2º UTSM - 100Km por trilhos no Alto Alentejo

Barragem da Apartadura um local mágico
Foi com muito orgulho que voltei este ano a Portalegre. Para quem não sabe sou Alentejano e é muito bom assistir ao desenvolvimento destas iniciativas em regiões que estão habitualmente fora dos roteiros mais tradicionais. Mas felizmente este Ultra Trail não precisa de mais favores ou apresentações. Trata-se sem qualquer duvida da melhor prova de 100Km de Portugal, e vou dizer continental porque ainda não fui à Madeira fazer o MIUT. E mesmo sem contarmos com os quilómetros é uma das melhores provas do circuito nacional. Qualquer pessoa que lá tenha estado vos dirá o mesmo. É quase impossível organizar uma prova desta dimensão e com tamanha participação e envolvencia de toda a comunidade como ali vemos. Só há um caminho para o UTSM: levar cada vez mais e mais gente a ir a Portalegre descobrir a região, a simpatia,  a dedicação, a beleza dos trilhos e das serras e no final confirmar isso mesmo. O que ali se vive marca qualquer um. 

Por isso assim que abriram as inscrições fui dos primeiros a querer ir confirmar se o que tinha acontecido o ano passado era repetível este ano. E era.

Com o José Santos e o Luis Canhão lá seguimos ao final da tarde. O José para a sua 1ª 100K o Luis para o Trail de 42K e eu para repetir a prova do ano passado mas agora com muitas duvidas sobre como iria suportar tamanho esforço ainda às voltas com o adutor e com as dificuldades que tive no 1º trimestre desta ano. A coisa não tem estado famosa com muitos treinos em falta e com muito receio. Mas com a UTMB à vista era fundamental testar o corpo e ganhar confiança, ou não...

Jantar de equipa em Ponte Sôr
1º destino: Ponte Sôr; para preparar a barriga para o passeio pela serra num jantar com a minha equipa, Serviços Sociais da CGD. Se o ano passado éramos 6 bravos nos 100 Km este ano duplicámos a aposta e dos 23 mais de metade era para os 100 Km.
Suculentas proteínas
Só posso recomendar o Café Jardim de Ponte Sôr. Não porque o João Rebocho, que tem uma ligação afectiva àquele local, trabalhe comigo, até porque ele não esteve lá. Mas sim porque tudo o que comemos era de excelente qualidade e estava excelente. Para além do suculento e tenro bife que teria de fazer as honras durante 100 Km, ficou-me na memória o pudim. Simplesmente delicioso, o melhor pudim que talvez tenha comido na vida, um simples pudim. Parabéns à cozinheira e obrigado pelo belo repasto.

A partida este ano ia ser à meia-noite. Umas das alterações que a organização fez. Em termos logísticos este horário facilita bastante. Obviamente comparando com as 4 da manhã tem alguns inconvenientes também. Correm-se mais 4 horas de noite, perdem-se mais 4 horas de beleza e de paisagens. Os primeiros da frente irão fazer uma prova quase 50/50 de dia e de noite, enquanto os ultimos irão agradecer chegar ainda de dia. Enfim, quando uma prova dura tanto tempo não há soluções perfeitas. 

Antes da partida e na decisão de que roupa levar cometo um erro grave que me podia ter custado muito caro mais tarde. Assumo que as previsões do tempo iriam estar certas e deixo o meu casaco em Portalegre levando apenas o corta vento. A estupidez é um estado de espírito e para poupar umas centenas de gramas condicionei a minha prova ao acreditar que uma previsão iria acertar. A estupidez impediu-me também de sequer colocar o casaco no saco para eventualmente trocar em Marvão. O lado positivo é que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Lição aprendida.

O enorme Luis Mota sempre presente
O ambiente à partida é um misto de nervos, felicidade, ansiedade, um caldo de emoções. amigos que se revêm, duvidas que crescem, estou pronto? vou aguentar? estou tramado, isto vai correr bem, isto só pode correr mal, etc. Ficam algumas imagens que valem por 1000 palavras.
A malta dos SS CGD na galhofa


 Logo de início partimos juntos, o José Santos, o Pedro Carola e eu. Optei por fazer uma corrida tranquila e ajudar os meus companheiros a fazer a sua primeira ultra 100K. Não ganhava nada em acelerar. Iria fazer a prova sozinho, sofrer muito mais e provavelmente nem iria melhorar o tempo do ano passado dado que este ano treinos e isso, tá quieto.

Num ritmo suave mas decidido lá seguimos pelos campos afora, vacas, aldeias, ribeira, num instante estávamos no PAC1 e daí a Alegrete foi mais um passeio nocturno pela serra. Ainda tivemos tempo de aumentar o nosso grupo e passámos a ser 4 com o Luis Madeira, um colega da minha equipa e mais um estreante nos 100 Km. Foi ao sairmos de Alegrete e começarmos a escalar para as Antenas que o tempo começou a mudar. O vento soprava cada vez mais forte, a humidade em forma de neblina impedia a luz do frontal de iluminar mais do que meia duzia de metros  à frente impedindo de ter uma visão do percurso ou antecipar as passadas seguintes. Era extremamente cansativo e irritante aquela mancha branca à frente da nossa vista horas e horas a fio que se iria prolongar até ao nascer do dia quando foi possível desligar o frontal.
Mas regressando à escalada surgem as primeiras alterações ao traçado deste ano, pelo menos as que me apercebi. Num dos novos trilhos prendo um pé num tronco e quando me apercebo estou a aterrar de 4 no chão. Levanto-me tão depressa como caí, verificação rápida, tudo 100%, sem estrago algum, retomo o lugar na fila e acelero um pouco para colar de novo aos meus companheiros. A pouco e pouco verifico melhor os estragos, relógio, luvas, tudo OK. Revejo a queda em câmara lenta e tento perceber como fiz para não ter estragado nada. Dá jeito cair assim. Doem-me os joelhos. O esquerdo está a sangrar. Ao fim de uns minutos o aspecto era feio. Peço um papel ao Zé que tinha um à mão. Limpo a coisa e está feito. Tudo resolvido quase sem parar.

A subida empina e o frio começa a instalar-se graças ao vento que nos fustiga nas zonas mais abertas. O nevoeiro não permite ter uma visão panorâmica da zona. Quando passamos perto de árvores o vento que as abana, obriga-as a molhar-nos. Imprimo um ritmo forte por forma a gerar calor suficiente. A subida não era muito íngreme por este novo traçado e permitia correr ocasionalmente. Com a minha má experiência do UTAT sabia bem os estragos que aquele vento e frio poderiam fazer. E sabia que nas Antenas a paragem teria de ser forçosamente rápida porque se deixamos o corpo molhado arrefecer, com aquele vento gelado é o fim da prova com uma hipotermia, como infelizmente aconteceu com o meu companheiro Álvaro Furtado e provavelmente com várias outras pessoas. Aqui, mesmo assim, ainda não me tinha arrependido da minha má decisão do corta vento.

Nas antenas foi tempo de emborcar vários chás bem quentes, sei lá quantos, resguardar-me o mais possível do vento, meter uns cubos de marmelada e rapidamente arrancámos pelo trilho de BTT abaixo, xixi adiado para um sítio em que o vento e o frio dessem tréguas.

Dali à barragem tinha feito 1 hora no ano passado. Eram 10Km descendentes por estradões, um pouco monótonos é um facto, mas permitiam um bom ritmo. Permitiam o ano passado, porque este ano as novidades quebraram a monotonia e tivemos de ir escalar uma parede enorme para animar. Aí percebi que os tempos do ano passado estavam condenados. Aquela era outra prova. A cábula que tinha feito para perceber como estava a correr a prova por comparação com o ano anterior era inútil. O Zé sempre que as coisas complicavam queixava-se: isto não tinhas trilhos técnicos? isto não era fácil?
Zé vai pedir o dinheiro de volta que os srs. enganaram-nos

Chegámos à barragem com o dia a nascer. Aquela zona é lindíssima. A passarada a acordar enchia o vale de sons e várias vezes me apeteceu ficar ali a ouvir, a ouvi-los apenas. Uns pareciam despertadores, outros toques de telemóvel, outros cantavam lindas melodias. Aquela malta acorda cá com uma boa disposição! Deve ser de morarem ali naquele sítio fantástico.

Já há uns tempos que tínhamos apagado os frontais mas o sol estava ainda escondido. A luta contra o frio manteve-se na barragem. O vento gelava-nos e escondidos atrás da carrinha lá emborcámos mais chá quente. Olhei para os enchidos mas o cérebro só pensava em bebidas quentes. Não ficámos muito tempo. 
Solinho até ao PAC5 só no cimo da serra
O pelotão iniciou rapidamente a viagem para o PAC5. Neste troço mais novidades. Ribeira ó ribeirinha que corres tão fresca, pedrinha aqui pedrinha ali, salta aqui salta acolá... ó WTF siga os pés de molho. A água fresca refresca os pés que já de si nem vinham muito quentes. Tinha sabido bem o ano passado com o calor. Mas o vale é muito bonito e até já falávamos em pôr as pernas de molho e tudo.

A chegada ao PAC5 coincidiu finalmente com os primeiros raios de sol. Até que enfim o abençoado Sol. O ambiente era de festa por ali. Bifanas, queijo fresco, tudo demasiado salgado mas face ao contexto até se agradece. Boa disposição a rodos. Sentámo-nos ao sol a comer e a beber. Que bem que soube. Até me esqueci de comer o resto da sandes de presunto que o Zé me deu. O cansaço começava  a instalar-se mas era hora de descer ao vale antes da grande subida a Marvão.
Aqui ainda perdemos alguns minutos com o percurso numa zona em que faltava talvez uma fita. Para trás e para a frente o Pedro, que se tinha perdido mais atrás, acaba por chegar com a Teresa Afonso. Caminho encontrado seguimos todos à conversa. O caminho empina e os meus companheiros seguem mais atrás enquanto sigo à conversa com a Teresa. A conversa seguia animada porque desta vez nem dei pela dureza da subida.

Marvão
Em Marvão lá tentámos ficar como novos. Pelo menos por fora conseguimos. Ainda deu para secar um pouco o corta vento e a camisola de compressão. O dia estava a ficar tão bonito que até estava a pensar seguir só de t.shirt. Ainda antes de descer decidíamos o que deixar ali e o que levar. Felizmente decidi levar o corta vento. Era pouco mas podia dar jeito. Claro que quando cheguei lá fora e senti o vento que se mantinha frio mudei logo de ideia e toca de vestir a camisola de compressão por baixo da t-shirt. Umas malucas que ali estavam ficaram ainda mais loucas e tive de fazer uma pose :) Até vesti logo o corta vento e tudo. O vento frio continuava a chatear.


Depois da sopinha e de um café até parecia que estávamos a começar. Parecia... A sensação desapareceu com as primeiras pedras da calçada descendente. Ai ui ui ai lá seguimos como se podia, o corpo a dizer "então há mais?" 
Faltavam agora 40Km. Até ao PAC7 soube bem a inovação que evitou a calçada, embora a subida fosse durinha. Já íamos ter calçada suficiente até ao PAC8.
Não posso deixar de referir que no PAC8 tive o melhor reabastecimento de sempre com uma simpática rapariga, moça vá, a aceitar o meu desafio de me reabastecer o saco de água sem eu tirar a mochila. Não se preocupe que sei usar este sistema, já enchi tantos hoje. Então vá, sem eu tirar a mochila. Ela e a amiga de roda de mim, senti-me numa box F1. E sem pingar para fora... acho, pois estava de costas:) Obrigado moças, que simpatia.
O que eu não sabia era que a partir do PAC8 o regresso estava mais suave. Foi a compensação das maldades que nos tinham feito antes. Mas a malta estava massacrada e qualquer desculpa servia já para não correr, ou era a subir ou o piso era mau ou bora descansar um pouco, isto à vez, já se sabe, o ritmo era bem lento.
Faltava algo que nos convencesse a correr porque por volta do Km 80 com um excelente piso, a descer, o Pedro estava a passar por um momento de já não dá. O sol estava cada vez menos presente. Ao contrário do vento que se manteve sempre frio, estava agora completamente coberto por gigantescas nuvens escuras. Via-se que estava a chegar borrasca.
Era o nosso incentivo. Avisei o Zé que estava de manga curta que só havia uma hipótese perante a carga de água que ia começar a qualquer momento: Corre ou vais gelar. O Zé estava dividido porque o Pedro estava para trás, mas nestas alturas não há 2 escolhas. Eu já não vinha quente devido ao baixo ritmo e ao vento frio, com aquela água gelada a cair a qualquer momento não tinha outra opção.
O meu corta vento seria como se não tivesse nada vestido ao fim de 5 minutos. O Luis também sem impermeável fez-me companhia e com pouca vontade mas sem opção lá começámos a correr. Ainda passámos por um posto intermédio com uma data de gente abrigada lá dentro. Chovia torrencialmente.
Querem água, perguntam lá de dentro? Obrigadinho, a que cai do céu chega, respondemos sem parar. Ainda considerámos voltar para dentro da tenda e esperar pelo Zé e pelo Pedro mas de nada adiantaria, com o vento que estava íamos arrefecer e atrasar ainda mais. Faltam 4Km para o PAC9. Siga. Chuva, e granizo foram os nossos companheiros durante mais de 2Km.


Toda essa parte era idêntica à do ano passado e quando vi que íamos abandonar o estradão e atalhar por dentro do mato sabia que a aldeia estava ali a 300m. Viramos e vemos grande reboliço a escalar o desnível de terra. Um grupo de espanhóis estava mesmo a finalizar a subida. Começam a gritar lá de cima, por ali, por ali, bla bla bla (em espanhol). O que é que aquele quer, dizemos um para o outro enquanto nos aproximamos  cada vez mais. Eu ia directo ao ponto onde se sobe. Mas o homem estava a ficar cada vez mais preocupado. Por aí no, va por ali e mandava-nos contornar. Enfim lá percebemos que nos íamos atascar completamente na lama e embora o sítio onde nos estivesse a mandar ir tivesse muito pior aspecto não se afundava à nossa passagem. Agradecemos a providencial dica e quando passámos verificámos infelizes pegadas de companheiros que não tiveram a mesma sorte que nós e irão seguramente fossilizar e constituir o parque jurássico de Portalegre daqui a 1 milhão de UTSM's. E que viva la España por nos salvar.
Depois na subida final o tempo acalmou e lá chegámos ao PAC9 com um sol mesmo a jeito para secar a roupa. No PAC9 enfardei pizza para além do razoável. Estava com uma fome gigantesca e nunca pizza gelada me soube tão bem. Ainda aproveitei uma deixa do Luis Madeira e ganhei uma t-shirt da organização. O Luis lançou a escada para a menina lhe oferecer a t-shirt que tinha vestida se fosse um L, não era... eu sou menos esquisito, o M serve-me. E serviu. Lá vim com uma t-shirt seca vestida e tive vergonha de lhe oferecer a minha da Meia de Almada toda fedorenta e a pingar. A sair do PAC com a t-shirt toda molhada nas mãos e sem pachorra de trocar o dorsal para a que tinha acabado de ganhar só deu para colocar por fora na mochila do Zé. Foi por isso que cheguei depois à meta sem dorsal...


Cheirava a meta mas só já as chuvadas nos faziam correr e foi debaixo dela que saímos do PAC9. Gostei muito do novo percurso até ao PAC10. E até gostei dos 200 e tal degraus, apanhei o ritmo e até gostava de ir assim até a meta. Daí para a frente faltavam 5Km que nos levariam ao estádio por debaixo da estrada nacional. Foi um percurso lento em que praticamente só andámos para garantir que não nos separávamos. Por isso tive pena que o grupo não tivesse chegado junto à meta. Acabou por ser a única coisa que não correu bem em toda a prova, mas fiquei feliz na mesma com o sucesso dos meus companheiros das ultimas 18 horas. Afinal a festa era deles pela sua primeira ultra 100 Km.

Quanto a mim ultrapassei o meu objectivo que era chegar ao fim sem problemas. Percebi que há muito trabalho pela frente, mas este foi o treino zero para o UTMB e correu bem. Daqui para a frente as coisas só podem melhorar.

Era tempo de festejar, tomar um banho e almoçar. O Luis tinha esperado para "almoçarmos" juntos e assim fizemos. Pena que as iguarias não estivessem ao nível de tudo o resto, mas também não se pode ser muito exigente nestas ocasiões. Mas a cerveja estava excelente como convém.


Quanto à prova, Portalegre está novamente de parabéns. A organização é gigantesca, tudo está previsto e (bem) pensado. Desta vez até a SIC lá esteve e finalmente o vídeo apareceu para podermos partilhar. Sigam este link. Há sempre lugar para melhorar mas tenho alguma dificuldade em mencionar algum aspecto que tenha corrido menos bem. A refeição podia ser bem melhor e o ano passado foi. Parece que a actualização online nem sempre correu bem, enfim pequenas coisas que irão manter a organização entretida ao preparar o UTSM 2014.

Por fim agradecer ao Luis Canhão por nos ter trazido moribundos para casa, a mim e ao Zé Santos. Foi graças a ele que viemos dormir nas nossas caminhas. Desejo-lhe também que para o ano ele não possa fazer o mesmo por ter participado na prova grande. A todos os que ousaram participar, tenham ou não atingido os seus objectivos, os meus parabéns. Para o ano gostava de ir ao MIUT, será que podem arranjar maneira de não faltar a Portalegre? :)

Os 5 na Serra da Estrela

Cliquem na imagem para visitar a página do fotógrafo José Branco
Esta é a história de um passeio. Não se sabe se vão ser 5 mas "Os Cinco" foi uma colecção que me fez sonhar quando era miúdo e gosto da ideia de esta ser mais uma aventura dos 5. É um facto que a 1 mês do evento não faço ideia se seremos 5, 10 ou mais. Para já somos 3 e quando começarmos a correr no dia 8 de Junho logo se contam as cabeças, ou as pernas e divide-se por 2. 

Esta foto mostra a génese desta nova incursão à serra. Ao centro, de onde a estrada vem, fica o Covão d' Ametade: o local onde deixámos o carro o ano passado quando fomos em modo caminhada. Acabaríamos por regressar ao final da tarde, descendo o trilho e entrando no Covão pelas traseiras, depois de um dia inteiro de trilhos, em que passámos pela torre. Não ficámos no Covão dado que as condições de higiene eram nulas e nem para tomar um duche havia condições. A Câmara gere o local que disponibiliza de forma gratuita. Mas infelizmente o estado das instalações era vergonhoso e descemos para o Skiparque  onde por um preço muito acessível descobrimos um parque fantástico com  uma praia fluvial e excelentes condições a todos os níveis. Do parque partem imensos trilhos que nos levam por caminhadas sem fim.

Para completar o início da história faltam os trilhos. E trilhos é coisa que não falta por ali. A Câmara de Manteigas com uma fantástica iniciativa fez a sua parte. No site Manteigas Trilhos Verdes podem apreciar todo o trabalho desenvolvido. Não foi só marcar e disponibilizar os trilhos. É também todo o trabalho de ter online e de forma sistematizada toda a informação que precisamos para conhecer e planear belos passeios à distância. 

A partir da página dos trilhos (recomendo que tenham o Google Earth instalado para poderem ver os trilhos na página) podem clicar em cada um dos trilhos para verem toda a informação relativa a cada um. Têm também um pdf com todos os trilhos que permite ver o conjunto. 

Estes são os condimentos necessários. Daqui para a frente basta a vontade para a coisa nascer. 
Foi criado um grupo no Facebook para facilitar a comunicação entre quem quiser ir. Basta pedir para aderir. 

A ideia é irmos fazer 100Km no fim de semana do 10 de Junho.

O plano é o seguinte:

Sábado 8 de Junho
- Saída de Lisboa (ou de outro local) de modo a chegar por volta das 7-8h ao Skiparque no Sameiro, Manteigas
- Check-in no Skiparque, montar a tenda e seguir para os trilhos
- Correr o dia inteiro em autonomia (50-60K)
- O trilho termina no Skiparque onde podemos refrescar na água fresca do Zêzere
- Churrasco e descanso para repor energia pela noite dentro
Domingo 9 de Junho
- Acordar, pequeno almoço e seguir para os trilhos 
- Correr o dia inteiro em autonomia (40-50K)
- O trilho termina no Skiparque onde podemos refrescar na água fresca do Zêzere
- Desmontar a tenda e jantar num restaurante da zona antes de regressar a casa

Para maximizar o tempo que passamos a correr e não nos perdermos mais que o necessário, vou criar um track que podem descarregar para os vossos GPS's. As marcações dos trilhos são razoáveis. O ano passado tivemos algumas duvidas nalguns locais e andámos um pouco às aranhas. Assim não há duvidas. O track é feito com base dos trilhos do site pelo que há a garantia que são tudo trilhos corríveis sem obstáculos naturais ou artificiais, terrenos privados ou o que fôr. 

Rota da Azinha
Resumidamente no primeiro dia iremos fazer o maçico central subindo à torre. Skiparque->Sameiro->Manteigas->Torre->Manteigas-Sameiro->Skiparque.

Saímos do Skiparque pelo final da Rota da Azinha que nos vai levar até ao Sameiro. Este pequeno troço passa mesmo ao lado do parque e segue junto à estrada nacional até ao Sameiro, sempre ao lado do Zêzere. No Sameiro vamos despedir-nos do Zêzere até ao final da tarde quando regressarmos.

Rota do Sameiro
Podem ver todos os detalhes da Rota da Azinha neste link

Depois de passarmos a estrada e entrarmos no Sameiro não vamos fazer a volta pequena mas sim começarmos a trepar até ao cimo da serra que separa o Sameiro de Manteigas. Aí iremos saltar para outra rota.

Para verem todos os detalhes da Roda do Sameiro sigam este link

No cimo da serra vamos trocar de trilho. Vamos passar para a Rota das Faias. Aqui não resisto a plagiar o que está no site acerca da Rota das Faias.

Rota das Faias
A Rota das Faias possibilita a descoberta de algo novo e surpreendente a cada instante, desde a vegetação esplendorosa a paisagens fulgurantes, que juntamente com a agricultura e a pastorícia proporcionam um passeio perfeito para quem deseja conhecer a serra, as suas gentes e costumes.
Mais do que um trilho pedestre, a Rota das Faias é uma experiência sensitiva, onde os odores a rosmaninho, hortelã-brava, alfazema e tomilho se fundem com magníficos quadros que rodeiam o olhar de quem os observa.

A sua denominação advém do facto deste percurso mergulhar no interior de uma densa floresta de faias, plantada pelos Serviços Florestais de Manteigas no início do século XX.

Para além desta espécie, também há a destacar o castanheiro, a giesta, o Pinheiro-do-Oregon e os imponentes carvalhos monumentais que rodeiam a Capela de S. Lourenço, lugar de culto de reminiscências pagãs, relacionadas com a adoração das árvores e do Sol – no solstício de Verão, quem está em Manteigas vê o sol nascer sobre S. Lourenço.

Na paisagem natural sobressai o Vale Glaciar do Zêzere, em forma de “U”, a Torre, o Cântaro Magro, o Cântaro Gordo e as Penhas Douradas. Podem ver este texto e muito mais informação sobre este troço neste link. Aqui vai ser sempre a descer até Manteigas. Maravilha.

Rota do Sol
Vencida que está a primeira montanha do dia vamos entroncar na Rota do Sol. Um pequeno troço de ligação que nos vai levar até Manteigas. É um percurso circular do qual faremos a parte superior à ida e a parte inferior à vinda. Serve apenas de ligação com a Rota do Carvão, o principal obstáculo do dia. Destaco o seguinte da descrição da Rota do Sol: O caminheiro pode contemplar uma paisagem marcada pela influência de uma agricultura tradicional, com vinhas, socalcos, hortas, lameiros e levadas, deslumbrar-se com as casas típicas da serra (em xisto ou em granito), caminhos e muros ornamentados e aromatizados pelo rosmaninho que embelezam e particularizam a paisagem.

A paisagem natural é marcada pela floresta mista, de folhosas e resinosas, que pode ser observada ao longo de grande parte da rota. Na derivação que liga Sameiro a Manteigas, destaca-se o Cabeço de Satanás de onde é possível desfrutar de uma paisagem abrangente e fascinante sobre os bosques que envolvem o vale do Zêzere.

Rota do Carvão
Chegados a Manteigas espera-nos o verdadeiro desafio do dia. A Rota do Carvão. Não vamos mais parar de subir até alcançarmos a Torre. Mas vai ser uma subida cheia de beleza natural: A beleza da paisagem natural que o percurso proporciona é comprovada pela presença de Matos e Matagais e por Florestas de Folhosas, em contraposição com as esculturas naturais concebidas nas escarpas rochosas, como a Fraga da Cruz - majestoso cabeço granítico, o Fragão do Corvo e a Pedra Sobreposta. Este percurso, além de atravessar as Penhas Douradas – pequena aldeia de montanha que teve a sua origem no tratamento em altitude de doenças do foro respiratório, dá a conhecer a Nave da Mestra – depressão topográfica que apresenta um largo plano rodeado por um maciço granítico muito fracturado. O privilégio de se conhecerem estes locais é completado pelo Vale das Éguas, pelo espelho de água do Vale Rossim, pela Charca do Perdigueiro, pela panorâmica incrível para o Vale Glaciar e para o acumular de serras que se estendem até Espanha.

Rota do Maciço Central
Não iremos fazer a Rota do Carvão de uma só vez. Nenhuma subida à serra fica completa sem visitarmos a Torre, o ponto mais alto da Serra e a Rota do Carvão não chega à Torre. Por isso sensivelmente a meio e perto do ponto mais alto desta rota aproveitamos o cruzamento com a Rota do Maciço Central para darmos um salto à Torre e beber uma fresquinha. Faremos apenas o troço que liga à Torre e regressamos depois por esse mesmo troço até à Rota do Carvão. Retornados a essa Rota resta-nos descer até Manteigas desfrutando das belas paisagens que proporciona a mais fantástica das Rotas do site.

O caminho de regresso será muito mais calmo e pacífico, maioritariamente descendente. Em Manteigas passamos para a parte de regresso da Rota do Sol que, sem grandes desníveis, nos vai levar a meia altitude ao longo do vale do Zêzere até ao Sameiro. No Sameiro apanhamos o pequeno troço que nos leva até ao nosso destino final, o Skiparque.

No parque será o descanso dos guerreiros. Temos o rio Zêzere numa fantástica represa que com a sua água fresca vai auxiliar a recuperação muscular. É também altura de tomar um retemperador banho quente e preparar o espírito para um belo churrasco que vai saber pela vida. Depois descansar o máximo que no dia a seguir os trilhos aguardam por nós.

Após cozinhar todos estes troços dos vários trilhos o track do dia 1 está pronto e disponível no gpsies.com para todos. Não me responsabilizo pela precisão do track. Apenas que foi feito com troços das Rotas referidas pelo que será de total confiança e no terreno não haverá qualquer tipo de obstáculo.

Aqui fica a altimetria do percurso:

Subida acumulada 2.347 metros
Descida acumulada 2.348 metros
Acumulado Total 4.700 metros 


Podem aceder ao track no site do Gpsies usando este link. Podem fazer o track de helicóptero usando este link. Vejam se a volta agrada. O tempo estimado para efectuar o percurso vai depender muito do ritmo imposto. Idealmente num ritmo calmo deveremos demorar entre 8 e 9 horas.

Concluído o 1º dia é aguardar pelo percurso do 2º dia.

Continua....

a-rival SpoQ SQ-100. Um relógio para ultras?


Desde que a Globalsat lançou o irmão gémeo deste SpoQ, o irmão original digamos assim (GH-625XT), que o tinha debaixo de olho. Sempre foi dificil de encontrar a bom preço mesmo na net. A Globalsat lança os relógios com a sua própria marca e também aceita fazer rebrands com outras marcas desde que façam uma grande encomenda. Quem segue este mercado de perto lembra-se seguramente há uns anos quando a Decathlon lançou um da sua marca que não era mais que o rebrand do Globalsat GH-615, acho. Neste link podem ver a família completa.

Feitas que estão as apresentações passemos ao que interessa. Não vou fazer um teste exaustivo, passar por todas as características do relógio, etc. Para além de ser aborrecido e consumir demasiado tempo, essa informação pode ser encontrada no manual. Se tiverem alguma duvida específica podem sempre perguntar que eu respondo. A metodologia que vou seguir é simples. Vou dar-vos uma ideia do produto em si,  passar ao que verdadeiramente me interessa no relógio, saber se cumpre os requisito e está arrumada a questão.

Começo logo por gerir as vossas expectativas. Isto não é um fenix ou um Ambit killer. Não encontrei o Santo Graal nem um tesouro escondido. Isto não deve ser novidade para ninguem. A questão aqui não é saber se o Dacia é melhor que o Renault. É saber se consigo fazer o que preciso com o Dacia e ficar com o troco para mim. Obviamente quando se pagam apenas 100 em vez de 300 ou 400 terão de se fazer algumas concessões. Muito sinceramente não necessito de toda a artilharia que tem um fenix ou um Suunto. Não preciso de um barómetro, não preciso de um termómetro, até ia ter pena de levar o Ambit para algumas provas, etc. O que me faltava era carregar o percurso e não andar aos papéis, por minha culpa, das organizações ou de quem fosse. A autonomia já tinha resolvido com um carregador portátil, mas as 8 horas de autonomia do 610 iriam tornar a UTMB um martírio de carregamentos e provavelmente iria acontecer como no UTAT em que às tantas já não queria carregar porra nenhuma. Só tive paciência para o carregar duas vezes e ao fim de 20 e poucas horas acabou-se o GPS. As 20 horas anunciadas pelo SpoQ agradam-me claro. O écran grande até dá jeito que a malta não vai para novos...Bom chega de conversa mole, vamos ao produto.


O que vem na caixa

O produto tem uma excelente apresentação. A caixa intrigou-me desde o início porque umas das línguas que está impressa na caixa exterior é o português. Nunca o vi à venda por cá. Ou fazia parte de um plano que não se concretizou ou ainda está para chegar, por exemplo ao Lidl, dado que na Alemanha é vendido também nessa cadeia de lojas. Ora como este modelo já tem uns anos e está seguramente em fim de vida a única hipótese foi perguntar à marca. Infelizmente a resposta que me deram é que a empresa não tem planos para comercializar o relógio em Portugal. Portanto nesta encarnação Spoq, não contem de o ver por cá à venda.

Incluído na caixa vem:
- Software
- Cinta para medir pulsação
- Suporte para a bicicleta
- Pulseira adicional mais comprida
- Chave de fendas
- Cabo USB

Software de suporte

Todo o software pode ser descarregado no site da empresa que comercializa o relógio. De notar que as versões inglesas originais de todo o software são totalmente compatíveis com o relógio. A única diferença é que o software vem inicialmente configurado para a lingua alemã. De resto as versões são identicas. O relógio vem em alemão de início, mas consultando o manual é simples seguir os passos para o pôr em inglês. Curiosamente o português não é uma das linguas disponíveis no relógio. Só na caixa :)
Quanto ao firmware também é idêntico entre o Globalsat e o SpoQ, apenas é diferente o logotipo inicial quando o relógio arranca. Creio que será possível colocar o firmware de um Globalsat no SpoQ mas sendo idênticos não há qualquer vantagem.

Depois de instalar o driver que permite ao sistema operativo reconhecer o relógio, instalei o software de treino. O software de treino só é essencial para fazer actualizações de firmware. Se não gostar do software de treino que vem com o relógio é possível utilizar o excelente SportTracks para descarregar os tracks e mesmo para enviar percursos para o relógio. Quem seja utilizador do SportTracks está em casa. Basta instalar o plugin que permite a comunicação com os relógios da Globalsat e terá acesso a todo o conteúdo do relógio.
Caso não seja utilizador do SportTracks e não queira usar este programa, pode perfeitamente usar o software que vem com o relógio. Não é um software de ultima geração mas cumpre perfeitamente com o essencial.
O SportTracks é excelente, altamente configurável com centenas de plugins desenvolvidos pela comunidade que estendem a funcionalidade do programa quase até ao infinito. Tem uma curva de aprendizagem algo elevada mas depois de se insistir uns tempos o programa é excelente e permite parametrização, configuração e recolha de informações até à exaustão. O único contra é que para usar mais que 2 plugins terá de comprar o programa pois a versão grátis só suporta 2 plugins. Como terá de instalar 2 plugins para comunicar com o relógio (o da Globalsat e o Waypoints para enviar tracks para o relógio) fica logo limitado. Para usar os excelentes plugins que a comunidade desenvolve só pagando 27€ por uma licença do SportTracks (dá para 2 PC's). De notar que alguns plugins também são pagos mas os essenciais são gratuitos felizmente.


Se usar o SportTracks pode usar um plugin que exporta as actividades que queira enviar para o Connect em format TCX. Para já parece-me ser a opção que transfere mais informação para o Connect, provavelmente transfere tudo. O formato GPX não transfere a informação relativa às voltas. Será um processo manual mas é relativamente simples. Exportar do SportTracks, importar no Connect

Fica apenas uma nota relativa à importação de ficheiros GPX para o software do relógio. Se obtiver vários erros ao tentar importar um ficheiro GPX use primeiro o conversor online do site GPSies.com para normalizar o ficheiro convertendo de GPX para GPX. O ficheiro será limpo de informações adicionais que o software não consegue processar e já será possível carregar o ficheiro GPX sem erros.


O relógio


Esteticamente o relógio está bem concebido e não aparenta o tamanho que efectivamente tem. É grande.  Sobretudo é alto. Creio que será sobretudo devido à bateria que tem. Disfarça bem mas está ao nível do 305. Com a cor preta e a antena disfarçada de pulseira parece mais pequeno. Nada que incomode por aí além. Depois de estar no pulso vamos apreciar o grande écran disponível. A qualidade de construção é 100% plástico :) Nem tudo é mau. Com esta opção obtem-se um relógio bastante leve para o tamanho que tem e não se vai sentir no pulso sequer. Pelo menos não vai acontecer o mesmo que está a acontecer à tampa posterior metálica do meu Garmin, corrosão, desgaste, etc.

Embora o écran seja grande nem todas as informações que são apresentadas fazem um uso ideal do espaço disponível. Perde-se um pouco a vantagem de se poder facilitar a vida ao pessoal que vai tendo dificuldade em ver ao perto sem óculos. Algumas fontes são demasiado pequenas e a ergonomia não está bem pensada para aproveitar o tamanho do écran. Isto para a malta que vai tendo dificuldades com a visão ao perto e não usa óculos de forma permanente. Quem vir bem não terá problemas.


Ao contrário do Garmin 305 ou do 910 ou outros semelhante, o SpoQ tem a função de relógio. Pode permanecer cerca de 1 semana nesse modo, apenas mostrando as horas. Sempre apreciei esta funcionalidade. Já que se tem algo no puls,o ao menos que tenha utilidade para além de quando se está a correr.

Ao ligar, o relógio imediatamente inicia a procura de satélites. Encontrar o fix é extremamente rápido e conforme várias condições que já são conhecidas de quem usa GPS's demorará entre 3 a 30 segundos. Enquanto está a procurar o fix se carregarmos na seta para cima ou para baixo poderemos ter informação detalhada sobre os satélites disponíveis, a sua localização no céu e os que têm fix com o relógio. Aqui no sótão dentro de casa tenho facilmente um fix com 7 satélites.

Sem querer entrar em muitos detalhes de utilização, para os quais vos convido a lerem o manual, a utilização é relativamente simples e trivial. Tem as habituais funcionalidades básicas que encontramos em qualquer relógio GPS relativamente evoluído. A tecla PG, de page ou página, alterna entre os vários modos:
  - menu;
  - posição GPS;
  - 4 páginas de treino configuráveis entre 1 e 4 campos cada uma;
  - mapa (que tem de ser ligado inicialmente nas configurações);

Se estivermos nas páginas com informações do treino, uma das páginas será o relógio com a hora do dia. Se estivermos a seguir um track teremos uma página adicional relativa à navegação.

Aqui fica uma lista dos valores que pode escolher para as páginas de treino:

ALTIUDE - Current altitude
ALTI MAX - The highest altitude
ALTI MIN - The lowest altitude
CALORIES - shows how many calories you have burned
CAL RATE - Burn calories per hour
HR - Instant heart rate information
HR AVG - Average heart rate information
HR INZN - Heart rate zone
HR MAX - The max hear rate information
LAPS - Lap counts
LAP DIST - Lap distance
LAP PACE - The average pace for the last lap
LAP SPEED - The average speed for the last lap
LAP TIME - The time spent for the last lap
PACE - the time needed for one mile or one km
PACE AVG - Average pace
PACE BEST - The fastest pace
PACE INZN - Pace zone
SPEED - Instant speed
SPEED AVG - The average speed.
SPEED MAX - Max speed
SPEED INZN - Speed zone
TIME - Time
DISTANCE - shows how far you have trained
Asc SPEED - Ascending speed
CUMULATE + - Raise accumulative altitude
CUMULATE - - Falling accumulative altitude
REST DIST - The rest of distance to go
REST TIME - The rest of time to go
PACER - Evaluated time between trainer to virtual trainer
PACER E - Evaluated rest distance to destination
PACER T - Evaluate rest time to destination
SLOPE - The tilt percentage from vertical to horizontal

Tudo normal tirando o facto da página com a posição GPS que poderia estar num sub-menu e não incluída nas páginas por onde temos de passar. O acesso às várias páginas é circular e para irmos das informações do treino para a página de navegação basta pressionar uma vez, mas para voltar às informações de treino é preciso pressionar 4 ou 5 vezes o botão (se estivermos a a navegar temos mais um écran activo). Depois de se automatizar o gesto esquecemos o inconveniente. No fundo estas funcionalidades são sempre mais ou menos manhosas, por vezes até nos modelos de topo o acesso ao que pretendemos não faz muito sentido, estou-me a lembrar por exemplo do Ambit e do sítio dos menus onde estão algumas coisas e a quantidade de vezes que é preciso carregar em botões para obtermos determinadas acções...
Página de navegação que mostra a direcção do fim e estima a hora de chegada
O modo de relógio entra em acção ao fim de 5 minutos se não estiver a usar o GPS, para poupar bateria. Este modo pode ser desligado ou alterado para 10 minutos. O modo de relógio permite-lhe por exemplo usá-lo como despertador para o dias das provas. O modo de relógio acerta a hora automaticamente pelo sinal de GPS a primeira vez que obtem um fix. Uma característica que o Ambit por exemplo não tem.... vá-se lá saber porquê.

Para treinar o relógio tem o modo Gym onde pode optar por definir um Virtual Trainer para correr uma dada distância ou tempo a uma determinada velocidade. Também pode correr contra um treino anterior que esteja armazenado no relógio. O relógio mostra a vossa prestação contra o objectivo que definiram. Tem também um modo multidesporto em que podem alternar entre diversas modalidades e um treino intervalado onde podem compor o tipo de treino que pretendem com vários ritmos e objectivos que o relógio vos irá indicando ao longo do mesmo. Nada de novo para quem conhece as funcionalidades da Garmin nesta área.


Navegação

Resta apenas falar um pouco sobre a navegação, a principal razão da minha aquisição, para além da duração da bateria.

O relógio regista um track como todos os GPS's e mostra-o no écran do mapa, se o mapa estiver activado. No modo mapa consegue ver o percurso que já efectuou usando as teclas das setas para cima e para baixo como zoom + ou -. Isto dá-lhe uma ideia, grosso modo, do percurso que efectuou. Tal como em todos os Garmin e espero que na utlima versão de firmware do Ambit..., existe um modo back to start inteligente, em que o relógio o leva de volta ao princípio, sem o obrigar a fazer necessariamente todo o caminho de volta.


A verdadeira utilidade do mapa, pelo menos para mim, revela-se quando carregamos previamente o track GPS da prova que vamos fazer. Aí sim, o relógio mostra o track que carregámos juntamente com o que estamos a registar. Caso haja um engano podemos facilmente olhar para o écran e verificar o caminho que deveríamos estar a fazer, bem como a nossa posição actual e a direcção que deveremos seguir para voltar ao caminho certo. Este fim de semana no Ultra Trail de Sesimbra fui confirmando isto mesmo com as pequenas alterações que foram feitas ao traçado. Felizmente a prova estava muito bem marcada e apenas ia constatando as alterações e em momento algum tive de usar o relógio para encontrar o caminho.
O track é a linha recta do lado direito na direcção da seta. 

O track correcto acaba de ser retomado

O track está a ser seguido correctamente
No entanto nada disto é novidade e existe desde o 305 e até mesmo antes. A novidade aqui é a capacidade quer da bateria, quer da memória associada ao excelente preço claro.


Bateria e Memória

A bateria está anunciada com duração superior a 20 horas. Logo no primeiro carregamento que efectuei atingi as 20 horas de registo contínuo. As baterias de lítio actuais demoram algumas cargas a atingir a sua capacidade máxima. Na segunda carga já consegui gravar um track de 22 horas. É natural que com mais algumas cargas consiga atingir os valores que já vi referidos, mais de 23 horas de registo de track com utilização de iluminação ocasional. Grande performance neste campo.
Ao contrário da alguns modelos da Garmin o relógio está totalmente disponível durante o processo de carregamento. Assim é possível, com um carregador portátil, efectuar o carregamento durante uma prova. Graças à ficha de baixo perfil é mesmo possível carregar o relógio no pulso.

Quanto à capacidade da memória para registar pontos GPS o relógio vem por defeito programado para registar 1 ponto GPS por segundo. Como tem capacidade para mais de 120.000 pontos via poder registar mais de 33 horas de track. 1 ponto por segundo permite o track mais preciso mas convenhamos que 1 ponto a cada 2 segundos é também excelente e duplica a capacidade de escrita passando para mais de 66 horas de track. Se for preciso mais horas de registo é uma questão de diminuir ainda mais a frequência de gravação de pontos. Isto não afecta a duração da bateria pois o GPS está a funcionar permanentemente. Apenas afecta a memória disponível dado que a irá encher tanto mais rápido quanto maior a frequência com que regista pontos GPS. Talvez o facto de escrever menos pontos na memória também permita poupar alguns electrões e se atinja um pouco mais de autonomia.

Tracks e precisão GPS

No terreno o relógio é extremamente rápido a adquirir um fix embora esse tempo seja dependente de vários factores, como por exemplo o tempo que decorreu desde que o usou a ultima vez e se estava no mesmo local geográfico onde agora está. Na melhor das hipóteses o relógio demorará 1 segundo e no pior caso cerca de 30 segundos.

Para confirmar a precisão dos tracks recolhidos efectuei alguns treinos com o meu Garmin 610 num pulso e o SpoQ no outro. Aqui ficam os resultados. Em ambos os casos o track azul é o SpoQ e o verde é do Garmin. Cliquem nas imagens para analisarem os tracks em pormenor no mapmyrun.com


Os tracks são de excelente qualidade. Talvez o SpoQ tenha um pouco mais de qualidade e aderência ao traçado correcto nalgumas zonas. Também se percebe que nalgumas zonas ambos perdem resolução, devido à degradação da recepção do sinal nessas zonas. O SpoQ regista tracks um pouco mais longos mas foram meramente circunstanciais. Há uma diferença de 150 metros que surgiu nos primeiros metros e que se manteve estável durante todo o percurso provavelmente a um fix inicial um pouco optmista. No track de Lisboa nota-se esse erro superior no início do registo. A restante diferença, quer da duração quer da distância deve-se ao facto de não ter parado o relógio e este ter continuado a registar o track dentro do edifício... embora grande parte daquela zona seja uma cobertura de vidro, não há milagres.

Suporte

Existe uma pequena comunidade de devotos da Globalsat. Reunem-se num forum de suporte ao relógio da Globalsat US onde a lingua dominante é obviamente o inglês. Ali podem encontrar várias discussões, pedir ajuda para alguma dúvida. Também por ali o pessoal da Globalsat avisa quando saem novos firmwares com alterações etc.
Notem que os manuais apenas estão disponíveis em inglês, francês e alemão. Para retirarem toda a funcionalidade do relógio terão de dominar uma destas linguas e lerem o manual, ou então por tentativa e erro chegar onde quiserem.
Se tiverem algum problema com o relógio a garantia é dada pela loja que vos vendeu o relógio, ou seja terão de o enviar para o local da compra. Analisem bem esta questão com a loja. Provavelmente terão de pagar o envio e com sorte será devolvido gratuitamente mas cada loja tem a sua política de garantias própria. Não vai ser simples de encontrarem o relógio à venda. Algumas dicas: amazon.de, expansys.pt, ebay.co.uk, lidl.de. Googlem a coisa e boa sorte!

Contra

- Não existe um site online, da marca, para partilhar os seus treinos. Terá de optar por um dos vários que existem. Endomondo, Mapmyrun, etc. O próprio site da Garmin, o Connect, pode ser usado;
- Software algo limitado e ergonomicamente pobre;
- Manual de utilização apenas em Inglês, Alemão e Francês;
- Só possível adquirir na net;
- Requer algum à vontade com computadores para retirar todo o potencial no tratamento de tracks, conversão de formatos, envios de e para o relógio, carregamento de tracks em sites publicos, etc;
- Se precisar de accionar a garantia terá de o enviar para o site onde o comprou;

A favor

- Excelente relação qualidade/preço;
- Excelente conjunto de funcionalidades;
- Rapidez de aquisição de fix GPS;
- Track de grande qualidade e precisão;
- Bateria de elevada capacidade garante mais de 23 horas de registo de track;
- Boa capacidade de memória aliada à escolha do intervalo de registo de pontos, garante tracks de grande duração;
- Todas as funcionalidades estão disponíveis durante o carregamento do relógio;
- Em modo relógio tem autonomia para uma semana e pode ser usado como um vulgar relógio com despertador;

Conclusão

Se não se importa de lidar com ficheiros, conversões e formatos, se precisa de um relógio com uma bateria de elevada duração, ideal para ultra maratonas, se gosta de carregar os tracks GPS no relógio, se gosta de relógios grandes e não se importa com marcas e suposto status que conferem, se gosta de €uros e prefere ficar com eles para si, se não precisa de termómetros e barómetros, se gosta de bater a net em busca do melhor negócio e domina os meandros do comércio online, então este pode ser o relógio com GPS que procura. Imbatível no preço tem as principais funcionalidades e um generoso écran. Não vai dar os poucos euros por mal empregues.

Se lida mal com a informática, se acha complicado usar o connect ou o movescount ou semelhante para mostrar os tracks aos amigos, se não sabe carregar um track GPS no seu actual relógio, se sonha com malas Chanel e relógios iguais aos das vedetas, se não gosta de relógios grandes, se não domina uma das linguas do manual e ainda assim pretende usar funções avançadas e mostrar os seus feitos aos amigos, pense bem pois este pode não ser o relógio indicado para si. Até pode conseguir usá-lo sem problemas de maior, mas continuará a sonhar com o que deixou de comprar e ficará triste por não ir impressionar ninguém com este.

Se houver algum aspecto que gostassem de ver explicado avisem que eu detalho se for caso disso.