A nutrição e o desporto de endurance - Final da experiência

E passou num flash. Foi em 22 de Fevereiro que me propus perder 4 Kg em 8 semanas e chegar aos 75 Kg. Lembram-se? Claro que não se lembram. Nem eu sabia já quando tinha sido. Por isso podem ver neste link como tudo começou. Foi há 4 quilos atrás...

Olhando para a baseline que fiz a 22 de fevereiro, 7 semanas depois os valores mudaram um pouco:

Altura 1,82m
Peso 79 Kg  -> 74.9 Kg
Massa óssea 10,9 Kg  -> 10.7 Kg
Massa gorda 16,5% - 14,5%
BMI 23,8 - 22,6%
Massa hídrica 58,2% -> 59,9%
Massa muscular 42,7% -> 43,6%

Os valores medidos pela balança valem o que valem. Até porque a maior parte deles são inferidos uns dos outros com base em cálculos simples. Mas o peso e a massa gorda são de facto medidos e são os mais importantes para mim. 
Ah! 4 Kg não é nada, dirão alguns. E com razão. Foi muito simples perder estes 4 Kg. Por isso posso dar por concluída a experiência ainda nem 7 semanas passaram. Quem leu e acompanhou sabe que não se tratou só de perder peso. Treinar e treinar bem, fizeram parte do processo. O que esta experiência validou foi o difícil equilíbrio entre comer o suficiente para ter energia para manter, senão mesmo aumentar, a carga de treinos, e ao mesmo tempo obrigar o corpo a perder peso totalmente desnecessário.

perda de massa gorda do ultimo mês
Pelo caminho aprendi imenso sobre os valores nutricionais do que como. Outro aspecto fundamental é que não excluí nada do que gosto e do que já comia habitualmente. Desenvolver uma percepção das quantidades é fundamental para termos sucesso a longo prazo. A ideia agora não é ganhar 10 Kg porque acabei alguma coisa ou cheguei a algum lado. Não tive de alterar grande coisa e o que alterei é para ficar para sempre. Esta é outra das chaves de sucesso para mudarmos definitivamente o nosso peso e não para andarmos a brincar às dietas parvas. A nossa dieta é aquilo que comemos. E isso é algo que durará enquanto vivermos e comermos. 

perda de peso no ultimo mês
Por isso dizer que "estás de dieta" é uma parvoíce. Esse conceito era do tempo em que vocês eram putos, tipo há 70 anos atrás. A dieta é a nossa alimentação. Pode ser saudável e apropriada ou um exagero e uma aberração, ou o mais normal, algo ali no meio sem qualquer controlo ou disciplina.

A série de artigos que escrevi permite-vos reproduzir o processo e usarem-no para o vosso caso. É simples e eficaz. Basta terem vontade e serem determinados. Os cálculos que precisam de fazer estão neste post.

Eu vou manter a minha meta calórica diária de 2300-2600 calorias, enquanto estiver com um volume de Kms semanais que o justifique. Isto fará com que continue a perder peso, cada vez de forma mais lenta, até que estabilize quando os tais 20% de défice diário se esfumarem em virtude da redução da minha necessidade diária de calorias.
Tenham uma alimentação saudável, racional e adaptada aos vossos objectivos e sintam a grande diferença que faz na vossa performance e sobretudo na vossa saúde.

Veja como correram as coisas na semana anterior neste link

A nutrição e o desporto de endurance - Semana de dicas

5ª semana

23/3


3 semanas e a 1,5Kg do objectivo. Não posso dizer que a coisa esteja a correr mal. Antes pelo contrário, mais parece um relógio suíço. Começo agora a chegar a valores que não me lembro de algum dia ter visto. 5 dias de férias fora da rotina, fora do país, acabaram por não fazer muitos estragos. Um olho na força de vontade e outro no conta quilómetros, é só o que é preciso.


Deixo-vos 2 referencias a produtos que vos podem auxiliar na vossa nutrição diária. Não vou perder tempo a falar-vos dos benefícios da aveia e de que ela deveria fazer parte da vossa alimentação diária. No meu caso é o principal ingrediente do meu pequeno almoço. Neste caso concreto esta aveia instantânea tem a particularidade de se dissolver facilmente em água, leite, iogurte, etc. ao contrário de uma aveia vulgar que podem comprar em qualquer supermercado. Desta forma poderá ser usada em qualquer situação e será um potente aditivo para qualquer refeição a meio do dia por exemplo.

A proteína whey é sobejamente reconhecida como uma poderosa fonte de proteína. A ideia aqui é poderem reforçar também qualquer snack com um pouco de proteína extra. Quando não está fácil atingir o valor objectivo de proteína diário esta é uma boa forma de lá chegarem. Já sabem que advogo o uso de suplementos apenas como complemento a uma alimentação completa e equilibrada. Por isso a proteína aqui deve ser vista como um extra, de preferência ocasional. Não sou grande especialista em proteína whey mas esta marca parece-me ser das melhores e tem uns sabores fantásticos. 

E pronto, aqui ficam 2 sugestões que já testei e que recomendo. 
3ª semana

7/3

A entrar na 3ª semana deixo-vos 2 notas.

Tenho tido imenso feedback no mundo real, da minha experiência. Percebo que é um tema que interessa a muita gente e isso nota-se bem quando as pessoas me encontram. No entanto também constato logo à partida porque é tão difícil haver uma efetiva alteração de hábitos e consequente atingimento de resultados. Há cada vez mais uma multiplicidade de temas, fontes, informações, etc. As redes sociais trazem-nos demasiados estímulos ao mesmo tempo. Clica-se num link, o tema é interessante. Mas depois, que chatice, tem letras, não vai dar agora, siga para o vídeo do gatinho fofo ou da gaja boa a cair, ou de mais um estudo que afirma que se não cortarem as unhas dos pés à noite a probabilidade de virem a ser ricos e famosos duplica; mais logo leio isto com calma. Guess what? Já não voltam a ler nada. Ficou perdido no limbo. Não me estou a excluir nem a censurar ninguém. Se constato este comportamento é porque também me acontece.

Mas o meu objetivo é apenas partilhar conhecimento e dar-vos a cana de pesca. Se depois os usam para melhorarem a vossa condição física, ou preferem antes fingir que pescar dá muito trabalho e continuam a tentar apanhar peixes com o braço dentro de água, fica ao vosso critério.

Outra nota que vos deixo é que esta experiência, se funcionar, não serve apenas para perder peso. Depois de fazerem as vossas contas basta definirem o vosso objetivo que pode ser perder, ganhar ou manter peso, com total controlo do processo.

“Se não medirmos como sabemos onde estamos e para onde vamos?”

Esta semana correu relativamente bem. Em termos nutricionais fiquei sempre abaixo do valor objetivo (2600 Kcal), ainda houve espaço para 1 ou 2 exageros e de resto nada faltou. Como e bebo de tudo, literalmente. Medir permite-me perceber e dosear. Lembrem-se que não estou a fazer nenhuma dieta de peixe cozido e feijão verde (isso ainda existe?). A ideia é encontrar um novo ponto de equilíbrio e ensinar o corpo a alimentar-se na proporção certa. Daí a minha alimentação atual ter de ser feita á base do que gosto e do que como habitualmente e não uma coisa que um dia vai acabar para voltar a poder alambazar-me.

Se não deixei de comer nada, não vivo na ansiedade de terminar algo que não comecei. Simples, certo?

Do lado do consumo foram quase 90 Km e 7500 calorias e mesmo com um fim de semana carregadinho de corrida não noto qualquer quebra anímica. A meta para esta semana eram os 78 Kg. O resultado obtido dá-me confiança para as próximas 6 semanas. Diria que as coisas estão a correr bem. A implacável balança não me deixa mentir e para além do peso gosto de ver a massa gorda a ser substituída por água e músculo.

Fiquem atentos ao blog. Vou fazer um update com referências a alimentos concretos.

Veja como correram as coisas na semana anterior neste link

A nutrição e o desporto de endurance - Uma experiência em curso

2ª semana

29/2

Proteína, Gordura e Hidratos de Carbono

A primeira semana correu bem. O descontrolo calórico de Sábado a ser bem compensado com as mais de 4000 calorias gastas no Domingo no Trail do Sicó. O resto da semana foi dentro do estipulado. A pesagem de 2ª feira foi simpática a dar 700 gr a menos. Sem duvida que ainda um pouco afetada pela prova de ontem. Há que dar alguns dias ao corpo para estabilizar e sobretudo ter um cuidado acrescido nestes próximos dias para não esbanjar o que consegui. É natural alguma recuperação de peso, sobretudo porque o que se perde mais facilmente é água. Ainda assim o registo de hoje mostra mais hidratação do que o inicial.

Ao invés de me preocupar demasiado em comer as percentagens certas de proteínas, gorduras e hidratos, tento manter uma alimentação racional e depois controlar na App o resultado ao final do dia. Creio que para poder correr e treinar em condições não convém consumir menos de 40% de Hidratos. As minhas 2300 calorias diárias têm o seguinte perfil objetivo:

50% de Hidratos de Carbono  (288g)
20% de Proteína (115g)
30% de Gorduras (77g)

Constato na App que esta semana que passou, sem que fizesse qualquer esforço para controlar o nível de cada nutriente a coisa dividiu-se em 44% de HC, 31% gorduras, 25% de Proteínas. Diria que resultou bem a distribuição semanal.

Notem que a análise destes valores não requer nenhum conhecimento especial. Apenas registar os alimentos que comemos e depois verificar nos gráficos como estamos a evoluir. Acho piada às pessoas que dizem que não têm tempo para isto e que não há paciência para o registo, etc. etc. Mas depois vão para o facebook fazer page down no feed tempo sem fim, cuscar tudo o que aconteceu, colocar likes em tudo e mais umas botas. Não censuro ninguém. Não fui para juiz. Cada um escolhe gastar o tempo da forma que mais lhe apraz. Não andem é pelos cantos a chorar que não conseguem perder peso, que engordam só de respirar etc. etc.

O primeiro passo para perder peso é controlarmos a nossa alimentação. E para isso é FUNDAMENTAL o registo. Como vos disse, ao fim de uns dias tudo é intuitivo e rápido e o que aprendemos sobre o nosso corpo vale cada minuto que dedicamos a esse trabalho.

1ª semana

26/2

A meta diária de calorias


Para determinar a minha meta diária de calorias usei o seguinte processo:

- Determinei o meu metabolismo basal, ou seja as calorias necessárias para estar vivo. O mínimo dos mínimos que precisava se estivesse o dia inteiro na cama a descansar. 

Para isso multipliquei o meu peso objetivo, os 75Kg, por 22. O que deu 1650 calorias.  Se tiverem muito peso para perder não façam a conta logo com o peso objectivo. Capaz de ficar muito agressivo. Usem um valor intermédio.

- Como não costumo passar os dias na cama vou ter de acrescentar um valor que reflete o meu nível de atividade diário. Isto sem contar com exercício físico, ou corridas. Apenas o que reflete o meu dia a dia habitual. 

Adicionem 50% se o vosso dia a dia for moderadamente ativo, 20 a 40% se for sedentário, 60 a 80% se for muito ativo. Não aldrabem! Se vão de carro para o emprego, passam o dia à secretária e voltam de carro para casa, não importa se correm 50Km por dia. Aqui neste passo o vosso dia a dia é sedentário. Se o vosso trabalho for físico (obras, carregar pesos, etc.) é que podem usar o ativo. Se estiver ali no meio, envolver andar bastante por exemplo, não passarem muito tempo sentados, etc. então são moderadamente activos. 

Embora passe o dia à secretária ando bastante a pé e creio que sou moderadamente ativo por isso acrescentei apenas 40%. Ou seja 1650 + 660 = 2310. Ok, 2300 calorias é o que preciso, em média, para manter o meu peso no meu dia a dia. Se não fizesse exercício físico. Meu deus, 2300 calorias… Não admira que quando olhamos em redor, a população em geral é um monte de anafados. 2300 calorias é tão poucochinho… estou quase a ficar deprimido… 

- Finalmente vem a parte boa de correr, nadar, bike, whatever. Somem ao valor diário, o valor médio das calorias que consomem na vossa atividade física. Mais uma vez não sejam aldrabões. São vocês que ficam prejudicados se definirem mal as vossas metas. Vou deixar-vos o meu caso para calibrarem o vosso.

6 meses de calorias
Usando o mês de Janeiro como referencia posso seguramente considerar uma média de 1000 calorias diárias.

Notem que 1000 calorias diárias são o resultado de mais de 100Km por semana entre correr, nadar, bike e etc. Não é fácil mas nestas alturas dá jeito.
Kms/mês

Claro que se baixar o nível de atividade há que adequar novamente a meta. Por isso é que o pessoal muitas vezes para de correr mas não para de comer. Mantem os hábitos, continua a comer como se corresse e lá vai o gajo todo inchado….!

Aqui tenho a vantagem de guardar alguns registos, coisa que se correm e usam algum GPS também devem fazer, melhor ou pior. Senão usem um valor proporcional com base no meu. Tipo se correm 50 por semana serão 500 calorias/dia, sejam conservadores, só têm a ganhar.

Portanto a minha meta diária, enquanto conseguir manter este nível de atividade física passou para 2300 + 1000 = 3300 calorias. Yupie! 3300 calorias já é um valor razoável e fácil de atingir mantendo algum controlo e cuidado claro. Por isso a malta que corre muito, rapidamente perde algum peso. 

- Para tornar tudo mais interessante lembram-se que o meu objetivo não era manter o peso atual, certo? O meu objetivo era perder 4 Kgs. Para isso há que criar o tal deficit diário. Portanto toca a subtrair 20% ou menos ao valor diário. 3300-20% = 2640. 2600 calorias vá.

Se tudo funcionar como esperado isto dará para perder cerca de meio kilo por semana. O que é razoável. Em 8 semanas deverei ter os 4Kgs aviados.  E o mais importante, mantendo o meu nível de exercício atual sem causar percalços ou deficiências nutricionais exageradas. Assim o espero. A ideia também é perceber os sinais que o corpo vai transmitindo e perceber se não me vou sentir mais cansado ou com menos energia, ou por outro lado se o peso não está a reduzir como esperado. Nesse caso é analisar, calibrar, e prosseguir.

Façam as vossas contas e definam o vosso target. 


(nota: eu uso o termo calorias, embora na realidade devesse usar o termo quilocalorias ou Kcal, mas dado que este texto é informal as calorias servem perfeitamente o propósito. Na realidade quando dizemos que um alimento tem 300 calorias deveríamos dizer 300 quilocalorias ou 300 Kcal. Fica a nota para o pessoal mais científico não me dar muito na cabeça)

Já fizeram a vossa continha? Quanto deu? 

24/2


O caminho


Depois de estabelecido o ponto de partida e de chegada, tal como referi no 1º artigo, o passo seguinte é definir a forma de percorrer o caminho.

Vamos estabelecer alguns pontos sobre perder peso:
- não se trata de passar fome;
- não conseguem perder peso só a correr que nem animais, mantendo tudo o resto.

Perder peso é simples, só é preciso saber o que há para fazer e ter vontade de o fazer. Claro que há coisas mais fáceis. Por exemplo deixar de fumar. Quando se quer mesmo deixar de fumar, é só deixar de fumar. Tá feito. Claro que o vosso corpo vai-se revoltar e vai tentar enganar-vos e vão ter de ser fortes etc. etc. Mas em termos práticos é apenas parar de fumar. Não tem ciência alguma.

Aqui não podem parar de comer. Vão morrer quando estiverem quase a conseguir perder algum peso e isso não dá muito jeito. É uma trabalheira enorme para quem cá fica a tratar das coisas.

Portanto e dado que vão ter de continuar a comer surge a primeira dificuldade. O quê e quanto? Como sei que estou a comer as quantidades certas das coisas corretas?

Não vou falar do que é bom ou mau. Se têm algum interesse neste tema sabem perfeitamente o que é bom e o que é mau. De um modo geral, tudo que tem bonecos é mau. Tudo o que diz light é lixo. Os produtos light são apenas uma forma de vos extorquir dinheiro explorando o vosso sentimento de culpa de comerem coisas muito melhores, mas em excesso. Tudo o que for processado, pré-cozinhado, etc. é esquecer. Também podem deitar fora os produtozinhos dietéticos, biológicos, os pozinhos milagrosos, os comprimidos que queimam gordura, as palermices detox, as dietas parvas e por aí fora. 

Claro que não vale a pena ser fundamentalista, não vamos conseguir fugir de todo este lixo. Muitas vezes não controlamos o que comemos, não temos alternativa. etc. O importante é manter o foco. A excepção valida a regra. 

Duas coisas a reter:
- devem definir o vosso plano nutricional em torno do que já comem e gostam. Claro que se só comem porcaria vai ser difícil, mas estão a ver a onda, O sucesso de perder peso, e MANTER um peso correto OBRIGA a mudar hábitos. PARA SEMPRE. Portanto uma dieta não é algo para fazer durante uns tempos e depois voltar aos velhos hábitos. Senão... Yo-Yo! Por isso não vale a pena ser radical. 
- só há UMA forma de perder peso. Ingerir menos calorias do que aquelas que que o vosso corpo necessita para funcionar. Tudo o resto são parvoíces, marketing, fraudes, o que quiserem chamar-lhe. Principalmente porque, como já disse, o fundamental é mudar de hábitos. PARA SEMPRE. Aqui é como deixar de fumar. Não vão deixar de fumar uns meses só para limpar o pulmão e depois volta a estupidez de novo. Certo?

Então vamos lá. Isto não é difícil, é científico e sim, dá trabalho. Quem vos manda não ser como aquele amigo ou amiga, que toda a gente tem e que come toda a porcaria em doses industriais e que é magro que nem uma Sara Sampaio anorética?

Tambores a rufar..... e cá vai: 1º definem quantas calorias precisam diariamente. Depois certificam-se que comem menos do que isso. Repetem o número de dias necessário até atingirem o peso pretendido. E pronto! Assim de repente, é isto. É simples ou não? O processo é. A dificuldade são duas ou três, na realidade. Definirem o vosso valor diário, controlarem diariamente se já o atingiram e, a mais dífícil de todas, motivação e repetição do processo.até atingirem o objectivo.

Interessados? Então vão pensando na vossa alimentação atual, o que é saudável, o que podem eliminar ou reduzir, Façam o seguinte exercício enquanto esperam por mais informação. Comecem desde já a medir e a registar. Quantas calorias tem o vosso pequeno almoço, o almoço e o jantar. Digo-vos já que vão ter que tomar nota de tudo. Inicialmente dá um pouco mais de trabalho mas rapidamente, como somos tipos rotineiros, começamos a saber de cor os valores, a ter uma boa noção das quantidades.

Podem usar qualquer coisa para tomar notas. Desde uma ardósia até uma App no telefone, um site na net, etc. Eu uso o myfitnesspal.com como já referi. Tem site, tem app e está integrado com o Connect da Garmin e com o Strava o que é fundamental para levar em conta o exercício que fazemos.



A nutrição e o desporto de endurance - Introdução à experiência



- Você toma algum suplemento de proteína? A pergunta veio da minha médica de medicina do trabalho. Uma jóia de médica. Embora as minhas análises sejam irrepreensíveis desta vez um dos parâmetros poderia indicar alguma insuficiência.
- Você corre muito e destrói muita massa muscular e é preciso repor. Considere um suplemento de proteica whey, se já tem uma alimentação equilibrada.

Sou um amador que gosta de acompanhar estas questões da nutrição e tento ter uma dieta racional durante 80% do tempo... vá 60%.

Aquela referencia à proteína deixou-me a pensar e obrigou-me a olhar um pouco melhor para o que deve ser uma alimentação equilibrada. Quantas gramas de proteína se devem comer por dia? Que quantidades tem cada alimento? E quando corremos 50 ou 100Km por semana? E quando treinamos 6 vezes por semana? 

Por outro lado sou um endomorfo o que faz com que facilmente ganhe peso e tenha dificuldade em perdê-lo. Por isso estou continuamente a procurar perder uns kilos. Se ter uma nutrição equilibrada com grandes cargas de treinos e portar-me mal ocasionalmente já exige algum cuidado, preciso de ajuda para juntar a perda de peso a esta mistura mantendo tudo o resto, nomeadamente a grande carga de treinos e o bom desempenho em provas.

Assim surgiu a ideia de pedir ajuda à minha filha que está a fazer o curso de dietista/nutricionista. Embora não tenha ainda muitos conhecimentos específicos de nutrição desportiva, em conjunto e analisando a evolução semanal, propus-lhe esta experiência da qual sou cobaia. Ela concebeu um plano alimentar que será avaliado e adaptado de acordo com a evolução dos resultados.

Objectivo; chegar ao 75 Kgs em 6-8 semanas, mantendo uma elevada carga de treinos e participação em provas. Ou seja perder cerca de 4 Kgs. Nunca que me lembre tive 75Kgs, Tenho 1,82 m.

Baseline de parâmetros estabelecida hoje dia 22/2 

Altura 1,82m
Peso 79 Kg
Massa óssea 10,9 Kg
Massa gorda 16,5%
BMI 23,8
Massa hídrica 58,2%
Massa muscular 42,7%

O primeiro passo para qualquer experiência são os registos, por isso é fundamental ser disciplinado na recolha de valores que possibilitem analisar o decorrer da experiência:

- Avaliação semanal de valores de peso, massa gorda, etc.. 
- Avaliação diária do nível de treino com medição das pulsações em repouso.
- Registo e avaliação diária nutricional com recurso ao myfitnesspal,com que integra os consumos calóricos dos treinos com o consumo diário de alimentos, Já tinha falado desta app neste artigo

Esta é a proposta. Já tenho o meu plano alimentar desenhado. Agora é iniciar a experiência e ir registando os resultados. 

Um bom plano alimentar deve ser definido em torno dos nossos hábitos mais saudáveis. No meu caso, pelo menos, não será necessário fazer alterações radicais que depois dificilmente serão seguidas e respeitadas. Como até nem me porto muito mal será apenas uma questão de introduzir alguns snacks, calibrar aqui ou ali, estar atento aos desvios e evitar os exageros ocasionais. Acima de tudo registar e manter um diário ajuda a perceber se nos estamos a enganar a nós próprios ou se algo está mal definido e necessita de ajuste.

Vamos a isto!

Injinji - Correr de luvas...nos pés!


As meias com dedos já existem há muitos anos, mas foi por volta do ano 2000 que 2 irmãos numa longa caminhada em montanha ficaram sem meias limpas e com uma prova de trail running no dia seguinte, Joaquin sugeriu a Randuz que corresse com umas meias de dedos arco-iris. Não sei se terão sido umas deste género, mas como em muito boas ideias esta nasceu de uma necessidade. Segundo consta, a prova deve ter corrido mesmo bem porque a partir dessa noite seria o início do que viria a ser a Injinji.
Podem ler este artigo muito interessante que conta a história do nascimento da ideia e da empresa. Sigam este link

16 anos passaram e a Injinji alguma coisa deve estar a fazer bem porque passado aquele momento "Woowww!!! Qué qué isso?" em que temos alguma dificuldade explicar aos amigos porque estamos a tentar calçar uma luva, o que é que fica? Vale a pena ter os amendoins agasalhadinhos assim um a um? Qual a vantagem? Vamos lá então falar de meias.

Já há muito tempo que lia sobre as Injinji mas nunca me deu para mandar vir umas de fora. Do que lia quem usava já não queria outra coisa e jurava a pés juntos pelo conforto da coisa. Eu sou o tipo indicado para vos falar de meias porque tenho pés de cinderela e invejo aqueles gajos que até podem fazer 100 milhas com meias de serapilheira que nada lhes acontece. É um facto que com os anos os meus pés lá tiveram de se adaptar um pouco, não tinham outro remédio. Mas ainda assim quando têm de passar 10, 20 ou 40 horas em cima das pernas, a correr, escalar, escorregar, torcer, tudo sabe melhor se os pés tiverem o máximo conforto possível.

Há 3 factores fundamentais a ter em conta que nos podem causar problemas nos pés; calor, fricção e humidade. São estes factores que os fabricantes tentam atenuar com o conjunto de fibras que usam nos seus produtos. Se costumam ler as etiquetas das meias à procura das percentagens de cada fibra que são usadas no produto,, então sabem do que estou a falar. 

De facto há outras questões ainda. As palmilhas, a relação palmilha tecido e por fim o vosso próprio pé e a capacidade que tem para suportar os factores acima referidos. Por isso e por mais publicidade marketing e factos, esta é mais uma daquelas questões em que terão de ser vocês a avaliar o que melhor funciona para o vosso caso.

A fibra Coolmax é uma das minhas preferidas e faz parte da malha das Injinji. Em maior ou menor percentagem ela vai garantir pés mais secos facilitando a eliminação da humidade de forma mais rápida, bem como uma maior circulação de ar. 

Quando o Jorge Esteves me perguntou se queria testar as Injinji tinha já uma elevada expectativa e nestas primeiras corridas que tenho feito não fiquei desiludido, Muito pelo contrário. Passado o tal momento Wow e também a fase em que sentimos um pouco o tecido extra em redor dos dedos (afinal são anos e anos com os dedos colados uns aos outros) o que fica é um enorme conforto, Experimentei as versões 2.0,
RUN Original Weight Thin Cushioning (28% Coolmax 67% Nylon 5% Lycra)
e as TRAIL Midweight Padded Cushioning (39% Coolmax 58% Nylon 3% Lycra).

De elevada qualidade de fabrico, a princípio estranha-se um pouco a liberdade dos dedos mas depois parece que simplesmente não temos meias calçadas. Citando o Fernando acerca da Coca Cola.... depois entranha-se!
A versão Trail um pouco mais espessa e com um pouco mais de suporte, a versão Run mais leve e destinada a distâncias mais curtas mas pode ser uma questão de preferência pessoal. Uma coisa é certa, aquele pessoal que costuma fazer bolhas nos dedos dos pés poderá ter aqui um forte aliado. O espaçamento entre os dedos irá garantir uma redução da fricção e dedos mais secos, reduzindo assim os factores que contribuem para a formação de bolhas.

Falta-me ainda comprovar 2 aspectos fundamentais. O comportamento em trails longos e ultra trails e também a durabilidade e a resistência à lavagem e às provas verdadeiramente demolidoras. De qualquer forma e como o que já constatei vai ao encontro do que tenho lido, de certeza que encontrei finalmente umas meias de confiança e à altura dos grandes desafios. Para já só posso dizer-vos que são altamente recomendadas. Tou fã!!!

A boa notícia é que não precisam de as mandar vir de fora. Basta passarem na Loja Trail Run e encomendarem com toda a facilidade. Experimentem e verão se não tenho razão.

Suplemento ou não suplemento, eis a questão

Até que ponto os suplementos são necessários? Como sabemos que não estamos, por um lado a deitar dinheiro fora, e por outro a fazer mais mal do que bem, com possíveis efeitos secundários? A resposta é simples e directa. Não sabemos. 

Há simplesmente demasiadas variáveis em jogo para, em situações normais, podermos ter uma certeza. Desde a dieta que cada um segue, passando pelas marcas dos suplementos, pelo vosso metabolismo, e uma série de outros aspectos, antes de acabar na intensidade com que praticam desporto. Claro que haverá casos de nítidas insuficiências em que a suplementação é não só obrigatória como deverá ser prescrita e seguida por um profissional de saúde. Não é disso que vos vou falar obviamente, não sou desse ramo.

A minha opinião é que uma alimentação equilibrada e diversificada vos deveria dar, teoricamente numa situação normal, todos os nutrientes que necessitam para ter uma vida feliz e saudável.

O único busílis aqui é que andar a fazer provas de 100Km ou correr 200Km numa semana não são situações normais. Portanto e deixando de lado a normalidade fica a questão. Suplemento ou não suplemento?

Acho que a única resposta possível são vocês que a têm de dar, depois de perguntarem ao vosso corpo. Há um conjunto de suplementos bastante acessíveis, conhecidos e com algumas evidencias cientificamente claramente aceites. É preciso algum cuidado hoje em dia com o que é científico e com o que é pura publicidade encapotada. Não é de todo fácil distinguir as duas, porque os gajos que gostam de encapotar as coisas, obviamente encapotam bem. Se a própria comunidade científica, por vezes se divide nas suas opiniões, quanto mais nós, meros leigos facilmente manipuláveis. 

Assim o que vos proponho com este artigo não é recomendar-vos suplementos mas apenas enumerar alguns dos suplementos que uso e porquê. Alguns ainda estão em teste, outros uso durante uma temporada e depois faço uma pausa. Isto permite avaliar a resposta do corpo e perceber se de facto se notam os supostos efeitos benéficos, e se reduzem os supostos efeitos secundários. No fundo um processo de validar a sua utilização.

Antes de mais os suplementos não são jarda, nem bombas que se usam para ir a provas ou para treinar para provas. Os suplementos servem precisamente para suplementar a normal nutrição e ajudar o nosso corpo a melhorar e optimizar a sua resposta ao esforço durante os períodos de treino mais exigentes, por ex.

Há uns dias ao ler algo sobre o Francisco Lázaro (se não sabem que é deviam ficar a saber clicando no nome) e sobre a sua morte trágica, fiquei a saber que no início do século XX entre os atletas e os ciclistas, era comum usarem uma mistura a que chamava emborcação. Essa mistura era constituída por 4 claras de ovos, 1 gema de ovo, 450ml de água, 700ml de essência de terebentina e 700g de ácido acético. Além disso, Lázaro costumava também tomar estricnina. Meeeeedo!!! Nâo é disto que vos vou falar OK?

No final de cada suplemento deixo alguns links para páginas da Mayo Clinic onde podem saber mais sobre evidencias, dosagens, efeitos e interacções de cada substancia. Dos milhares de sites possíveis este é apenas mais um, credível, que creio que resume bem o que se sabe de cada tipo de suplementação. De um modo geral usem esta página para referencia relativamente a opiniões clínicas de vários suplementos http://www.mayoclinic.org/drugs-supplements


Vitamina D

Um clássico. Há vários anos que tomo Vitamina D em elevada concentração. Já neste blog expliquei as razões. Vejam este artigo se querem saber tudo sobre esta vitamina e a razão porque deve fazer parte, não só da vossa alimentação mas também, a partir de determinada idade, haver suplementação. Não é possível obter as quantidade necessárias só através da alimentação. Há vários estudos científicos já disponíveis (existem vários links para estudos sérios através do outro artigo). Nâo há um consenso na comunidade científica sobre os reais benefícios mas parece haver cada vez mais defensores e evidências da importância desta suplementação. Como é muito barata e não noto qualquer efeito secundário, havendo potenciais benefícios e sentidos efeitos no dia a dia, há vários anos que tomo diariamente. Faço uma pausa no verão quando o sol ajuda o corpo a sintetizar esta vitamina de forma natural. Mesmo com o sol a idade reduz a capacidade de síntese.do corpo. Durante o inverno a suplementação com vitamina D faz-nos sentir como se tomássemos um pouco de sol pela manhã. Experimentem se querem perceber o que estou a dizer, mas também pelos potenciais benefícios. E olhem que são inúmeros. Não é fácil encontra-la em elevadas concentrações a um preço acessível por cá. Ultimamente passei de 5000 IU para 2500 IU, dado que também estou a tomar Omega 3 refinado a partir de óleo de peixe.
Evidencias científicas
 Glucosamina e Condroitina

Faço algumas temporadas de glucosamina/condroitina seguida de algum descanso. Também com estas substância existem alguns estudos que comprovam a sua possível eficácia na prevenção da osteoartrite, principalmente do joelho. Nos estados unidos não estão classificadas como medicamentos e são vendidas como suplementos alimentar. Na europa estão classificadas como medicamento e podem-se comprar também na farmácia. Existem inúmeras pessoas de idade com problemas de articulações que tomam regularmente e que sentem um grande alívio com esta suplementação. Também nas rações de cães e gatos seniores, os efeitos benéficos são nitidamente visíveis pelos donos. A questão é se ajudará na prevenção da osteoartrite do joelho. A osteoartrite é um processo inflamatório das articulações. No meu caso as articulações dos joelhos nunca foram grande coisa, muito antes de começar a correr. Por isso e porque não sinto grandes efeitos secundários, a minha opinião subjectiva é que as temporadas que faço me parecem ajudar a reforçar as articulações e mesmo a ultrapassar pequenas mazelas. Há várias opções no mercado, algumas ‘monocasta’ outras ‘blended’ com as duas substâncias. Aqui o problema é que os estudos que existem não são efectuados num grupo alvo de atletas que correm regularmente longas distâncias. Não há uma proporção ideal das duas substâncias ou mesmo valores diários estabelecidos. Terão de fazer a vossa pesquisa, experimentarem várias opções. O que funcionar para uns pode não funcionar para outros. De qualquer forma tenham atenção aos efeitos secundários nos primeiros tempos e não esperem milagres rápidos. São substâncias que levam alguns meses a actuar.
Evidencias científicas da Glucosamina
Evidencias científicas da Condroitina
Omega 3

Idealmente devíamos obter todo o Omega 3 que precisamos a partir do peixe. Certo!. E comemos assim tanto peixe rico em Omega 3 ? Salmão, cavalas, sardinhas. Talvez durante alguns meses do ano. Mas a dose recomendada que vemos inúmeras vezes referida é para um adulto ‘normal’. Quantos Kms por semana corre um adulto ‘normal’? Zero? Lá está. Quanto mais treinamos menos ‘normais’ somos, pelo menos em termos de doses necessárias. Se calhar devíamos comer o dobro do peixe. O dobro de algo que já não fazemos regularmente. É pouco.
E assim surge o Omega 3 como suplemento. Um ácido gordo fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo mas também como ajuda na recuperação pós esforço e no controlo da inflamação. Introduzi à pouco tempo este suplemento e tenho feito alguma pesquisa para além de ir formando uma opinião pessoal. Poderá ter alguns efeitos secundários e interacção com outras substâncias pelo que é importante não exceder as doses indicadas. Quando se olha para a lista de potenciais benefícios desta suplementação só é comparável com a lista de efeitos secundários pprovenientes do exagero das doses. De qualquer forma o meu conselho aqui é mais vale pouco do que nada, porque seguramente ingerimos Omega 3 de qualidade abaixo das doses necessárias.
Evidencias científicas 
Análises

Não se esqueçam de fazer análises regularmente para controlarem como está o vosso motor. Nem tudo aparece nas análises, obviamente, mas algum valor fora dos parâmetros pode dar indicação que algo está mal e precisa de ser ajustado. Eu já há uns anos que estou a ir à inspecção anualmente e ainda bem que o patrão assim o exige. É uma oportunidade para confirmar que nada de estranho está a acontecer, porque muitas vezes os desequilíbrios demoraram o seu tempo e podem ser perfeitamente corrigidos e controlado se detectados atempadamente. Nem sempre estamos dispostos a ouvir o que o nosso corpo nos tenta transmitir. Fazer análises e controlar os parâmetros base é meio caminho andado para garantirmos que estamos de facto bem de saúde.

50 anos - 50 Kms

Como é ter 50 anos?

Na realidade não faço ideia o que significa ter 50 anos.

Quando somos putos sonhamos em ser adultos, poder tirar a carta, votar, ir onde quisermos sem precisar de autorização de ninguém, ser um cidadão na posse de todos os direitos. Depois quando já temos isso estamos ali um bocado em estado de graça. Vem a faculdade, somos os maiores, depois começa-se a ganhar algum dinheiro e as miúdas (e os miúdos para quem preferir), estamos no auge, o mundo foi feito para desfrutarmos e ainda nos sobra tempo para, nas horas vagas, fazermos planos para o melhorar e salvar. Na realidade alguns mais ligados à política não passam desta fase, pelo menos da boca para fora.

O primeiro pânico vem quando nos aproximamos perigosamente dos 30. Epá! Vamos deixar de ter 20 e tal? O mundo está perdido. E afinal não o vamos conseguir salvar. Tem demasiadas injustiças a começar pelo facto de estarmos a ficar velhos. De repente temos 30 e a coisa complica-se. Na realidade connosco está tudo na mesma, mas sempre que referimos à malta mais nova que temos 30 anos... fica aquele silêncio. Quase que se ouve o outro gajo a pensar “ah ah ah estás tramado cota” e a nossa cabeça a contra argumentar “epa trinta é perfeitamente igual a vinte e tal…” Lembro-me bem de que quando era puto também imaginava que um velho de 30 anos estava condenado. Era uma idade de tio, vá. Com sobrinhos e primos. Uma cena de cota, claro.

E enquanto estamos entretidos nos trintas, casamos, nascem crianças, vão à escola. E continuamos exactamente iguais. A única diferença é que distraímo-nos com a vida e já temos de dizer que temos 40. 
- para os putos já podíamos ser avós. É uma idade que simplesmente não consegue ser processada. Como é que temos 40 anos e ainda não somos ricos, não nos reformámos e não andamos no nosso cabriolet com gajas com grandes decotes e cabelo ao vento? Somos uns falhados. Para além de estarmos acabados.
- para os gajos de vinte e tal simplesmente já morremos para a vida; ou estamos orientados e safamo-nos em casa, ou então é o degredo. 
- os gajos de trinta continuam a rir-se embora já tenham percebido o embuste que é esta cena da idade. Riem-se baixinho já com aquele riso nervoso de quem vem a seguir.

Para mim os quarentas significaram o início de uma nova etapa. Claro que só o vim a perceber muitos anos mais tarde. Segundo dizem, é normal acontecerem este tipo de coisas por esta altura. Para mim foi o que podem testemunhar com este blog cujo nome era quase premonitório, dado que ao princípio nada tinha de facto mudado. Mas para muitos é a tal cena do cabriolet… Cada qual tenta mudar de vida como pode.

Já com muita experiência acumulada desta cena das décadas, sabia perfeitamente que a cena dos 50 era uma grande treta. Outro dia no programa do Alvim sobre o livro do Salgueiro do qual falei neste blog, ligou uma fulana a dizer que quando fez 30 anos notou uma degradação brutal a nível físico. Como é possível? 
Está tudo na vossa cabeça e na maneira como encaram a vida. Não há uma idade para nada acontecer por magia. Se nada fizerem de diferente irão sentir o lento degradar do vosso corpo. Se tirarem o som da televisão quando estão no sofá a ver as novelas e as séries (que são apenas novelas faladas em amaricano, cheias de stunts e efeitos especiais mais caros) até conseguem ouvir o caruncho a roer-vos por dentro.

Na realidade não sei bem que idade tenho. Por acaso o meu 50º aniversário coincidiu com uma fase da vida em que fisicamente nunca estive tão bem. Há uma ou outra peça que já tem algum desgaste mas creio que é normal nesta altura. Mas nada disto é surpreendente. Apenas uma constatação do que venho dizendo ao longo destes anos. Quando percebi, criei este blog para passar a mensagem.  

Este blog não é uma fogueira de vaidades. É panfletário? É sim senhor. De facto apregoo a salvação de uma vida de problemas, através da corrida, e de um modo geral do exercício físico. Posso ser um caso mais extremo mas apenas isso. Nada que muitos de vocês não saibam já. Este caminho não tem um fim em si. Vai-se construindo à custa de muito esforço, muita dedicação. Tento fazê-lo com amigos, sobretudo com a família. Não é isento de riscos, que são o tempero da vida, mas é preciso equilíbrio.  Não quero destruir nada do que já tenho, antes construir mais, com ajuda. Não é fácil não nos deixarmos deslumbrar e enfaralhar a lista de prioridades. O objectivo não é o tal cabriolet, ou então será para alguns...


Dedico este singelo texto ao Eduardo Lourenço, autor do vídeo, e a todos os amigos que participaram nos 50 Kms que fizemos  no dia em que fiz 50 anos. Foi um dia inesquecível graças a todos vós amigos.

Eiiii!!! Vão correr? Posso ir com vocês?


Bairro da Boavista, 20 horas.

O novo local da São Silvestre Pirata de Monsanto fazia franzir o sobrolho a muito lisboeta. Fomos muito bem recebidos por todas as pessoas. O pavilhão gimnodesportivo é um luxo. Os funcionários simpáticos e prestáveis. Na verdade não podíamos ter escolhido melhor local para o nosso convívio. 

Ainda estávamos a tirar as coisas do carro e a preparar-nos para correr começo a ouvir alguém a gritar lá de cima de um prédio. "Eiiii! Eiiii!" Nâo sabia se era comigo mas lá olhei. Talvez num 4º ou 5º andar alguém à janela. "Vão correr?" Vamos disse eu. "Posso ir com vocês?" Claro, vamos embora. A pouca iluminação e a distancia impediram-me de perceber bem quem era o meu interlocutor. A janela fechou-se e quando olhei outra vez, um pouco surpreendido com o facto, a luz já estava apagada.

Fiquei a pensar naquilo. Daquelas coisas improváveis que não acontecem noutros lados, demasiado digamos, correctos, socialmente correctos?              

Contei a alguns amigos e depois o episódio desvaneceu-se no meio de tanta coisa que estava a acontecer. Não me voltei a lembrar do companheiro que de repente queria vir connosco.

Algures a meio do percurso seguia à frente com o Boleto e oiço alguém dizer "Mas é que eu tenho 60 anos" O Boleto responde que isso não era nada, ele tinha 38... e olho para o senhor de 60 anos. Embora hajam algumas pessoas de 60 anos que pudessem estar ali connosco, seguíamos num ritmo calmo mas seguro, dificilmente estariam ali na frente do pelotão. Um senhor com o tradicional equipamento de estrada (calção curto e camisola de alças) sobressaía nitidamente do dress code do resto do pessoal (overdressed trail stuff). Será que era ele, o senhor que queria vir connosco? Quase sem arriscar pergunto-lhe se era ele que tinha perguntado se íamos correr e se podia vir connosco. E era, claro. Era o Sr. Artur.

Fantástico. O senhor Artur vive sozinho num 5º andar do bairro da Boavista e estava a fazer o jantar. Apercebeu-se daquela movimentação e não resistiu a fazer-nos companhia. O senhor Artur foi para mim a figura da noite. Representa o que de melhor tem o espírito da corrida. O senhor Artur não quis saber quantos Kms íamos fazer, nem o que íamos fazer. O senhor Artur só precisava de saber se podia vir connosco. 

Claro que o senhor Artur fez a voltinha dos 17 Km como se nada fosse. Mora à beira do Monsanto que é o seu jardim de treinos. Logo ali o convidei para vir jantar connosco a seguir, que deixasse o jantar dele e a solidão para o almoço do dia seguinte. 

No final mal tivemos tempo de nos despedirmos dele. Disse-lhe para ir a casa mudar de roupa e aparecer no pavilhão para jantar e conviver connosco. Mas o senhor Artur não apareceu. Quem sabe se para o ano podemos saber um pouco mais das histórias que tem para contar. 

Sim, porque alguém com o espírito dele tem seguramente coisas para nos ensinar. Obrigado por ter vindo senhor Artur. Bom Natal!

Discovery Underground - Os 10 Kms mais improváveis do mundo


Menos de 24 horas depois desta aventura aqui fica o relato possível de uma experiência única.

Confesso que quando apareceu este desafio na comunicação social visitei a página de candidatura e ao perceber que era necessário um texto que demonstrasse a superação e o motivo pelo qual achava que devia ser escolhido para estar presente, simplesmente passei ao lado. Não me apetecia estar ali a desbobinar textos, pensar em razões e justificações.

Foi nos últimos dias do prazo que me voltei a lembrar deste desafio e que até já tinha o texto escrito. Há muito tempo escrevi um pequeno resumo do que foi o meu percurso na corrida. Um pequeno texto que facilita a vida a quem quer ler algo do que tenho escrito ao longo dos anos no meu blog. Não é fácil dar com as maiores aventuras que tenho vivido na corrida, no meu blog. Por isso escrevi esta página que não é mais do que um índice para as aventuras mais significativas, pelo menos para mim. Pode ter passado desapercebida a muita gente mas ela lá está no meu blog, em destaque. Chama-se Momentos Épicos. Uma singela página que vos pode levar tanto tempo a ler como eu demoro a correr 100 Km. E assim me candidatei a esta aventura, referindo o texto existente nesta página que é um 'best of' do que fiz desde que embarquei nesta vida, nesta nova vida.

Pelos vistos alguém mais (para além de mim) gostou do que leu e deu-me um bilhete para esta viagem única.

E de repente alguém nos segura pela mão, somos pequeninos, descemos uma escadaria que nos leva para debaixo do chão. Só isso já é desconcertante. Os pais dizem que ali naquele buraco, nas entranhas da terra, por debaixo da cidade, anda um comboio. Não conseguimos acreditar. Só podem estar a gozar. Mas continuamos a descer mais escadas, escadas rolantes, que descem sozinhas. È um mundo diferente debaixo do chão. A qualquer momento a Alice podia sair de uma daquelas portas, inacessíveis, e acharíamos perfeitamente normal.
Quando chegamos ao cais há uma linha férrea e o assunto fica sério. De facto a coisa parece verdade. Há mesmo uma linha ali. Como nos brinquedos lá de casa. E um túnel. Um comboio fantasma! De um lado e do outro um túnel escuro como breu. De onde vem? Dali ou dali? Quem não tem estas memórias? Quando desapareceu a magia de começar a ouvir ao longe o barulho de um comboio que aumenta e nos deixa pregados ao chão, até se materializar ali na estação? 

Só muito mais tarde o Metro passaria a fazer parte da minha rotina de estudante e a coisa passaria a ser banal. Mas o mistério daqueles túneis nunca desapareceria. Há umas portinhas no final de cada cais que dizem Passagem Proibida. Ahhhh! Que chatice. Espreitamos. Já lá vem? E esperamos pelo próximo que magicamente irá surgir. Nalgumas estações consegue-se ver a próxima e a lagarta a descer lentamente até chegar a vez da nossa viagem. 

Quem teve esta ideia de pôr pessoal a correr naqueles túneis? Compreendo a magia e a atracção e daí o sucesso de algo deste género. Mas imagino a dificuldade de avançar com algo tão fora do comum. Aliar a corrida à magia de o fazer num sítio que tem tanto de banal como de inacessível. Esta iniciativa nasceu em Espanha e embora saiba a motivação da mesma, desconheço a história por detrás do evento original.

Mas como diria a outra, isso agora não interessa nada. 
Alonga aí pró fotógrafo
Era uma noite apenas fresca de um Outono candidato a Outono mais quente de sempre. Já passa bem da meia noite, e à porta da estação de São Sebastião vai grande reboliço. O levantamento do kit de participante decorre sem confusão. Afinal eram apenas 100. Assinam-se termos de responsabilidade, recebe-se um capacete e uma t-shirt, material obrigatório e único aliás. Depois de descermos para a estação e antes de acedermos ao cais, uma minuciosa revista policial iria garantir isso mesmo. Nem garrafas de água, quanto mais telemóveis ou máquinas fotográficas.

A malta da montanha a marcar presença nas entranhas de Lisboa
O tempo lá ia passando entre brincadeiras e as ultimas fotografias. O Nelson Évora com grande espírito posava para centenas de fotos. À hora marcada somos agrupados de acordo com a nossa marca aos 10Km e à velocidade da revista policial descemos ao cais de embarque e depois para a linha. Um pouco por todo o lado os jornalistas, repórteres e cameras são mato. 

A princípio evito aquele carril central que diz Perigo de Morte. Respect! Claro que a corrente estava já cortada, mas estava mesmo? Foram muito anos a ver muita faísca, Perigo de Morte.... Mas depois de ver um fotógrafo a apoiar a camera em cima do carril lá se perde o respeito à coisa. Que frisson!

A pouco e pouco os 10 grupos de 10 vão sendo arrumados em fila indiana ao longo da linha no cais. Não sabemos bem o que vamos encontrar mas a opinião geral é que vai ser difícil correr. Toda a gente da organização nos diz isso mesmo. Inclusive pessoas do Metro. Muito obstáculo no percurso, etc.

Ó p'ra mim em equilíbrio em cima do Perigo de Morte 
Os grupos iriam partir de 90 em 90 segundos. Estou no segundo grupo. Uma cortina gigante de ripas com o logotipo do Discovery Underground esconde a entrada do túnel. Iríamos ser literalmente engolidos por aquele túnel.

Não haveria cronómetros nas precisamente à hora marcada o Nelson Évora dá a partida para o 1º grupo que desaparece por detrás da cortina. 90 segundos depois arrancamos. A euforia é grande, Esqueço-me de iniciar o meu cronómetro. Obviamente ali em baixo não há sinal GPS mas como o Fenix 2 tem um acelerómetro interno ia ser possível registar a distância e o ritmo, com base no movimento do braço. Estava curioso para ver a fiabilidade deste modo que nunca usei. Só o liguei já no Saldanha, cerca de 700m depois. Ó desgraça!

Os túneis tinham iluminação própria que dispensava o uso de frontal. Só numa ou noutra zona uma lâmpada fundida dificultou um pouco a progressão. Ainda assim era só seguir em frente.

Seguimos pela faixa do meio. Há 3 zonas possíveis para correr. Qualquer uma delas salpicada aqui e ali por obstáculos. Ao centro entre as duas linhas que usávamos obrigatoriamente nas estações dado que ali não há bermas laterais. Mal saíamos de cada estação era optar pelo lado esquerdo ou direito onde era possível correr em cima de uma caleira técnica ou em baixo ao lado da linha. Ocasionalmente qualquer uma das zonas apresentava obstáculos que era preciso contornar ou saltar. À entrada de cada estação o ritmo era interrompido pela necessidade de mudar para o centro e de voltar para a berma à saída.

Ao fim de 1 ou 2 estações a mecânica da coisa estava estabelecida. Era possível correr, muito e bem. Os obstáculos repetiam-se, os cabos, as agulhas, o saltitar para mudar de zona. Era mesmo possível ultrapassar, nas bermas, um em cima da caleira e outro em baixo junto à linha. Mas dada a separação por tempos e o espaçamento entre cada grupo rapidamente encaixámos nos nossos ritmos.

Às vezes subia-se bem, outras vezes também se descia bem. O viaduto exterior depois das Olaias permitiu refrescar. Os túneis são muito abafados. Estariam à vontade mais de 20 graus ali dentro. Até tremia de ver o pessoal cheio de camadas de roupa. Mas esta gente nunca andou de Metro?

Imensa gente ao longo dos túneis, espaçados a cada 250m. Os Kms sempre marcados por alguém que segurava uma placa. As estações sucediam-se. Chelas, Olivais , Cabo Ruivo, Oriente... Em Chelas vejo o Paulo Fernandes, grande festa. Abastecimento líquido. Aceito uma água que transporto comigo como de costume.

O ritmo era alto e mesmo sem grande esforço não estava fácil. O corpo não encontrava um ritmo certo, as subidas eram traiçoeiras. Sem grandes pontos de referência sabíamos que estávamos a subir porque as pernas se queixavam. A atenção ao piso era constante e isso também consome energia. Não queria ir muito depressa, antes saborear cada momento daquela oportunidade única, correr num local completamente inacessível e que (pelo menos para mim) nunca se repetirá.

Nunca tinha passado do Oriente para a frente. Foi uma boa estreia. A experência aproxima-se do final. Km 7, 8... Ver as estações ao longe a aproximarem-se ou a surgirem depois de uma curva, qual maquinista de brincar. Imagens que guardarei para sempre.

E por fim chegámos ao Aeroporto. Grande recepção e aplauso. Novo abastecimento e subimos à plataforma. Ficámos por ali um bocado enquanto nos íamos reencontrando. A apreensão de todos era grande. Afinal tivemos de correr e bem. Grande ritmo para quem pensava que ia apenas fazer uma caminhada cheia de obstáculos. Safa! A minha experiência durou cerca de 50 minutos mas o primeiro a chegar só desfrutou de 38. O Garmin marcou 9,3 Km e se somasse os 700m que faltaram iria acertar na mouche. Alguns Suuntos por ali marcavam mais de 11 Kms.,,

Cá fora o autocarro encheu-se rapidamente e zarpámos rumo à partida onde era tempo de despedidas e voltar para casa. Era preciso descansar um pouco antes de voltar a Lisboa, dentro de umas horas, para o Grande Prémio do Natal.

É difícil classificar esta experiência. Posso dizer que adorei esta viagem louca, só tenho dificuldade em arrumar a coisa numa caixinha com um rótulo. Foi algo completamente 'fora da caixa'. Não era preciso ter ido a correr, iria se calhar até desfrutar mais numa visita guiada, mas a correr foi o que se arranjou. A organização foi irrepreensível com tudo a decorrer como planeado a anunciado. A preocupação com a segurança foi grande. Creio que toda a equipa deve estar muito satisfeita como tudo decorreu, pelo menos do que me foi dado a ver.

Não posso dizer que é para repetir porque seguramente não irá acontecer. Pela excentricidade da coisa é algo que se faz uma vez na vida e pronto. Tive essa oportunidade, foi daquelas vezes em que consegui estar no sítio certo na hora certa. Valeu bem a pena Discovery Channel, Nos e Metro, Obrigado pela fantástica experiência!

Por volta das 5h lá adormeci.