Vou ganhando confiança sobretudo em descidas com muitas pedras bem escorregadias. Não é só ter bom material. Um bom kit de pés também é importante. 

Já perdi a esperança de reencontrar o Simões. O que lhe terá acontecido? Eu não estava a apertar muito sequer. Poupava-me pois era ainda muito cedo na prova. Seguia satisfeito por estar a fazer uma média na casa dos 10" por Km. Isto a manter-se daria algo na casa das 21h. Sabia que ia quebrar mais à frente, era inevitável. Mas cada Km a 10" aumentava a minha confiança. Os pés, os meus grandes inimigos nas longas distâncias estavam razoavelmente bem, mas era muito cedo para celebrar fosse o que fosse. Aproximamo-nos novamente de uma vila, começo a ver pessoal equipado a ensaiar uns trotes, malta a estacionar, rapidamente percebo que estamos a chegar à partida dos 80 Km. Abastecimento com a partida à vista.
Passava pouco das 7h30. Fico contente por ir passar aqui antes deles partirem. Arranco satisfeito da vida e mando umas bocas à Simões sabendo que ninguém percebe o que estou a dizer: opá se vocês soubessem onde se estão a meter ficavam mas era na cama... e outras parvoíces do género. Sigo a correr e passo mais uns quantos da minha prova. Aqui já vou encontrando alguns tipos a zombificarem. Por volta das 8h passo um que me diz que daqui a 10 minutos os tipos da frente estão a passar por nós. Digo-lhe que não e arranco a correr. E não estavam mesmo. 
Iam precisar de mais de meia hora para começarem a passar por mim. Primeiro um grupo de cavalos, passo certo, todos em equipa, frescos que nem alfaces a galgar a subida. Eu a andar claro. Não é que fossem sequer da minha categoria, uma série de putos prós, mas também já tenho 50Km com 8h30 de prova nas pernas. Mas quando a subida apertou a sério, todo o cobarde faz força e todo o valente se... amocha aí bicho. Meteram a passo e mai nada. E ri-me para dentro. Claro que o passo deles a subir nem eu a correr fazia :)

E enquanto mamava aquela subida com as bengalas a ajudar foram passando por mim os atletas a sério. Chamava-lhes campeones, como outros me chamavam a mim. Muitos agradeciam, outros nem conseguiam respirar quanto mais responder-me.

Tinha agora já mais de 1/3 da prova feito. Ainda não percebia bem como ia conseguir chegar aos 83Km, sensivelmente 2/3 e mesmo aí faltava outro tanto até à meta. Mas era muito cedo para preocupações. O dia estava a começar a clarear a sério mas totalmente nublado. Uma bênção pois estava uma temperatura agradável para correr.

Seguíamos agora ladeando hortas, pequenos aglomerados de casas, escadarias toscas de pedra, muito escorregadias, paisagem quase tropical com imensa humidade. Este lado da ilha nada tem a ver com o Sul árido e seco. Depois de vencermos o cume a seguir ao abastecimento e partida da prova dos 80Km seguia-se uma franca descida, algo perigosa pelo nível de humidade em tudo, pedras, folhas de piteiras esmagadas, sempre a descer até Teror.

Nessa zona ainda consegui trocar umas palavras com uma francesa. íamos mais ou menos no mesmo ritmo, ora passa ela ora passo eu e já farto de ir calado há muitas horas lá fomos conversando um pouco. Com os espanhóis é escusado. Ou sabes aquela musiquinha com que eles cantam o espanhol ou então és ignorado. Não estão para se esforçar mesmo que vejam alguém a tentar falar a sua língua. A maior parte não te responde e finge que nem te percebe.
Depois de Teror regressa a forte inclinação com uma escadaria urbana monte acima, interminável, que depois dá lugar a trilho mas sempre a subir. Bofes de fora, aguenta que é serviço. Ao vira de uma curva um tipo sentado a passar um mau bocado. Era o Luis Trindade, e a minha prova estava a pontos de mudar. Ficámos ali um pouco à conversa. Não sabia bem o que se estava a passar. Estava exausto e sentia-se sem forças. Após alguns minutos retomámos o percurso mas ele estava muito afetado. Fosse do que fosse não estava a conseguir entrar no ritmo. Disse-lhe logo que esquecesse a cena de desistir. Não viemos até aquela ilha para desistir. Combinámos ir até ao abastecimento seguinte onde ele depois de descansar um pouco reavaliaria o que queria fazer porque lhe estava a ser penoso prosseguir naquelas condições. Faltariam talvez 3 ou 4Km para o abastecimento a meio da subida. Não foi fácil chegarmos ao abastecimento mas lá acabámos por conseguir. Não havia grandes recursos ou apoios por ali. Um abastecimento relativamente simples. Ele descansou um pouco. O sol começava  a aparecer por entre as nuvens. O dia ficou mais bonito e mais quente e o Trindade decidiu que o melhor era tentarmos chegar ao abastecimento dos 83, mais 20Km. Sentia-se um pouco mais forte. Ainda havíamos de subir a bom subir até às antenas, antes de atacar a grande descida até Tejeda a "apenas" 11Km de subida até Garañon, muda de roupa e hipótese para renascer das cinzas.

E assim fizemos. Depois da grande descida e do reabastecimento de Tejeda onde a vila estava em festa e havia imensa animação e cantoria atacámos a subida para Garañon. Estávamos a caminho das 13h e as dificuldades para o Luis iriam voltar na grande subida. A juntar à dureza da subida, o calor. 

Em plena subida o sol fustigava o corpo. Eu dissertava acerca da gaiola gigante no cima da montanha ser a casa de um mega canário que tomava conta da ilha. O Trindade dizia que eu era marado e que via cenas esquisitas. Na realidade tratava-se de Roque Nublo e mal sabíamos que íamos lá picar o ponto.

Com dificuldade lá conseguimos vencer a subida e Garañon que parecia fugir de nós à medida que nos aproximávamos, lá foi tomado pelas 16h. Esta era a hora estimada para partir de Garañon e não para chegar. Mas as prioridades tinham sido alteradas. Por mais iverosímil  que me parecesse no princípio o objectivo seria agora chegarmos juntos ao final.


A gaiola do canário gigante vista de perto. Roque Nublo prós amigos.



Ponha aqui o seu pezinho. O tapete de controlo mais pequeno do mundo em Roque Nublo.
Fabulosa paisagem com Tenerife ali mesmo ao lado
No Garañon gastámos todo o tempo do mundo. O importante era rejuvenescer. O Trindade crava a organização para tomar um duche a contra várias dificuldades eles lá concedem a benesse. Estávamos num parque de campismo e balneários não faltavam. Grassava um pouco a confusão neste abastecimento e as coisas estavam um pouco entregues à boa vontade de toda a gente. Eu fui trocar de roupa e de ténis mas os pés estavam tão bem que cheguei a considerar manter os Sense Mantra até final. Imagine-se. Mas tomei a melhor decisão ao mudar para os Asics, mal sabia eu a pedra que ainda aí vinha. De resto não troquei mais nada. Estava completamente seco, para quê trocar para outra roupa seca? Alimentámo-nos bem, comi massa para além do razoável e seguimos a nossa vida. Esperava-nos, supostamente a parte mais fácil. E de facto era. Resumidamente uma curta mas grossa subida até ao observatório de Pico de las Nieves o ponto mais alto da prova e da ilha com 1938m, para derreter a pratada de massa. Depois uma interminável descida de 11km com declives por vezes muito acentuados e com calçada tosca de basalto feita em cristas de rocha montanha abaixo, um local com vistas deslumbrantes mas que não dava para apreciar devido ao perigo constante do terreno. Descíamos de pedra em pedra. Quando termina aquele massacre passamos para outro, um pouco menos acentuado mas na onda do anterior. Calçada tosca de pedras, irregular. Um novo massacre que nos fazia esquecer que íamos a descer.
O calhau acaba praticamente no abastecimento de Tunte, 94,5Km, 19.5h de prova. O problema é que aqui já o meu GPS marcava 100Km. As placas que de 5 em 5Km assinalavam a distância para a meta há muito que já não faziam sentido e baralhavam todas as contas dos abastecimentos e tempos. Em Tunte aproveitei para avisar a Dora do estado da prova dado que em Garañon não havia rede. Quase com 20h pus também o relógio a carregar, não que se tivesse queixado mas evitava parar mais à frente. A próxima dificuldade que nos esperava era a perigosa descida para Arteara que já nos tinham avisado. Uma descida muito ingreme em terra seca e pedra, altamente escorregadia. Desde que passámos o Pico de las Nieves que estávamos cada vez mais em paisagem árida e seca e esta descida para Arteara era um bom exemplo disso. Para além de todas as dificuldades acresciam as dores nos pés. o cansaço, a ideia que um salto mal calculado, uma pedra que cede, uma escorregadela a mais e era o fim da prova aos 115Km...nahhh.... calma com isso amigo. 
Depois de Arteara vieram talvez os 11Km mais penosos da prova. Em plena noite e já depois de fazermos as 2 subidas anunciadas no perfil. entramos num vale do qual não vislumbramos a saída e o que imaginámos ser um suave estradão a descer para a meta era afinal um trilho que subia e descia, subia e descia, numa sequência infindável e repetitiva. As sombras pregavam partidas ao cérebro que via o fim a cada curva no horizonte escuro

Quando por fim abandonamos aquele vale ingrato e escuro qual labirinto seco de calhaus estávamos na Machacadora, o ultimo abastecimento. Oficialmente no Km 120, realmente já com 127Km. O ânimo era escasso, faltávamos apenas descer até ao farol de Maspalomas, unica dificuldade o facto de irmos por dentro de um enorme canal de águas pluviais que desagua na praia, ainda assim grosseiramente revestido com grandes lajes de pedra e cimento, umas partes melhor do que outras.

Estávamos muito perto de acabar a aventura. As 24h para terminar já tinham sido uma miragem há muito esquecida embora as 24h para fazer 125km tenham sido uma realidade como documenta o GPS. Só se esqueceram foi de dizer que afinal eram 133Km

Um pouco antes do farol saímos do canal, contornamos o farol pela praia, um pouco de areia para celebrar. Aumento o ritmo e obrigo o Trindade que queria cortar a meta primeiro a um ultimo esforço. O Luis Canhão vem dar-me a bandeira de Portugal. A nossa comitiva faz grande festa à nossa chegada. 



Está concluída a travessia da Gran Canária. Pior ou melhor o objectivo foi atingido. De manhã vi jeitos da coisa não ter um desfecho tão positivo, pelo menos para o Luis Trindade. Mas felizmente com calma e perseverança e muita energia positiva lá chegámos ao final. Teria sido uma prova diferente se não o tivesse encontrado, se melhor ou pior pouco importa, mas foi seguramente muito mais bem passada, lá isso foi. Da próxima vez já sabes, se não queres levar comigo meia ultra já sabes que tens de dar à perna para não te apanhar, principalmente em estado walking dead montanha acima. 

Dali foi só meter-me num táxi com a família e rumar ao banho e refeição no apartamento. Uma noite de repouso e um dia na piscina haviam de ajudar a uma rápida recuperação do empeno que não deixou grandes marcas, nem exterior nem interiormente.

Creio que toda a gente gostou desta viagem. Quem foi pelo sol e banhocas teve as duas coisas. Quem foi para correr também teve a sua conta. Na TransGranCanaria o Turtles fez uma boa prova com 20h51 e a Ester nas 23h03. Eu e o Trindade nas 25h e 15m que acabou por ser um resultado simpático tendo em conta todas as contrariedades que tivemos de ultrapassar, ficámos a meio da tabela, ainda assim. Quem diria.
Na distância Maratona a Paula Penedo a fazer um excelente tempo com 5h27, o Luis Canhão com 7h27 e o Manuel António com 8h53. Todos uns campeones!

Recomendo esta epopeia a quem goste de testar os seus limites e se calhar ultrapassá-los. O piso é algo demolidor, algumas subidas dolorosas, não muitas ainda assim. Abastecimentos algo limitados mas ninguém passa fome ou irá notar a falta de alguma coisa. Aqui e ali poucas fitas, ainda tive de consultar o track no relógio um par de vezes. Esperava um pouco mais tendo em conta que era uma prova do circuito North Face mas ainda assim reconheço que fui eu que pus a fasquia demasiado alta. Os 7 Kms a mais é algo que não se compreende. Também ficam por explicar os 8500 D+ quando tinha na melhor das hipóteses 7500 D+. O almoço convívio no dia a seguir à prova recomenda-se e bem. Excelente comida e bebida à descrição. Meu deus, que festim, tirei a barriga de misérias por 8€!!!

O clima da ilha nesta altura do ano com alguma sorte é uma maravilha. Temperatura amena, e com sol é o nosso verão. É perfeitamente possível fazer praia com um dia de sol.

Ao mentor da aventura, Luis Trindade, obrigado pela aventura. Venha outra! Aos companheiros de viagem obrigado pelos bons dias de férias que passámos. Até à próxima!

TransGranCanaria 2014 - Como atravessar uma ilha em 133Km




A Gran Canaria é a 3ª maior ilha e a 2ª mais populosa de um arquipélago de 7 ilhas principais situado a Sul da Madeira, quase ao lado da fronteira de Marrocos com o Sahara Ocidental. A Gran Canaria tem mais de 800.000 habitantes e todo o arquipélago tem mais de 2 milhões de almas. Não são propriamente ilhéus.

Já conhecíamos Tenerife e Lanzarote de outros tempos, mas a Gran Canaria nunca tinha saído na rifa. Por isso não foi muito difícil embarcar nesta jornada lançada pelo Luis Trindade. Bora fazer a TransGranCanaria?
Com jeito a coisa encaixava nas férias do Carnaval das miúdas e fazia-se um mix trail, praia, sol e mini férias. Então vá!

A base da prova situa-se em Maspalomas no Sul da ilha e é lá que toda a logística se processa. As várias provas (5) terminam todas no farol de Maspalomas, partindo ao longo do percurso de 125Km a várias horas do dia de Sábado. A prova principal parte às 0h de Sábado e temos 30 horas para chegar ao farol.

Os resorts perto do farol não são aconselháveis a entroikados pelo que optámos por ficar no simpático koala garden a 3km do centro e a 4€ de taxi, ou a 15 minutos de uma corridinha. Eu o Luis e o resto das famílias chegámos na 5ª quase 6ª, já o Trindade, o Turtles a Paula, o Manuel António e a Ester tinham feito uma exploração inicial da base da prova e levantado alguns dos dorsais.
A 6ª feira foi de relax e aclimatação. Visita à Expo Meloneras para levantar os dorsais ainda em falta, conhecer um pouco de Meloneras, almoçar e começar a preparar a logística e a psique para a partida. Quem pôde aproveitou o magnífico sol da tarde para uns mergulhos e uns banhos de sol na piscina.



Estava um pouco preocupado com a prova. Por um lado sabia que estava bem fisicamente, estava bem melhor do que no UTAT ou mesmo na UTMB mas não tinha feito qualquer treino longo. Só isso preocupava-me imenso. Mesmo em excelente forma como iria reagir após os 60 Km. Como chegaria aos 82 Km (o local da muda de roupa)? Ultimamente as cãibras andavam a atacar-me... 
Além disso, 15 dias antes da prova uma queda estúpida em que quase desloquei um ombro e que estava longe de estar curada, como iria ter força no braço direito para os bastões... 24-26h de prova...se tudo corresse bem.
Por fim as 30h de tempo limite impõe algum respeito. Estudei várias vezes os tempos da UTMB. Demorei 26h a fazer 120km mais ou menos. Portanto a coisa devia dar. Mas como seria o grau técnico da coisa? O percurso seria muito rolante? Se houvesse muitas subidas ou descidas técnicas os tempos facilmente se alterariam. Outra coisa preocupante tinha surgido nos ultimos tempos. A organização anunciou que tinha estado a rever o desnível da prova e que afinal tinha 8500m positivos.... Bolas! Seria possível? 8500!!! Em 125Km.... Fazia-me um bocado confusão. Carregando o track que forneciam no Gpsies dava pouco mais de 7200m positivos. Bem mais credível face ao relevo da ilha. Que raio, aquilo tem para lá uns picos e tal mas não é propriamente o Monte Branco. Como podia ser? Ainda mais estranho era se começássemos a fazer umas contas simples. A prova dos 42Km (os ultimos 42Km do nosso percurso) tinha 1100D+. Portanto os primeiros 83Km teriam os restantes 7400D+...
Sinceramente, vão enganar outro. 83Km com 7400D+ não era possível a não ser que nos pusessem a subir e a descer a montanha mais alta vezes sem conta. Mas então para quê anunciarem isto? Tínhamos de ir ver como era. Contado ninguém acreditava.

Devido ao limite das 30h preocupei-me em estudar minimamente o percurso e os tempos para o fazer. Pelas minhas contas seriam cerca de 24 horas se tudo corresse bem. Já vou tendo alguma experiência em olhar para desníveis e saber quanto tempo demoro a fazer cumes e a voltar à base. Também sabia que teria de me manter sempre abaixo da média de 14"/Km para acabar abaixo das 30h. Idealmente iria tentar os 10"/km, o que com alguma quebra final me permitiria fazer 22-23h. Muito bom!

Em termos de logística era preciso prever o saco trocar de roupa, ténis, etc. aos 83Km. Também aqui mais uma preocupação à ultima da hora. Que sapatilhas levar no início? Os meus Asics Fuji Attack ameaçavam romper-se de lado, para variar. A escolha teria de ser entre levar os Asics de início, maior conforto para a parte mais longa da prova e trocar para os Salomon Sense Mantra para os 42Km finais. Uma receita já testada na UTMB. Mas tinha receio de os Asics se romperem neste percurso mais longo. Optei por levar os Salomon arriscando um pouco fazer uma distancia maior e garantir depois o conforto na parte final com os Asics. Sem grandes certezas e com alguma pena lá meti os Asics no saco e mentalizei-me para 83Km mais minimalistas.

Um factor estava a nosso favor. O bom tempo. O ano passado foi um massacre com 12h de chuva ininterrupta e muito frio com mais de metade de abandonos. Mas este ano a coisa estava com bom aspecto. Talvez bom aspecto de mais com aquele sol todo. Quem fizesse o sul da ilha de dia ia penar com o calor. Felizmente para mim o sul ia ser feito já ao final do dia. A parte norte da ilha é mais fria, húmida e cheia de vegetação, enquanto o sul é desértico e seco que nem um carapau.

Embora algum material obrigatório me parece desnecessário, nomeadamente o impermeável, optei por cumprir o regulamento no que a material obrigatório dizia respeito. Saco de água com 1,5 litros atrás em vez da versão UTMB em que levei 2 garrafas de meio litro nas bolsas frontais. Desta vez ia levar numa das bolsas frontais uma inovação. Uma dica do Zé Carlos que apanhei um dia por acaso num treino. Despejar os géis todos para uma garrafa e dar um golo na coisa sempre que necessário. Em provas curtas nem uso géis mas em coisas grandes é importante ter energia sempre à mão. Já pensaram na simplicidade de levar o gel todo pronto a consumir? Sem pacotes, sem lixo, sem pegajosidades. Assim foram 8 pacotes de gel e mais um pouco de água para liquefazer um pouco mais a mistela, tudo para uma garrafa de água. Misturei laranja com mojito mas o que importa, aquilo já sabe sei lá a quê. Criei um sabor novo. Não estava bom, nem estava mau... estava...  Mas não era pior que os originais :)



Com estes pensamentos todos a remoer lá fomos para o autocarro que nos iria levar para a longínqua aldeia de Agaete num dos pontos mais remotos do Norte da ilha. Quando já estávamos instalados no autocarro entra o José Simões que não fazíamos ideia que ia fazer a prova. Grande maluco! Já tinha feito a TGC há 2 anos e pelos vistos este ano apeteceu-lhe voltar. O percurso era ligeiramente diferente de há 2 anos mas grande parte era comum e enquanto esperávamos pela partida o Simões relativizou a coisa. Que era pacífico, que íamos fazer 24h nas calmas. Que ele tinha feito 20h mas tinha dado o litro e que hoje queria ir nas calmas. Combinámos logo ali ir juntos. Pouco me importava o tempo que iríamos fazer. Para mim é importante a companhia e ainda mais uma companhia com experiência que conhece o percurso. Reduzi uns furos de ansiedade. 

Mega equipa de Tugas prontos para a epopeia
Em Agaete o ambiente era brutal. Por dentro ninguem conseguia esconder a preocupação que ia na alma. Por fora estava um vento forte, felizmente não muito frio. De vez em quando choviam algumas gotas quase na horizontal devido ao vento. Uma novidade absoluta face ao tempo que estava no sul da ilha. Não estávamos à espera de chuva! Resistimos até à ultima para vestir o impermeável. Quando começasse a prova esperava-nos uma subida desde o nível do mar até aos 1250 metros. Ia ser penoso levar o impermeável vestido. Mas se continuasse a chover daquela maneira, com aquele vento frio...
O speaker não se calava um segundo. Um grupo de malta a tocar tambor dava ritmo às pernas. Chegam as vedetas da frente. Desata a chover com mais força. Vamos ficar ensopados ou vestimos? Faltam poucos minutos. Não visto o impermeável. Arrisco partir assim e ter de parar mais à frente se a chuva persistisse. Isto deve ser só um aguaceiro.

Falta 1 minuto. A marabunta chega à frente e abafa os craques. Se quando os chamaram um a um a curiosidade era geral agora já ninguém se importava com quem é quem. A angustia está prestes a desvanecer-se em esforço. São mais de 1200m de desnível para vencer de rajada, desde o nível do mar. A chuva parece querer abrandar, era mesmo um aguaceiro. 10, 9, 8…., 1, soa a buzina e abandonamos todos os receios. Agora é pernas para que vos quero




Aqui vou eu para 125Km de prova