Suunto Ambit 3 Sport - Crónica de uma review

The beginning!




O local era Oukaimeden em Marrocos, Alto Atlas. A 2675m de altitude no albergue mais alto de Africa, de seu nome Chez JuJu, o team tuga que foi ao UTAT aguardava pela chegada da refeição. Não estava previsto almoçar em tão "requintado" local, até porque os preços são um pouco abusivos face à concorrência, ou antes à ausência dela. Prefiro sempre uma genuína tasca marroquina, mas o facto do wifi estar fechado no nosso albergue este ano, serviu de engodo e a trupe há 1 dia sem net já estava a salivar para estar online. 

Depois de 1 reboot ao router do albergue a net lá começa a bombar e à velocidade de um caracol (há que partilhar com outras dezenas de clientes) os facebooks lá se vão actualizando. De repente chega o mail que deu origem a esta review. O meu contacto da Amer Sports Espanha diz-me que tem um Suunto Ambit 3 para eu testar e se estiver interessado em analisar e escrever um artigo no blog é só dizer. Uau! Sem querer comparar-me com aquele pessoal que de facto tem algum valor, mas que só é reconhecido lá fora, é um pouco isso que se passa aqui. Desse modo agradeço à Amer Sports a amabilidade e o reconhecimento e espero continuar a merecer a vossa confiança. Pelo minha parte aqui vai o que tenho a dizer do Ambit 3.

Início da coisa

Despachado o UTAT mal tive tempo de regressar ao trabalho, pois o Ambit quase chegava primeiro que eu. A minha ideia inicial era fazer uma comparação com o Fenix 2, um duelo que permitiria eleger o melhor dos relógios com GPS da actualidade. Mas ao analisar melhor o Ambit 3 percebi que não faria sentido tal comparação. Na realidade há vários Ambits 3, vários sabores por assim dizer:
Suunto Ambitt 3 Peak
o Ambit 3 Peak, o Ambit 3 Sport e depois mais uns sabores com vidro de safira e cores, que para o caso não interessam. O safira obviamente o mais caro de todos e os de cores para pessoal colorido pois claro (na realidade são apenas 3 cores, preto, branco e azul)

Suunto Ambit 3 Sport
A questão aqui é que as diferenças, não sendo muitas entre o Peak e o Sport, são suficientes para tornar injusta uma comparação com o Fenix 2 feature a feature, com classificações etc. Assim sendo, o capítulo da comparação olho por olho está encerrado. Não quer dizer que não os compare, mas não vai haver um claro vencedor ou provavelmente um melhor que outro. O concorrente directo do Fenix 2 é o Suunto Ambit Peak. O que me enviaram para analisar é o Suunto Ambit Sport.

A minha ideia com esta review é então fazê-la ao jeito de quem conta uma história. Só para ser diferente e vos obrigar a ler que é uma coisa muito importante e saudável. Se querem respostas rápidas e classificações vão ter de ir a outro site. Aqui vão ter de penar. Ainda por cima é uma crónica, por capítulos, para vos entreter que a vossa vida anda um pouco por baixo para estarem aqui a estas horas a lerem análises de relógios com GPS.

Primeiras Impressões

Estava obviamente super curioso para conhecer o Ambit 3. Depois de ter testado o Ambit original, enviado pela própria Suunto de propósito da Finlândia e do Ambit 2 ter ficado um pouco aquém do que um produto 2.0 merecia, já sabia o que o 3 trazia de novo, mas apreciar ao vivo e com a responsabilidade de testar e reportar, tem outro sabor,

Ainda sem saber as diferenças entre os vários Ambits 3, depois de o colocar no pulso, pensando que era idêntico ao Fenix 2 a primeira impressão foi excelente. A Suunto fabrica excelentes relógios e o Ambit 3 Sport é nesta encarnação um produto altamente refinado. De toque suave, o acabamento fosco mate da caixa é um mimo. No pulso, tirando a antena GPS que faz o relógio não assentar perfeitamente no pulso (pelo menos no meu encavalita um pouco mas nada que não se habitue), é perfeito. Claro que é um relógio com um grande mostrador, mas para quem anda com um Fenix 2 diariamente não há nada de novo aqui. O que há de novo é que o Ambit 3 Sport não tem a mesma bateria do Ambit 3 Peak (nem do Fenix 2). Assim a Suunto consegue fazer um Ambit 3 com metade da autonomia do Ambit 3 Peak  (e do Fenix 2) mas, muito importante, um pouco mais leve e sobretudo um pouco mais fino. Notem as diferenças:


Peso:
         Ambit 3 Peak  - 89g
         Ambit 3 Sport - 81g
         Fenix 2            - 85g

As diferenças podem parecer insignificantes, mas não são. O Ambit 3 Sport é 10% mais leve e 14% mais fino que o Ambit 3 Peak.

É claro que isto não será um factor decisivo na aquisição, mas se não precisam dos extras do Peak então asseguro-vos que o Sport é bem mais interessante até porque custa menos 20% que o Peak (valores de tabela com cinta HRM).
Claro que o vosso pulso vai sentir a diferença pois o Sport é bem mais elegante e confortável. É uma das coisas que noto em comparação com o Fenix 2, que deve ser muito identico ao Peak  em termos de espessura.

Acho que esta estratégia da Suunto é muito acertada. Segmentou o produto, pois nem toda a gente precisa de 15h de autonomia e de barómetro (Peak) e consegue atingir mais clientes que se calhar iam torcer o nariz a usar um relógio tão grande para fazer apenas umas maratonas ou umas provas de trail mais curto. O Sport tem 8h de autonomia no modo 1seg de dados de GPS (ou seja GPS sempre ligado) que é mais do que suficiente para a maioria das pessoas.

Que diferenças há mais entre os 2 modelos? A Suunto responde neste link. Em resumo todas as diferenças se resumem a três coisas. O Peak tem uma bateria com o dobro da autonomia, tem um barómetro atmosférico e um sensor de temperatura.  Se não precisam destes extras o Ambit 3 Sport poderá ser o relógio que procuram e só têm de continuar a ler os próximos capítulos para o saberem.

Stay tuned....!

UTAT 2014 - Disseminação!



Em 2012 juntamente com o Luis Canhão descobri o UTAT, Foi uma revelação. A história dessa prova está neste post. Foi a maior aventura da minha vida, vi jeitos de ficar ali na montanha, sofri com o frio, com a dureza das subidas, com uma descida tenebrosa sem fim, mas tudo foi superado. 
E quando nos esquecemos das partes más, fica uma vontade enorme de mostrar aos amigos os tesouros que há no Atlas. Não têm qualquer valor financeiro, o que os torna inestimáveis e muito mais valiosos.

Esta nova viagem ao UTAT surgiu de uma negociação duríssima com o Luis Trindade. Bora fazer a TransGranCanária que depois vou ao UTAT. Bora! E foi assim. 

Depois foi só juntar o maior número de amigos possível. Queria passar a mensagem, quantos mais melhor. Nesta prova é possível conhecer um pouquinho de um país fantástico e quebrar alguns mitos, preconceitos e julgamentos errados sobre o que é Marrocos, obviamente apanhando pelo caminho um brutal e gigantesco empeno, com uma passagem aos 3660m de altitude e mais umas quantas acima dos 3000m. Desenganem-se os que pensam que o UTAT é uma prova vulgar, igual a tantas outras que temos aqui na Europa. Ah e tal 6500 D+, já fiz esta aquela e a outra. Desenganem-se. O Atlas vai cobrar o seu preço e só os mais fortes o vencerão. O tempo máximo de 36h denotam uma aposta da organização em que o maior numero de pessoas acabem a prova. E parece-me acertado dado que este ano em 112 participantes só houve 2 desistências. Chamam-lhe a mais dura prova naquela distância. Se não fôr verdade estão muito perto disso.


Assumi o risco de organizar, tanto quanto possível, uma viagem que ficasse gravada para sempre na memória dos amigos que nos quisessem acompanhar. Voo directo de Lisboa com regresso via Marrakech e pernoita num Riad tão bom quanto em conta. Passear na medina para limpar o ácido lático que restasse, comprar recuerdos para as Marias e para os Manéis e regressar ao lar sem problemas de maior ao fim de 6 dias/5 noites; umas mini-férias.

Não vai ser esse registo que vão aqui encontrar. Estes dias que passámos são património de cada um. Até porque seria exaustivo e aborrecido resumir por palavras tudo o que passámos e nos divertimos. 

Mas quanto à prova vou deixar-vos um pequeno resumo do que é regressar ao UTAT 105Km.

Há 2 tipos de pessoas que gostam de correr em montanha. Os que ainda têm de ir ao UTAT e os que já foram ao UTAT. Dento deste ultimo tipo temos ainda os marados que regressam novamente para um 2º round (diria casmurros). Engraçado como só me comecei a aperceber da loucura que é regressar ali, quando nos abastecimentos me diziam o que vinha a seguir e eu respondia que já sabia pois já tinha feito a prova. Invariavelmente perguntavam-me se não tinha sofrido o suficiente da primeira vez. E de facto ia-lhes dando cada vez mais razão à medida que progredia na prova.

Depois de um começo calmo quanto baste em que tentei chegar com o Paulo Martins o mais fresco possível aos 30km, que é  onde efectivamente começa a prova, enfrentámos a 1ª subida a sério. Dia muito agradável depois de ter conseguido passar aos 3100 metros ainda sem o sol nascer e só de t-shirt. Foi uma excelente estratégia. Nem sei como suportei a ventania horrível e gelada naquele primeiro pico, mas o certo é que a coisa acalmou e ali estávamos nós a subir forte e feio após cerca de 4h. 

O Paulo começa a quebrar e a ir-se abaixo, tonturas, vómitos e eu começo a ver o caso mal parado. Falta muito para acabar a subida pergunta ele aos 2000m. Fingi que nem ouvi a pergunta pois aguardáva-nos subida por mais 2h30, Cada vez mais difícil progredir e depois de pararmos algumas vezes não tive outro remédio senão deixá-lo ali a recuperar. Com uma bela vista e uma boa sombra a pretegê-lo do forte sol que se fazia sentir no vale. Contrariado e triste segui sozinho, Era o primeiro revés da nossa aventura.

Sentia-me forte, os pés a acusarem algum desgaste mas fisicamente estava muito bem. Apenas uma queda em que me recordei que não se deve correr com aneis pois podem prender-se em qualquer sítio e arrancar ou cortar facilmente um dedo. Chego ao Km 68 em pouco mais que 30º lugar e com menos 2h do que em 2012. De facto estou bem melhor. Peço ao podólogo para me dar uma vista de olhos nos pés. Seca-me uma bolha com um produto que não fixei o nome, liga as zonas mais massacradas com tape e fiquei fino. Arranco para a subida dos 3660m como novo, Mantive as 2 horas de diferença e ia fazendo contas. O percurso começa a parecer-me diferente de 2012. A princípio atribuí ao facto de em 2012 ser já de noite quando comecei a subir e este ano ainda dar para ir ver o pôr do sol lá em cima, coisa que nunca imaginei possível. Estava deveras surpreendido e embora soubesse que faltavam apenas 37Km de prova, teriam de ser calmamente feitos em 12h ou perto disso. Mas ainda o dia era uma criança...

Ataco a subida determinado a ver o por do sol lá em cima. Decididamente não reconhecia aquele vale. As paisagens eram de cortar a respiração. Sigo já na minha posição quase definitiva, afasto-me lentamente de companheiros mais lentos a subir mas não vejo ninguém mais acima. Não via, porque de repente alguém a descansar pergunta, Pires?
Era o Trindade que estava a descansar. Depois da felicidade de encontrar alguém para falar ao fim de 7 horas, fiquei preocupado. A pouco e pouco fui-me apercebendo que o Trindade não estava bem e como estava fora de questão, nesta altura, abandonar um companheiro em dificuldades lá seguimos juntos.
Esperava-nos uma das partes mais duras da prova. A duríssima ascenção aos 3660m seguida da irracional descida de pedra e cascalho solto com uma inclinação pouco razoável e que se prolongaria durante 2000m D-

O estado do Trindade agravava-se e não estava a ser fácil progredir. A ideia seria ir até Imlil, o 3º abastecimento da prova, aos 88Km. Também da minha parte, não sei se apenas pela descida ou pelo ritmo lento e paragens contínuas, os meus pés começaram a sofrer mais do que o desejável tendo torcido várias vezes o tornozelo que já vinha frágil da subida Loriga Estrela-

Nisto, do nada surge o Paulo Martins. Vinha cheio de pica, já tinha levado pontos na canela no PC aos 3500m e tinha renascido para a vida. Lá lhe expliquei que seguia com o Trindade e acabou por seguir mais rápido.

As 6 horas estimadas para chegar a Imlil transformaram-se em 8h. Em Imlil e depois de ter de tratar novamente dos pés aparece o Sérgio Cacheirinha. Traz más notícias. Deixou a Paula Penedo no Km50 totalmente infeliz. Ia abandonar e viu-se forçado a seguir sozinho. O Trindade opta por ficar a descansar mais um pouco e seguir depois com o Sérgio e eu que só queria ver o fim à coisa meto-me ao caminho. Estes 17Km seriam feitos em 4h30 muito por culpa dos 1400 D+ mas também dado que já ia muito massacrado dos pés. Já não estava a desfrutar da prova há muito tempo.

Ainda assim foi possível fazer a prova em 25h18m tirando 1h30 ao meu tempo de 2012. Teria sido possível fazê-la em menos de 23h mantendo-me nos 30 primeiros, se tivesse sido possível manter o ritmo? Quem sabe...

De qualquer forma, depois de tanta preparação e planeamento, para mim todos os objectivos foram largamente superados, o ultimo dos quais aconteceu já ao final da tarde quando a Paula Penedo entra no quarto e surpreende toda a gente quando anuncia que tinha acabado de cortar a meta. Estávamos convencidos que tinha ficado no Km50 mas qual quê. Quando recuperou a calma decidiu acabar o que tinha ali vindo fazer. E mais nada! Meteu-se ao caminho e ainda bem. Todos tínham superado os 105Km, todos tinham conhecido e vencido o Atlas.

O meu objectivo tinha sido atingido. Sei que não terá corrido da melhor forma a todos, eu incluído, mas globalmente a viagem de descoberta do Atlas foi um enorme sucesso. Acredito que todos adoraram ir fazer o UTAT e que nunca esquecerão estes dias fantásticos que passámos, a generosidade e simpatia dos marroquinos e dos berberes, a excelente organização, a boa comida, as parvoíces e as galhofas, os boches, os douradinhos e outras palermices semelhantes, as quinquelharias marroquinas, o chupa chupa Maria, o mestre Massoud especialista em telemóveis, e tudo o resto.

Agora sei que mais alguns compreendem porque esta prova me marcou tão profundamente. Voltaremos?

Para além de algumas das fotos da viagem que podem ver neste link aqui ficam algumas fabulosas imagens. E vocês? Atrevem-se a desafiar o Atlas?




Hey fenix! Sync my fitness!


Há algo de mágico no sincronismo automático de dados entre aplicações ou sites. Então se houver aparelhos que se sincronizam entre si para manter todos os vossos dados interligados é irresistível. Há poucos dias reparei qua a Garmin tinha feito uma parceria com a myFitnessPall, uma app de contar calorias, para que o Garmin Connect e o myFitnessPall partilhassem informação entre eles. O Connect diz ao myFitnessPal o exercício que fizeram e o o myFitnessPal diz ao Connect o que comeram. Depois cada site integra esses dados e tem em conta as calorias que comeram e que gastaram.

Com o ultimo update para o Fenix2 a ligação bluetooth estabilizou. O sincronismo automático está a funcionar na perfeição entre o meu Galaxy S4 e a App do Garmin Connect. Fiquei curioso em ligar mais esta camada adicional: calorias! Até porque quero perder 5Kg. 
Ok toca a experimentar a App do myFitnessPal.  Usar um contador de calorias foi algo que nunca me entusiasmou, é um facto, mas com a sincronização com o Connect... hummmm... bora lá experimentar. 

Resultado: tou fan do processo. É simples inserir os alimentos. A app lê códigos de barras e conhece imensos produtos de forma instantânea. Se não houver código de barras a pesquisa resolve o problema. Fazer o log de tudo o que comemos não é assim tão difícil. A app traça um plano de ingestão diária de calorias em função do que pretendem, perder ou ganhar peso. Em função da quantidade sugere valores semanais e traça uma meta diária de calorias. A parte interessante é que depois recebe as calorias que gastaram nos vossos treinos, directamente do Connect e entra em conta com elas nos valores diários e estima o peso que irão ter dentro de x semanas.


Mais do que uma fobia de contar calorias, o processo é interessante porque contar calorias vos dá imensa informação sobre os alimentos. Cada alimento está totalmente detalhado em termos de nutrientes. Aprende-se muito. Ao somarmos os ingredientes por vezes ficamos de boca aberta. Por exemplo, uma sandocha mista com um suculento pãozinho integral cheio de apetitosas sementes pode chegar quase às 500 Kcal....

Por outro lado quando tentamos alterar o nosso peso, seja para cima ou para baixo, é importante seguir um plano. E de facto todo este sincronismo ajuda-nos a manter a motivação. Vemos algo a acontecer, sabemos se estamos no bom ou no mau caminho, dia a dia.


Tecnologicamente o fitness sync é a ultima tendência dos gadgets. GPS, saber onde estamos, quanto corremos, boring, demasiado 2010 já :)

Agora há todo o tipo de pulseiras que calculam as calorias consumidas, as horas de sono, os passos que deram e enviam para todo o tipo de Apps de nutrição.

Veja-se o novo Suunto Ambit 3 que de novo praticamente só traz o bluetooth sync para permitir todas estas interligações. Ainda antes de chegarem em massa os smart watches, lá mais para a frente quando a Apple lançar finalmente o dela (que obviamente será altamente inovador e o melhor smart watch do mundo com honras de abertura dos telejornais) irão dar por eles. Entretanto com o fenix 2 podem já ter um cheirinho do futuro com as notificações do Android ou iPhone a serem apresentadas no relógio. 

Para já estou a gostar da experiência integrada de todo o processo. Chego do treino e assim que o fenix 2 está ao alcance do telefone, envia automaticamente o treino para o site do Connect, que por sua vez envia automaticamente os detalhes para o myFitnessPal. Quando vou inserir qualquer refeição ou alimento no myFitnessPal já o moço tem lá o meu treino e com isso o respectivo bónus de calorias. Depois passa-me a mão pelo pêlo. "Se todos os dias fossem como este teria 75 kilos no dia 25 de Agosto" Ah amigo! Obrigado :)
Obviamente o Connect também recebe a informação do myFitnessPal relativamente ao que comeram e faz uns bonitos gráficos.

Agora percebo o fitness sync que aí vem, mais cedo ou mais tarde estará por todo o lado. Bem vindos ao futuro.

Importa referir que todo este automatismo requer as ultimas gerações de relógios da Garmin: fenix, fenix 2, 620 ou 220, bluetooth 4.0 bem como o Android 4.4 ou iPhone 4S. Divirtam-se!

Running Reviews: Salomon - S-Lab Advanced Skin Hydro 12

Running Reviews: Salomon - S-Lab Advanced Skin Hydro 12: A Salomon S-Lab Advanced Skin Hydro 12 é ultima versão das já conhecidas mochilas de hidratação "topo de gama" da Salomon. Não percam mais uma review no melhor blog de video reviews


Running Reviews Paulo Pires - Está no ar um novo projecto!





Agora subscrevam o blog, o twitter, o facebook e o que mais houver. Estejam atentos às primeiras reviews. Espero que gostem e que a nossa opinião seja útil.

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E também obviamente irei dar-vos conta aqui no meu blog quando sair algo de novo.

Basicamente é como diz o gajo da barba: estamos em todo o lado!

A Febre da Corrida - Uma reportagem a não perder

Uma reportagem bem interessante da RTP sobre os vários grupos de pessoas que se juntam para correr e a forma como a corrida muda a vida das pessoas. Muitos amigos e caras conhecidas. Agradeço ao João Campos e ao José Levy, bem como a todos os amigos dos Treinos Lunares que participaram nesse treino. Para a posteridade ficam as imagens. 





Get Ready for UTSM 3ª edição 100Km - A primeira vez é sempre na 3

Tenho recebido imensas perguntas de amigos com duvidas relativamente aos 100 Km de Portalegre. O que hei-de levar, e o calor, e o ritmo, e isto e aquilo e o outro.

Com 700 inscritos há imensa gente a aventurar-se pela primeira vez nos 3 dígitos. Acho muito bem. Uma prova de 100 Km não é nenhum papão. Desde que devidamente preparados e com alguns cuidados e precauções a prova de Portalegre é uma óptima prova para se fazerem 100 Km pela primeira vez.  Ao contrário do que muita gente pensa, a altimetria da prova vai permitir-vos alternarem a marcha com a corrida e assim suportarem melhor a distância. Seria bem mais complicado fazer 100 Km planos em que há muito poucas razões para andar... 
Para além disso estamos numa serra alentejana com bonitas paisagens, gente simpática, boa comida, uma festa.

A minha ideia é dar-vos algumas dicas que vos ajudem a superar estes últimos momentos de ansiedade crescente.


Dica numero 1 - Parem com a porcaria dos treinos
Não se treina nada a 15 dias de uma prova. O que havia a fazer em termos físicos foi feito, ou não. Não interessa. Acabou. Só estão a desgastar-se. A ideia é acumular energia, curar pequenas mazelas e lesões. Pequenas corridas com os amigos, nada de esforços. Poupem. Não tenham sentimentos de culpa por não estarem a fazer nada. Não vão engordar. Vão com vontade de correr e não exaustos e fartos de treinar. Isto é óbvio mas vê-se muito pouca gente a fazê-lo. Nesta fase faz-vos muito melhor não treinarem do que treinarem

Dica numero 2 - Sim estão prontos
Ah será que estou pronto? Sim. 90% de uma ultra está na vossa força de vontade, não está no treino X, Y ou Z. Portanto o único pensamento possível é: Sim, treinaram o suficiente e sim estão prontos e vão acabar. Claro que os outros 10% convém terem sido feitos. 




Dica numero 3 - Não é como começa, é como acaba
Vai ser um dia inteiro na serra, ou melhor, uma noite e depois um dia inteiro ou quase. Têm tempo! Não é tempo para se sentarem a ver a vista ou a contar anedotas. Mas têm tempo. Mantenham um ritmo vivo a andar, corram sempre que se sentirem bem, descansem um pouco se necessário, mas sobretudo deixem uma reserva de energia para os últimos 20 - 30Km. Se aí conseguirem correr mais do que andam então geriram bem o vosso esforço. Uma ultra é uma competição de gestão de esforço. Não vão acima das vossas possibilidades, bem pelo contrário. Vão sempre abaixo. E nas ultimas horas se o corpo estiver bem, então aproveitem e desfrutem. Vão com certeza fazer um excelente tempo se conseguirem gerir o vosso esforço. Não é ronha para depois terem força, é esforço equilibrado e depois no final serem capazes de ainda dar qualquer coisa.

Dica numero 4 - E o calor?


O calor é como todas as outras dificuldades. Protegerem-se bem do sol, reduzir o ritmo inevitavelmente, mas sobretudo reforçarem a ingestão de sal. A questão do sal, por vezes ignorada por pessoas com menos experiência, é fundamental. É importante mantermos algum equilíbrio de sais minerais no nosso corpo. Quando esse equilíbrio se deteriora porque perdemos muito sal, vários sintomas podem surgir, cansaço extremo, má disposição, tonturas. etc.
Numa ultra o corpo está sujeito a um esforço enorme. São horas e horas de esforço e transpiração. Quando transpiramos perdemos água e sal. Todos sabem isso. Se estiver muito calor vamos beber ainda mais água e logo transpirar ainda mais. Quanto mais tentamos hidratar mais vamos desgastando o nosso equilíbrio salino, por assim dizer. Por isso é importante repor sal. 
A dificuldade aqui é saber as quantidades. Há quem transpire mais, há quem pouco transpire, há quem tenha mais necessidade de sal, há quem suporte melhor. Não há uma receita única. É a experiência que vos pode ajudar. Claro que a experiência é coisa que quem está a começar não tem. Mas fiquem com esta ideia. Nos abastecimentos há sempre salgados. Atirem-se a eles sobretudo nas horas quentes. Também podem procurar nas farmácias por comprimidos de sal para a desidratação ou Dioralyte. O Dioralyte foi recentemente aprovado à venda no nosso mercado e é um pó à base de sais que vai combater a desidratação. É muito usado há vários anos noutros países. Não tenho experiência da sua utilização. Eu uso uma solução aquosa de electrólitos, altamente concentrada. No fundo o que interessa é meter sais. Esqueçam as bebidas isotónicas para repor o nível de sais que perdem. É para meninos. A quantidade de sais que contêm é insuficiente para esta função num dia de extremo calor. 
De resto não entrem em paranóia. O calor é perfeitamente normal e além disso só vai ocorrer entre as 13h e as 18h, no máximo. Uma pequena fracção da vossa prova. Aproveitem para baixar o ritmo nessa fase. Não culpem o calor e não se martirizem com isso. São vocês que vão ficar a perder se se deixarem afectar psicologicamente. 
Relacionado com o calor está o sol forte e deste é fácil protegerem-se. Levem um bom creme protector e apliquem generosamente em todas as zonas expostas. Diria que basta mandarem o creme para Marvão. Antes de o sol começar a apertar a sério já todos terão de lá ter passado. Se antes das 14h não estiverem em Marvão dificilmente irão acabar a prova. Marvão fecha às 14h. 
Levem um boné com protecção do pescoço. Deixem-se de panisguices. Protejam-se! 

Dica numero 5 - Fricção
São muitas horas a roçar, seja o que for que roce. Não sei se todos os PAC's têm algum tipo de creme gordo que estejam a precisar. E mesmo que tenham irão demorar mais de 2 horas entre alguns PAC's. Numa ultra devemos ir sempre confortáveis e qualquer problema que surja deve ser endereçado o mais rápido possível, sob pena de se poder agravar muito mais, podendo mesmo ameaçar a conclusão da vossa prova. Um tubo de vaselina poderá ser milagroso em algumas situações e não estou a falar dessas situações. Com base no conhecimento que já devem ter do vosso corpo decidam se vale a pena carregar com mais esse acessório

Dica número 6 - A noite
A noite é muito cansativa por si só. É muito exigente para a visão, a luz branca dificulta a percepção dos desníveis do terreno, impede a correta avaliação das subidas e também das descidas por limitar o campo de visão. Ao fim de umas horas vão estar cansados de correr com a luz do frontal. Se foram precavidos fizeram umas horas de serra à noite para se habituarem. Senão vão ter muitas para aprender. O dia só começa a nascer por volta das 6h. 

Dica número 7 - E o ritmo?
Esqueçam os Km’s. Configurem o vosso relógio com GPS para terem o ritmo médio sempre visível. Este será o vosso verdadeiro conta quilómetros. Não interessa quantos já fizeram, quantos faltam, que horas são, nada disso interessa. O que vocês precisam é de algo instantâneo que vos diga a qualquer momento como vão as coisas. E isso é o ritmo médio. Não o instantâneo. Não interessa se vão a 4”/Km ou a 6 ou a 10. O que precisam de saber é o tempo total/Kms que fizeram.
 Vamos então fazer algumas contas. A prova tem 100Kms. O tempo total são 24h, ou seja 1440 minutos. Portanto o ritmo máximo que podem fazer para acabar dentro das 24 horas são 1440 minutos /100 Km = 14,4”/Km. Como há alguma margem de erro no GPS façam as contas por cima. Contem logo com 103 ou 104Km nas vossas contas. Isto irá dar um ritmo máximo perto dos 14”/Km
Este valor é o vosso redline. Não o podem ultrapassar sob qualquer pretexto. Se virem este valor no vosso relógio significa que se o conseguirem manter até final conseguem acabar dentro do tempo, se o ultrapassarem já foram. Claro que podem sempre dar ao pedal para fazer baixar o valor e acabar dentro do tempo. Se conseguirem claro.
Mas não planeiem a vossa prova com este valor. Não vão sequer perto dele porque o risco de depois não conseguirem recuperar é enorme. Além disso no final quando estiverem com pouca capacidade para correr o ritmo vai inevitavelmente degradar-se.
Agora façam as vossas contas. Imaginem que querem fazer 18 horas de prova. Isto dá 1080 minutos. Dividindo por 104Km dá 10,4 minutos/km. É este valor que devem evitar ultrapassar.
Inicialmente a coisa é simples. Enquanto correm e mesmo enquanto andam bem, o ritmo irá estar ali entre os 6” e os 8”/Km. Mas à medida que vão parando nos PAC’s enfrentando subidas duras, etc. o ritmo vai começar a baixar. Mas basta meterem uns Km’s de corrida a 6” ou 7” e a coisa recupera. Após os primeiros PAC’s e os primeiros picos o ritmo deverá começar a estabilizar dentro da vossa expectativa e quanto mais para a frente mais difícil será alterarem substancialmente o seu valor.
Contem com uma inevitável degradação final e não se esqueçam dos 14”/Km, o valor fatal. Ah e atenção à margem de erro do GPS. No final o GPS poderá indicar mais 3 ou 4Km, é normal.
Façam algumas contas com vários tempos para memorizarem a que ritmos correspondem e assim durante a prova conseguem logo ir estimando que tempo vão fazer. Isto dá-vos algum descanso e podem usar o cérebro para outras funções mais interessantes.
Esta é a melhor utilização que podem dar ao vosso GPS numa Ultra.

Dicas genéricas
Queria evitar estar aqui a queimar o vosso tempo com basicidades que toda a gente que se inscreve numa prova de 100 Km já devia saber, tipo alimentem-se sempre bem, hidratem-se bem, etc. etc. Mas aqui ficam algumas coisas que devem ter em conta. 
Não percam demasiado tempo nos PAC's. São 10 PAC's. Se ficam 10 minutos, em cada um é mais de 1h30m que vão perder. Pode fazer a diferença entre serem fnishers ou não. 
Vão com um andamento sempre forte, mesmo a andar. Atenção à cena do "vamos juntos" a não ser que tenha sido previamente combinada e aceite por todos, pode ser um motivo de frustração. Ir com o X, o X cada vez com mais dificuldades, depois o X desiste e vocês que até iam bem já não vão ter tempo de concluir a prova. É óptimo fazer a prova com companhia mas pesem bem a questão e sobretudo sejam fortes para seguir sozinhos quando tiver de ser. É a vossa prova. Não é por equipas. Não é fácil termos alguém que tem exactamente o nosso ritmo. Alguém está a ir acima ou abaixo das suas possibilidades e depois pode ser frustrante.... Habituem-se a fazer a vossa prova. Desfrutem da companhia de quem forem encontrando pelo caminho ou de quem forem conseguindo acompanhar. Saibam ficar para trás se a corda estiver a esticar muito. 
Evitem a ultra caminhada. Forcem o corpo a correr sempre que possível. Vão chegar ao fim todos empenadinhos, andem mais ou menos. E já que é para empenar então empenem isso em condições.

Se houver algum tema que não tenha referido e que considerem importante ou que vos esteja a apoquentar não hesitem em perguntar e eu acrescento.

BOA PROVA A TODOS! 


Get Ready for UTSM 100Km

Esta vai ser a base do meu treino para Portalegre. Para além de algumas provas, um ou outro treino mais longo, muito descanso e alguma natação, o foco principal vai ser reforço muscular. Neste treino podem encontrar um conjunto de exercícios fundamentais para um reforço muscular muito eficaz. Não precisam de mais nada do que a vossa força de vontade. Pensam que estão em forma? Pensam que estão fortes? Querem ficar todos empenadinhos sem correrem 1 Km sequer? Então aqui fica o desafio: Vejam o vídeo do princípio ao fim, tirem notas, façam 1 circuito completo, apenas 1. Claro que não vão conseguir sequer. Alguns exercício são extremamente difícies, mas chega. Depois no dia a seguir falamos. 

3 vezes por semana. Até Portalegre pessoal!



MIUT - A Meca do Trail em Portugal (parte 2)

...Continuação da 1ª parte

Já há uns Kms que trazia a sensação que poderia estar a fazer uma bolha num calcanhar e estava à espera do abastecimento para pôr um pouco de Nok na zona. Já tinha planeado demorar um pouco mais, reabastecer bem porque a subida tinha sido dura, meter água e fazer uma rápida manutenção no pé. 

Mal chego ao abastecimento montes de gente. Sentados cá fora o Trindade e o Nelson, o Didier e o Bruno também por ali a tratar de abastecer. Percebo que vim a andar bem (ênfase para o andar). Enquanto como e bebo o Didier e o Bruno arrancam e percebo que o Trindade e o Nelson Diogo vão esperar por mim. Que fixe, pensei. Companhia!!! Verifico o calcanhar, sem problemas, ponho um pouco de Nok preventivo apenas.

E assim se formou o trio da Margem Sul. Esperava-nos uma descida gigantesca de 1200m. Muito bera ao princípio, estradão de cascalho solto, grande inclinação, depois novamente floresta, degraus de todos os tipos e formatos, trilhos lindíssimos, muito antigos, com túneis. A paisagem muda constantemente, escadarias com toros de madeira, degraus de pedra, o mar, a floresta, eu sei lá, nunca nos aborrecemos. A conversa segue animada com os piropos do costume. Desfrutamos a sério e não nos cansamos de elogiar tanta beleza. Que privilégio poder ver tantas maravilhas de uma vez só.

Uma das belezas desta prova é que os trilhos são gigantescos e sem bifurcações ou quase, de tal forma que se podem fazer muitos kms em trilho único quase sem precisar de fitas. De vez em conta damo-nos conta disso mesmo. Há quanto tempo estamos neste trilho. O tamanho disto é impressionante.

Já dá para apagar os frontais, seriam talvez 7h30, mesmo nas zonas mais escuras da floresta já se vê bem o chão. Nisto surge uma descida fantástica, diria um leito de ribeira completamente coberto de folhas. Piso espetacular. Impossível correr devagar ali. Começo a acelerar e se vínhamos devagar e a ser passados por alguns atletas, ali acabou-se. O Trindade não resiste e vem desembestado atrás de mim a tentar apanhar-me aos gritos pelo vale abaixo. Este trilho é inesquecível tal o gozo que me deu.

No final um salto para um trilho mais abaixo, em pleno salto um pé prende-se numa raíz escondida, por sorte em vez de tombar para a frente e aterrar de cabeça, rodo o corpo em pleno voo, o pé solta-se da raiz e aterro cá em baixo de costas. Meio a tremer, meio sem perceber como me salvei daquela situação  o trilho acaba e fico a pensar, que grande Ninja que foi esta cena. Acabou bem, portanto siga!
O Trindade fica à espera do Nelson que vem com o limitador de velocidade ligado nas descidas por causa do joelho e eu começo a subida para a Encumeada. 600m dela.



40 e qualquer coisa Km's. Estava tudo bem com os pés. A descida, principalmente esta parte final, tinha-me demolido um pouco a zona pélvica. Mas a culpa foi minha que facilitei nos últimos tempos o treino desta parte do corpo. Algo a retomar em força para Portalegre. Se fosse preciso largar a correr agora, ia ser complicado. Mas não, era para subir. 

Até à Encumeda segui sozinho. Subida quase toda em escadaria de troncos, muito muito dura na parte final. Vejo ao longe a malta do Paredes Aventura. Seria? 3 t-shirts verde alface. Só podem ser eles. Vamos lá tentar ver se são. O Vitor Andrade, o Fernando Salvador e outro companheiro. Com persistência e cadencia consigo alcancá-los quase a chegar ao topo. Seguimos juntos. Os últimos degraus são massacrantes. Foi dura esta subida. Talvez de ter vindo num ritmo forte achei bem dura a parte final. No abastecimento juntamo-nos todos pois o Trindade e o Nelson subiram também muito bem. 

A seguir à Encumeada esperava-nos subir 500m e descer 700m até ao Curral das Freiras, meio da prova, muda de roupa, refeição mais substancial. Depois de descermos um pouco começa a parte cénica. Não vemos o sol pois estamos por detrás dos picos mas é um deslumbramento apreciar todas aquelas paisagens. O trilho segue agora contornando toda a montanha, quase sempre com um precipício escarpado do lado direito. Mas é um trilho largo com chão de lajes grandes. Piso muito bom. Sempre a subir. Fico sozinho, Vou tirando fotos, bebendo água das cascatas. Nas curvas verifico a distância para os meus companheiros, estão ali a 100m e vão aparecendo e desaparecendo ao sabor das esquinas que dobramos. Lá em baixo as aldeias, muitas centenas de metros mais abaixo, vão acordando. Fumegam casinhas e pouco mais se vislumbra daquela minúscula vida. Parece outra dimensão para quem está, como nós, literalmente nas nuvens.

Antes ainda da descida para o Curral das Freiras, que nos tinham dito ser muito perigosa alcanço toda a gente menos o Trindade que fugiu mal viu a descida. Sigo com o Nelson à conversa, sobre as mulheres e as provas, e num instante estamos cá em baixo. Não achámos a descida nada perigosa. Achei mesmo deliciosa. Não percebemos o critério de quem nos avisou. Melhor assim.

Finalmente o famoso Curral das Freiras, encalhado entre gigantescas montanhas que em breve iríamos ter de subir em mais um dos últimos mega pepinos. Ia ser lindo ia. Mas para já, trocar de roupa. Todo sequinho. Que maravilha. Parecia novo. Aqui, percebo agora, cometi um erro, pela ultima vez, e outro que preciso ainda de validar. Troco a minha camisola de compressão de manga comprida por uma de manga curta. Foi a ultima vez que a usei pois é incompatível com a mochila e viria a assar-me as costas e a fazer-me penar na parte final da prova. Troco também os meus Asics Fuji Elite porque eram novos e embora não me estivessem a chatear achei mais prudente calçar os velhinhos Fuji Attack2 para a parte final. Um drop maior, um pouco mais de conforto. Só pode ajudar.... ou talvez não. Vamos ver...

Demorei um bom bocado, nesta operação, o Trindade andava por ali também, tinha optado por ir comer primeiro. Quando chego à zona da comida novamente o Didier e o Bruno. Ainda me chamam para ir com eles. Recuso o convite, com alguma pena, mas ainda precisava de comer em condições e eles estavam prontos para sair. Mesmo assim fiquei surpreso por os ter apanhado ainda ali. Significava que eu estava a fazer uma boa prova até ali.

Depois de comer mais uma canja e uma bela pratada de arroz com carne, e que boa que estava, é hora de seguir. Espera-nos uma parede com 1300m D+ Há provas de 50Km que nem isto têm e a gente ia mamar com eles ali em 8Km depois de quase 12h de prova já. Definitivamente venham preparados amigos!
O Curral das Freiras fechava as 15h estávamos a sair dali bem antes das 12h que era o tempo que tinha estimado para lá chegar.



O trilho começa floresta acima, escadaria de toros. Ligamos o piloto automático e lá vamos a arfar. O trilho sai da floresta e começam as escadas de pedra, sem fim, stairway to heaven, era uma valente subida tal como a outra que fizemos logo no princípio da prova. De qualquer forma achei-a mais fácil. De dia, com o piso bem melhor, em boa companhia.

Tentávamos perceber qual era o Pico Ruivo. Pico é coisa que não falta por ali e com o trilho a contornar continuamente a montanha nunca sabemos bem para onde se dirige. É ali, não, é aquele, aquele? mas como é que isto vai dar ali? Sei lá, tragam-me um pico qualquer.

Paisagens absolutamente fabulosas
Escusado será dizer que estávamos agora a entrar na parte mais impressionante do traçado. Não é tanto a altitude mas sim o perfil do terreno, as escarpas, os desníveis brutais. Mas também a nossa sorte com o tempo. Não havia sol, temperatura amena, nuvens a alta altitude, e uns tufos de algodão espalhados pelos vales mesmo só para glorificarem a nossa vista e as nossas fotos. Visibilidade de Kms. Nunca pensei ir apanhar um dia tão bom e tão limpo até porque os dias anteriores não prometiam nada de bom.

Laurissilva no seu melhor




Dá-lhe Nelson!
Mas se estão a gostar do que estão a ver só vos posso dizer que isto não é nada comparado com o que ainda nos esperava depois do Pico Ruivo e antes do Pico do Areeiro. Nesta altura ainda eu tentava perceber porque raio havíamos de ir de um pico ao outro.


O Pico Ruivo não tem acesso por estrada, só por trilhos. Tem um abrigo de montanha que era onde estava instalado o abastecimento. Aqui havia algum vento frio pois estávamos a passar um colo da montanha. Entro no abrigo e estava muito agradável. Era apenas um ponto de água, coca cola e isotónico. O abastecimento a sério estava no próximo pico. Aqui não era possível ter logística a sério. Já não sei quem chegou primeiro se o Nelson e o Trindade se a Susana. Mas fiquei muito contente de a ver ali. Tinha-a apanhado de madrugada muito enjoada e receei que as coisas pudessem ter corrido mal. Mas não, chegou ali. Vinha em brasa, exausta, doía-lhe tudo, mas estava bem. Achei-a queixosa mas com raiva daquilo tudo. É bom sinal. Queria ir sentar-se à lareira. Eu estava a arrefecer rapidamente. Não podia ficar muito mais tempo ali. Só o essencial para vestir o casaco e sair já a bater o dente. Eles que me apanhassem pelo caminho.


E ali começou uma viagem fantástica. Parecia que estava no reino do gigante tal é a dimensão de tudo o que nos é dado observar. Devido a derrocadas do trilho antigo tinham acabado de colocar escadas metálicas tipo navio e escavado trilhos novos nalgumas zonas. Percebi porquê. Aquilo é único, aquela ligação entre os picos é de tirar o fôlego a qualquer um e não é pela dureza do traçado que é bem agressivo.





Depois de passarmos a tal zona de escadas de navio entramos numa zona que felizmente ainda resiste. As fotos impressionam mais do que no local. De facto corre-se perfeitamente nestes caminhos que são largos e nunca tive qualquer receio ou vertigem. Começo a perceber que todo o caminho entre os picos vai ser assim, escavado na rocha. O Pico do Areeiro está do outro lado? Não há problema, um túnel fura a montanha de um lado ao outro. Talvez o maior naquela zona tivesse cerca de 200m. Por vezes o trilho parecia que ia acabar, mas outro tunel salvava-nos e leva-nos para outro lado. De cada vez que saiamos de um túnel a paisagem era outra. Uma coisa absolutamente única!

Olha o Fernando Salvador

Reparem no pessoal no trilho 

Tuneis levam-nos de um lado para o outro da montanha


Já se vê o Pico do Areeiro mas ainda é preciso penar muito para lá chegar

Se calhar não quero cair aqui

Aqui corri. Eu disse que ia correr aqui!

E pronto!!!!
Exausto mas deslumbrado com tanta beleza desconcertante cheguei ao Pico do Areeiro. Enquanto comia algo chegaram os meus companheiros e por ali ficámos um pouco. A fome não era muita mas era preciso comer. Um parêntesis para falar dos abastecimentos, simplesmente fantásticos. Todos. Perfeito. De tudo um pouco, canja, chá, café, só para falar de quentes. De quando em quando arroz com carne e depois tudo o resto que é preciso, salgados, doces, hidratos. Simpatia de toda a gente. Como vos digo perfeito. Mesmo com algumas horas entre alguns pontos, só comi uma ou duas barras do que levava comigo.

Saímos juntos do Pico do Areeiro e começámos a descer. Tinha chegado ali as 16h, uma das hipóteses que tinha colocado para fazer as 24h era precisamente chegar ao pico com 16h de prova. Tinha agora 8h para concluir os últimos 40km. Embora fosse expectável alguma quebra de rendimento, seria compensada pela menor dificuldade do terreno e pelo menor desnível. Faltavam apenas 1000m postivos para subir neste ultimo terço. O que era isso comparado com os 5800 que já tínhamos subido? Mas haveria outros factores ainda por revelar. A prova iria mudar de novo radicalmente


Desde logo fiquei sozinho. O Nelson quebrou um pouco e o Trindade ficou com ele. Eu fui andando como já tinha acontecido tantas vezes. Já me apanham. Mas não apanharam mais. E lá fui. Só já a vontade de acabar me impelia. Começo a sentir que a mochila me está a aleijar as costas. O percurso mudou um pouco, mas depois de termos comido a cereja no topo do bolo a coisa começa a saber um pouco a pão de ló. Ok, mais umas levadas, mais uma escalada, mais um abastecimento. Anoitece. Os kms passam agora mais devagar. Tenho já bolhas na parte exterior dos calcanhares s o raio da mochila a chatear. Devia ter ficado com os Fuji Elite até final? Devia ter protegido os calcanhares? 

Km 90 oiço falar pela primeira vez num alerta amarelo de chuva para a noite. Fico um pouco preocupado e despacho-me. Vou falando com quem conhece os trilhos nos abastecimento e começo a perceber que não vai ser possível fazer menos de 24h. Segue-se uma grande descida até ao próximo abastecimento. Recupero algum tempo mas cada vez mais a mochila me assa as costas. No Km 96 parece que está quase mas na verdade falttam 20Km. Têm uma embalagem de Halibut e barram-me generosamente as costas. Vai anoitecer e mesmo antes de sair vejo o Angelo que me diz para esperar por ele. Já não o via desde a nossa viagem a Cavals del Vent. Fixe! Companhia de novo.

O Angelo estava um pouco em baixo. Tinha tido dificuldades mais atrás, muito cansaço, mas agora estava a sentir-se melhor. Lá fomos puxando um pelo outro. Ora puxas tu, ora puxo eu. Pusémos a conversa em dia. Já íamos numa zona de trilho de floresta há imenso tempo, o nevoeiro vai-se instalando e dificulta a progressão. O meu frontal começa a ficar sem pilhas e tento seguir só com o do Angelo mas o trilho era demasiado apertado, perigoso para correr naquelas condições e como o abastecimento nunca mais chegava ainda temos de parar e pego no frontal de substituição. Logo troco as pilhas ao outro no abastecimento.      

Faltava agora apenas transpor o ultimo obstáculo; o monte que daria acesso a Machico lá em baixo. Como é normal a olhar para um gráfico de altimetria, desvalorizamos os montículos pequenos. Mas depois no terreno a conversa é outra.

Eram apenas 300m a descer e 300m a subir. Os 300m a descer de algum perigosidade e os 300m a seguir.... vamos ver o que nos espera.

Seguíamos nós pelo estradão no meio do nevoeiro a tentar perceber onde começava a descida perigosa, uma moça segue sozinha estrada fora. Susana!!! Eh miúda. Está quase. Estava na fase alucinante. Ainda bem que vos vejo, estava-me a passar, agora não vos largo, façam o que têm a fazer que eu vou atrás, aqui é que não fico. Ok vamos embora. Começa  a descida, escorregadia, terra, a meio um pequeno posto de controlo. Falta muito? Não, é já ali, descem mais um pouco. Treta. Íamos descer e descer, enfim, o normal, 300m, o que é que queríamos?
Às tantas diz-me o Angelo, já não sei daquela moça, ficou para trás. Oopps, deixa ela é rija, ela vai ao ritmo dela. Desculpa Susana mas a cabeça só já queria livrar-se da prova.

Entroncamos na subida e que subida. Dureza mas também nevoeiro a dificultar a progressão. Pior que tudo sabia que era um morro para subir e descer do outro lado, mas que lado? Com tanto nevoeiro já não se sabe para que lado é lado. Jà subimos tudo? A resposta era dada por um novo lote de degraus verticais. Ainda há forças para passar um ou outro companheiro. Levo o frontal numa mão em baixo para evitar o encadeamento provocado pelo nevoeiro. É uma grande ajuda mas perco uma mão. A outra mão na alça da mochila alivia a mochila a roçar nas costas. As bolhas nos pés sempre a dar sinal, felizmente são de lado e não me impedem de progredir. Mas o trilho ali complicas-se, muito calhau para saltar, preciso de usar as mãos constantemente. 

Depois de quase me espetar contra o marco geodésico percebo que agora só resta descer. O que não melhora em nada a progressão. Entre escorregar e saltar calhaus não sobra nada. Ouve-se musica ao longe. Primeiros sinais de Machico? Vou sonhando com as hipóteses para justificar a musica. Sonhava com um miradouro ali perto e depois uma estradinha que nos levasse até lá abaixo.... faltavam descer 600m. Quando vejo Machico pela primeira vez... dureza até lá abaixo, quais estradinha.

Cheirava a meta mas ainda faltava penar um bocado até lá chegar. O Angelo tinha ficado atrás de um companheiro espanhol que passei e seguiu atrás dele a pensar que era eu. Eu seguia sozinho. Ultimo abastecimento a meio da descida. O Ricardo estava lá e diz-me que espera se eu não demorar muito. Muito? Vamos embora que quero chegar. O Angelo também chega entretanto a queixar-se que vinha atrás do espanhol a pensar que era eu e só começou a estranhar quando falava com ele e ele não lhe respondia. LOL!

Descemos juntos mas já vou a gerir as dores todas por ali abaixo. Uma de cada vez se fazem favor. Amaldiçoamos a organização que nos faz andar ali às voltinhas em vez de nos deixar descer a estrada a 4"/km.

Vamos lá tentar acabar ainda nas 24 horas. No final dos últimos degraus vejo a Dora à minha espera. YEESSS!!! Tá feito o MIUT. A meta estava tristonha, parecia que tínhamos chegado depois da festa acabar. E tínhamos claro. Mas foi o que se pôde arranjar. 

Depois de reabastecer algumas imperiais e tentar mastigar uns nacos de carne foi só subir ao quarto, tomar um merecido banho e aterrar na cama. 

O que fica depois da poeira assentar e de destilar um fantástico "day after" de relax total? 

- Organização irrepreensível ao nível do melhor que já vi. Centenas de voluntários distribuídos em abastecimentos, postos de controlo, locais de passagem, quase impossível perdermo-nos. Levava o track no relógio e não olhei para ele uma única vez. É desfrutar do percurso pois para além das marcações excelentes, em todos os locais em que é preciso mudar de direcção, quase sempre estava alguém.
- Paisagens únicas no mundo. E estou a falar a sério. Laurissilva lembram-se? Esta ilha é uma coisa impressionante. É um previlégio poder atravessar a ilha a correr e passar em locais maravilhosos, de uma beleza única.
- Abastecimentos impecáveis, simpatia e boa disposição de toda a gente. Informação sobre o ponto atual e o ponto seguinte. Altitude, desnível e Kms. Boa comida também.
- A prova não é barata mas se pensarmos que é uma prova de nível mundial, então só falta mesmo um patrocinador de renome para a coisa ficar equiparada às grandes provas por esse mundo. Nesse escalão, que é onde ela merece estar, é uma prova até acessível.
- Dizer de novo e não é pouco. Esta prova merece fazer parte do circuito mundial das grandes provas. Não falta nada, pelo menos o principal está lá.

O que se podia melhorar? 

Só coisas subjectivas mas aqui fica o que acho que pode ser melhor:

- A medalha é muito bonita e o tempo gravado é um espetáculo à parte. Mesmo assim preferia um colete de finisher. Posso usar mais vezes para fazer pirraça aos amigos, levar para eventos. Só isso faz logo nascer uma conversa do MIUT, logo mais visibilidade para vocês. A medalha é bonita mas guardo aqui por casa depois enferruja, fica feia e fico triste.
- A refeição final era uma excelente intenção mas à hora que cheguei, e até nem cheguei tarde, não funciona. Tudo frio, rijo e impossível de deglutir. Talvez a malta da tarde tenha outra opinião mas para quem chegou à noite e durante a noite, esqueçam. Talvez coisas que não se transformem em solas e que suportem melhor o calor que também era pouco.
- O traçado final é um pouco exigente para quem fez 100Km de uma grande dureza. Mas atribuo grande parte dessa dureza às minha debilidades finais e embora tenha dito cobras e lagartos quando cheguei, enfim. Se estamos a descer é porque estamos a descer e escorrega, se estamos a subir é porque é duro, se é plano é preciso correr e estamos exaustos. Fica a opinião do que senti na altura. Não sei se a prova precisa de ter 115Km com  15Km finais  para fazer 300m D+ de grande dureza.


Nada disto teve muita importância a comparar com o monumento que é a vossa prova. Muitos parabéns. Que grande evento aí têm. Creio que é fácil concordar que é o melhor Ultra Trail nacional e seguramente um dos melhores do mundo. 

Amigos antes de irem a correr inscrever-se já sabem. TREINEM que a coisa é dura. Esta não é uma boa prova para se estrearem nos 100Km mas é uma prova fundamental que vos ficará para sempre na memória como uma das melhores senão mesmo a melhor prova em que participaram.

Por fim não posso terminar esta crónica sem dar os parabéns à minha Trailer favorita que me encheu de orgulho pela forma como abraçou esta viagem e por ter, em boa hora, decidido participar. Obrigado também à Maria Azevedo pelo seu gesto que possibilitou a participação da Dora. Obrigado a todos os amigos que passaram estes fantásticos dias connosco, foi uma viagem inesquecível. 

Termino como comecei, ou muito parecido:

"Chama-se MIUT o ultra trail na Madeira que é obrigatório, pelo menos uma vez na vida, para todo o amante de trail adulto, desde que este disponha dos meios económicos e goze de saúde in Runbook de um gajo que mudou de vida"

Talvez por ser o menos importante quase me esquecia de referir a minha classificação. Partiram 189 atletas para os 115Km, terminaram 128. Fiquei em 50º com 24h58m13s, 5º do escalão M45.
A classificação pode ser consultada neste link. Agora sim está terminado o MIUT!