Injinji - Correr de luvas...nos pés!


As meias com dedos já existem há muitos anos, mas foi por volta do ano 2000 que 2 irmãos numa longa caminhada em montanha ficaram sem meias limpas e com uma prova de trail running no dia seguinte, Joaquin sugeriu a Randuz que corresse com umas meias de dedos arco-iris. Não sei se terão sido umas deste género, mas como em muito boas ideias esta nasceu de uma necessidade. Segundo consta, a prova deve ter corrido mesmo bem porque a partir dessa noite seria o início do que viria a ser a Injinji.
Podem ler este artigo muito interessante que conta a história do nascimento da ideia e da empresa. Sigam este link

16 anos passaram e a Injinji alguma coisa deve estar a fazer bem porque passado aquele momento "Woowww!!! Qué qué isso?" em que temos alguma dificuldade explicar aos amigos porque estamos a tentar calçar uma luva, o que é que fica? Vale a pena ter os amendoins agasalhadinhos assim um a um? Qual a vantagem? Vamos lá então falar de meias.

Já há muito tempo que lia sobre as Injinji mas nunca me deu para mandar vir umas de fora. Do que lia quem usava já não queria outra coisa e jurava a pés juntos pelo conforto da coisa. Eu sou o tipo indicado para vos falar de meias porque tenho pés de cinderela e invejo aqueles gajos que até podem fazer 100 milhas com meias de serapilheira que nada lhes acontece. É um facto que com os anos os meus pés lá tiveram de se adaptar um pouco, não tinham outro remédio. Mas ainda assim quando têm de passar 10, 20 ou 40 horas em cima das pernas, a correr, escalar, escorregar, torcer, tudo sabe melhor se os pés tiverem o máximo conforto possível.

Há 3 factores fundamentais a ter em conta que nos podem causar problemas nos pés; calor, fricção e humidade. São estes factores que os fabricantes tentam atenuar com o conjunto de fibras que usam nos seus produtos. Se costumam ler as etiquetas das meias à procura das percentagens de cada fibra que são usadas no produto,, então sabem do que estou a falar. 

De facto há outras questões ainda. As palmilhas, a relação palmilha tecido e por fim o vosso próprio pé e a capacidade que tem para suportar os factores acima referidos. Por isso e por mais publicidade marketing e factos, esta é mais uma daquelas questões em que terão de ser vocês a avaliar o que melhor funciona para o vosso caso.

A fibra Coolmax é uma das minhas preferidas e faz parte da malha das Injinji. Em maior ou menor percentagem ela vai garantir pés mais secos facilitando a eliminação da humidade de forma mais rápida, bem como uma maior circulação de ar. 

Quando o Jorge Esteves me perguntou se queria testar as Injinji tinha já uma elevada expectativa e nestas primeiras corridas que tenho feito não fiquei desiludido, Muito pelo contrário. Passado o tal momento Wow e também a fase em que sentimos um pouco o tecido extra em redor dos dedos (afinal são anos e anos com os dedos colados uns aos outros) o que fica é um enorme conforto, Experimentei as versões 2.0,
RUN Original Weight Thin Cushioning (28% Coolmax 67% Nylon 5% Lycra)
e as TRAIL Midweight Padded Cushioning (39% Coolmax 58% Nylon 3% Lycra).

De elevada qualidade de fabrico, a princípio estranha-se um pouco a liberdade dos dedos mas depois parece que simplesmente não temos meias calçadas. Citando o Fernando acerca da Coca Cola.... depois entranha-se!
A versão Trail um pouco mais espessa e com um pouco mais de suporte, a versão Run mais leve e destinada a distâncias mais curtas mas pode ser uma questão de preferência pessoal. Uma coisa é certa, aquele pessoal que costuma fazer bolhas nos dedos dos pés poderá ter aqui um forte aliado. O espaçamento entre os dedos irá garantir uma redução da fricção e dedos mais secos, reduzindo assim os factores que contribuem para a formação de bolhas.

Falta-me ainda comprovar 2 aspectos fundamentais. O comportamento em trails longos e ultra trails e também a durabilidade e a resistência à lavagem e às provas verdadeiramente demolidoras. De qualquer forma e como o que já constatei vai ao encontro do que tenho lido, de certeza que encontrei finalmente umas meias de confiança e à altura dos grandes desafios. Para já só posso dizer-vos que são altamente recomendadas. Tou fã!!!

A boa notícia é que não precisam de as mandar vir de fora. Basta passarem na Loja Trail Run e encomendarem com toda a facilidade. Experimentem e verão se não tenho razão.

Suplemento ou não suplemento, eis a questão

Até que ponto os suplementos são necessários? Como sabemos que não estamos, por um lado a deitar dinheiro fora, e por outro a fazer mais mal do que bem, com possíveis efeitos secundários? A resposta é simples e directa. Não sabemos. 

Há simplesmente demasiadas variáveis em jogo para, em situações normais, podermos ter uma certeza. Desde a dieta que cada um segue, passando pelas marcas dos suplementos, pelo vosso metabolismo, e uma série de outros aspectos, antes de acabar na intensidade com que praticam desporto. Claro que haverá casos de nítidas insuficiências em que a suplementação é não só obrigatória como deverá ser prescrita e seguida por um profissional de saúde. Não é disso que vos vou falar obviamente, não sou desse ramo.

A minha opinião é que uma alimentação equilibrada e diversificada vos deveria dar, teoricamente numa situação normal, todos os nutrientes que necessitam para ter uma vida feliz e saudável.

O único busílis aqui é que andar a fazer provas de 100Km ou correr 200Km numa semana não são situações normais. Portanto e deixando de lado a normalidade fica a questão. Suplemento ou não suplemento?

Acho que a única resposta possível são vocês que a têm de dar, depois de perguntarem ao vosso corpo. Há um conjunto de suplementos bastante acessíveis, conhecidos e com algumas evidencias cientificamente claramente aceites. É preciso algum cuidado hoje em dia com o que é científico e com o que é pura publicidade encapotada. Não é de todo fácil distinguir as duas, porque os gajos que gostam de encapotar as coisas, obviamente encapotam bem. Se a própria comunidade científica, por vezes se divide nas suas opiniões, quanto mais nós, meros leigos facilmente manipuláveis. 

Assim o que vos proponho com este artigo não é recomendar-vos suplementos mas apenas enumerar alguns dos suplementos que uso e porquê. Alguns ainda estão em teste, outros uso durante uma temporada e depois faço uma pausa. Isto permite avaliar a resposta do corpo e perceber se de facto se notam os supostos efeitos benéficos, e se reduzem os supostos efeitos secundários. No fundo um processo de validar a sua utilização.

Antes de mais os suplementos não são jarda, nem bombas que se usam para ir a provas ou para treinar para provas. Os suplementos servem precisamente para suplementar a normal nutrição e ajudar o nosso corpo a melhorar e optimizar a sua resposta ao esforço durante os períodos de treino mais exigentes, por ex.

Há uns dias ao ler algo sobre o Francisco Lázaro (se não sabem que é deviam ficar a saber clicando no nome) e sobre a sua morte trágica, fiquei a saber que no início do século XX entre os atletas e os ciclistas, era comum usarem uma mistura a que chamava emborcação. Essa mistura era constituída por 4 claras de ovos, 1 gema de ovo, 450ml de água, 700ml de essência de terebentina e 700g de ácido acético. Além disso, Lázaro costumava também tomar estricnina. Meeeeedo!!! Nâo é disto que vos vou falar OK?

No final de cada suplemento deixo alguns links para páginas da Mayo Clinic onde podem saber mais sobre evidencias, dosagens, efeitos e interacções de cada substancia. Dos milhares de sites possíveis este é apenas mais um, credível, que creio que resume bem o que se sabe de cada tipo de suplementação. De um modo geral usem esta página para referencia relativamente a opiniões clínicas de vários suplementos http://www.mayoclinic.org/drugs-supplements


Vitamina D

Um clássico. Há vários anos que tomo Vitamina D em elevada concentração. Já neste blog expliquei as razões. Vejam este artigo se querem saber tudo sobre esta vitamina e a razão porque deve fazer parte, não só da vossa alimentação mas também, a partir de determinada idade, haver suplementação. Não é possível obter as quantidade necessárias só através da alimentação. Há vários estudos científicos já disponíveis (existem vários links para estudos sérios através do outro artigo). Nâo há um consenso na comunidade científica sobre os reais benefícios mas parece haver cada vez mais defensores e evidências da importância desta suplementação. Como é muito barata e não noto qualquer efeito secundário, havendo potenciais benefícios e sentidos efeitos no dia a dia, há vários anos que tomo diariamente. Faço uma pausa no verão quando o sol ajuda o corpo a sintetizar esta vitamina de forma natural. Mesmo com o sol a idade reduz a capacidade de síntese.do corpo. Durante o inverno a suplementação com vitamina D faz-nos sentir como se tomássemos um pouco de sol pela manhã. Experimentem se querem perceber o que estou a dizer, mas também pelos potenciais benefícios. E olhem que são inúmeros. Não é fácil encontra-la em elevadas concentrações a um preço acessível por cá. Ultimamente passei de 5000 IU para 2500 IU, dado que também estou a tomar Omega 3 refinado a partir de óleo de peixe.
Evidencias científicas
 Glucosamina e Condroitina

Faço algumas temporadas de glucosamina/condroitina seguida de algum descanso. Também com estas substância existem alguns estudos que comprovam a sua possível eficácia na prevenção da osteoartrite, principalmente do joelho. Nos estados unidos não estão classificadas como medicamentos e são vendidas como suplementos alimentar. Na europa estão classificadas como medicamento e podem-se comprar também na farmácia. Existem inúmeras pessoas de idade com problemas de articulações que tomam regularmente e que sentem um grande alívio com esta suplementação. Também nas rações de cães e gatos seniores, os efeitos benéficos são nitidamente visíveis pelos donos. A questão é se ajudará na prevenção da osteoartrite do joelho. A osteoartrite é um processo inflamatório das articulações. No meu caso as articulações dos joelhos nunca foram grande coisa, muito antes de começar a correr. Por isso e porque não sinto grandes efeitos secundários, a minha opinião subjectiva é que as temporadas que faço me parecem ajudar a reforçar as articulações e mesmo a ultrapassar pequenas mazelas. Há várias opções no mercado, algumas ‘monocasta’ outras ‘blended’ com as duas substâncias. Aqui o problema é que os estudos que existem não são efectuados num grupo alvo de atletas que correm regularmente longas distâncias. Não há uma proporção ideal das duas substâncias ou mesmo valores diários estabelecidos. Terão de fazer a vossa pesquisa, experimentarem várias opções. O que funcionar para uns pode não funcionar para outros. De qualquer forma tenham atenção aos efeitos secundários nos primeiros tempos e não esperem milagres rápidos. São substâncias que levam alguns meses a actuar.
Evidencias científicas da Glucosamina
Evidencias científicas da Condroitina
Omega 3

Idealmente devíamos obter todo o Omega 3 que precisamos a partir do peixe. Certo!. E comemos assim tanto peixe rico em Omega 3 ? Salmão, cavalas, sardinhas. Talvez durante alguns meses do ano. Mas a dose recomendada que vemos inúmeras vezes referida é para um adulto ‘normal’. Quantos Kms por semana corre um adulto ‘normal’? Zero? Lá está. Quanto mais treinamos menos ‘normais’ somos, pelo menos em termos de doses necessárias. Se calhar devíamos comer o dobro do peixe. O dobro de algo que já não fazemos regularmente. É pouco.
E assim surge o Omega 3 como suplemento. Um ácido gordo fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo mas também como ajuda na recuperação pós esforço e no controlo da inflamação. Introduzi à pouco tempo este suplemento e tenho feito alguma pesquisa para além de ir formando uma opinião pessoal. Poderá ter alguns efeitos secundários e interacção com outras substâncias pelo que é importante não exceder as doses indicadas. Quando se olha para a lista de potenciais benefícios desta suplementação só é comparável com a lista de efeitos secundários pprovenientes do exagero das doses. De qualquer forma o meu conselho aqui é mais vale pouco do que nada, porque seguramente ingerimos Omega 3 de qualidade abaixo das doses necessárias.
Evidencias científicas 
Análises

Não se esqueçam de fazer análises regularmente para controlarem como está o vosso motor. Nem tudo aparece nas análises, obviamente, mas algum valor fora dos parâmetros pode dar indicação que algo está mal e precisa de ser ajustado. Eu já há uns anos que estou a ir à inspecção anualmente e ainda bem que o patrão assim o exige. É uma oportunidade para confirmar que nada de estranho está a acontecer, porque muitas vezes os desequilíbrios demoraram o seu tempo e podem ser perfeitamente corrigidos e controlado se detectados atempadamente. Nem sempre estamos dispostos a ouvir o que o nosso corpo nos tenta transmitir. Fazer análises e controlar os parâmetros base é meio caminho andado para garantirmos que estamos de facto bem de saúde.

50 anos - 50 Kms

Como é ter 50 anos?

Na realidade não faço ideia o que significa ter 50 anos.

Quando somos putos sonhamos em ser adultos, poder tirar a carta, votar, ir onde quisermos sem precisar de autorização de ninguém, ser um cidadão na posse de todos os direitos. Depois quando já temos isso estamos ali um bocado em estado de graça. Vem a faculdade, somos os maiores, depois começa-se a ganhar algum dinheiro e as miúdas (e os miúdos para quem preferir), estamos no auge, o mundo foi feito para desfrutarmos e ainda nos sobra tempo para, nas horas vagas, fazermos planos para o melhorar e salvar. Na realidade alguns mais ligados à política não passam desta fase, pelo menos da boca para fora.

O primeiro pânico vem quando nos aproximamos perigosamente dos 30. Epá! Vamos deixar de ter 20 e tal? O mundo está perdido. E afinal não o vamos conseguir salvar. Tem demasiadas injustiças a começar pelo facto de estarmos a ficar velhos. De repente temos 30 e a coisa complica-se. Na realidade connosco está tudo na mesma, mas sempre que referimos à malta mais nova que temos 30 anos... fica aquele silêncio. Quase que se ouve o outro gajo a pensar “ah ah ah estás tramado cota” e a nossa cabeça a contra argumentar “epa trinta é perfeitamente igual a vinte e tal…” Lembro-me bem de que quando era puto também imaginava que um velho de 30 anos estava condenado. Era uma idade de tio, vá. Com sobrinhos e primos. Uma cena de cota, claro.

E enquanto estamos entretidos nos trintas, casamos, nascem crianças, vão à escola. E continuamos exactamente iguais. A única diferença é que distraímo-nos com a vida e já temos de dizer que temos 40. 
- para os putos já podíamos ser avós. É uma idade que simplesmente não consegue ser processada. Como é que temos 40 anos e ainda não somos ricos, não nos reformámos e não andamos no nosso cabriolet com gajas com grandes decotes e cabelo ao vento? Somos uns falhados. Para além de estarmos acabados.
- para os gajos de vinte e tal simplesmente já morremos para a vida; ou estamos orientados e safamo-nos em casa, ou então é o degredo. 
- os gajos de trinta continuam a rir-se embora já tenham percebido o embuste que é esta cena da idade. Riem-se baixinho já com aquele riso nervoso de quem vem a seguir.

Para mim os quarentas significaram o início de uma nova etapa. Claro que só o vim a perceber muitos anos mais tarde. Segundo dizem, é normal acontecerem este tipo de coisas por esta altura. Para mim foi o que podem testemunhar com este blog cujo nome era quase premonitório, dado que ao princípio nada tinha de facto mudado. Mas para muitos é a tal cena do cabriolet… Cada qual tenta mudar de vida como pode.

Já com muita experiência acumulada desta cena das décadas, sabia perfeitamente que a cena dos 50 era uma grande treta. Outro dia no programa do Alvim sobre o livro do Salgueiro do qual falei neste blog, ligou uma fulana a dizer que quando fez 30 anos notou uma degradação brutal a nível físico. Como é possível? 
Está tudo na vossa cabeça e na maneira como encaram a vida. Não há uma idade para nada acontecer por magia. Se nada fizerem de diferente irão sentir o lento degradar do vosso corpo. Se tirarem o som da televisão quando estão no sofá a ver as novelas e as séries (que são apenas novelas faladas em amaricano, cheias de stunts e efeitos especiais mais caros) até conseguem ouvir o caruncho a roer-vos por dentro.

Na realidade não sei bem que idade tenho. Por acaso o meu 50º aniversário coincidiu com uma fase da vida em que fisicamente nunca estive tão bem. Há uma ou outra peça que já tem algum desgaste mas creio que é normal nesta altura. Mas nada disto é surpreendente. Apenas uma constatação do que venho dizendo ao longo destes anos. Quando percebi, criei este blog para passar a mensagem.  

Este blog não é uma fogueira de vaidades. É panfletário? É sim senhor. De facto apregoo a salvação de uma vida de problemas, através da corrida, e de um modo geral do exercício físico. Posso ser um caso mais extremo mas apenas isso. Nada que muitos de vocês não saibam já. Este caminho não tem um fim em si. Vai-se construindo à custa de muito esforço, muita dedicação. Tento fazê-lo com amigos, sobretudo com a família. Não é isento de riscos, que são o tempero da vida, mas é preciso equilíbrio.  Não quero destruir nada do que já tenho, antes construir mais, com ajuda. Não é fácil não nos deixarmos deslumbrar e enfaralhar a lista de prioridades. O objectivo não é o tal cabriolet, ou então será para alguns...


Dedico este singelo texto ao Eduardo Lourenço, autor do vídeo, e a todos os amigos que participaram nos 50 Kms que fizemos  no dia em que fiz 50 anos. Foi um dia inesquecível graças a todos vós amigos.

Eiiii!!! Vão correr? Posso ir com vocês?


Bairro da Boavista, 20 horas.

O novo local da São Silvestre Pirata de Monsanto fazia franzir o sobrolho a muito lisboeta. Fomos muito bem recebidos por todas as pessoas. O pavilhão gimnodesportivo é um luxo. Os funcionários simpáticos e prestáveis. Na verdade não podíamos ter escolhido melhor local para o nosso convívio. 

Ainda estávamos a tirar as coisas do carro e a preparar-nos para correr começo a ouvir alguém a gritar lá de cima de um prédio. "Eiiii! Eiiii!" Nâo sabia se era comigo mas lá olhei. Talvez num 4º ou 5º andar alguém à janela. "Vão correr?" Vamos disse eu. "Posso ir com vocês?" Claro, vamos embora. A pouca iluminação e a distancia impediram-me de perceber bem quem era o meu interlocutor. A janela fechou-se e quando olhei outra vez, um pouco surpreendido com o facto, a luz já estava apagada.

Fiquei a pensar naquilo. Daquelas coisas improváveis que não acontecem noutros lados, demasiado digamos, correctos, socialmente correctos?              

Contei a alguns amigos e depois o episódio desvaneceu-se no meio de tanta coisa que estava a acontecer. Não me voltei a lembrar do companheiro que de repente queria vir connosco.

Algures a meio do percurso seguia à frente com o Boleto e oiço alguém dizer "Mas é que eu tenho 60 anos" O Boleto responde que isso não era nada, ele tinha 38... e olho para o senhor de 60 anos. Embora hajam algumas pessoas de 60 anos que pudessem estar ali connosco, seguíamos num ritmo calmo mas seguro, dificilmente estariam ali na frente do pelotão. Um senhor com o tradicional equipamento de estrada (calção curto e camisola de alças) sobressaía nitidamente do dress code do resto do pessoal (overdressed trail stuff). Será que era ele, o senhor que queria vir connosco? Quase sem arriscar pergunto-lhe se era ele que tinha perguntado se íamos correr e se podia vir connosco. E era, claro. Era o Sr. Artur.

Fantástico. O senhor Artur vive sozinho num 5º andar do bairro da Boavista e estava a fazer o jantar. Apercebeu-se daquela movimentação e não resistiu a fazer-nos companhia. O senhor Artur foi para mim a figura da noite. Representa o que de melhor tem o espírito da corrida. O senhor Artur não quis saber quantos Kms íamos fazer, nem o que íamos fazer. O senhor Artur só precisava de saber se podia vir connosco. 

Claro que o senhor Artur fez a voltinha dos 17 Km como se nada fosse. Mora à beira do Monsanto que é o seu jardim de treinos. Logo ali o convidei para vir jantar connosco a seguir, que deixasse o jantar dele e a solidão para o almoço do dia seguinte. 

No final mal tivemos tempo de nos despedirmos dele. Disse-lhe para ir a casa mudar de roupa e aparecer no pavilhão para jantar e conviver connosco. Mas o senhor Artur não apareceu. Quem sabe se para o ano podemos saber um pouco mais das histórias que tem para contar. 

Sim, porque alguém com o espírito dele tem seguramente coisas para nos ensinar. Obrigado por ter vindo senhor Artur. Bom Natal!

Discovery Underground - Os 10 Kms mais improváveis do mundo


Menos de 24 horas depois desta aventura aqui fica o relato possível de uma experiência única.

Confesso que quando apareceu este desafio na comunicação social visitei a página de candidatura e ao perceber que era necessário um texto que demonstrasse a superação e o motivo pelo qual achava que devia ser escolhido para estar presente, simplesmente passei ao lado. Não me apetecia estar ali a desbobinar textos, pensar em razões e justificações.

Foi nos últimos dias do prazo que me voltei a lembrar deste desafio e que até já tinha o texto escrito. Há muito tempo escrevi um pequeno resumo do que foi o meu percurso na corrida. Um pequeno texto que facilita a vida a quem quer ler algo do que tenho escrito ao longo dos anos no meu blog. Não é fácil dar com as maiores aventuras que tenho vivido na corrida, no meu blog. Por isso escrevi esta página que não é mais do que um índice para as aventuras mais significativas, pelo menos para mim. Pode ter passado desapercebida a muita gente mas ela lá está no meu blog, em destaque. Chama-se Momentos Épicos. Uma singela página que vos pode levar tanto tempo a ler como eu demoro a correr 100 Km. E assim me candidatei a esta aventura, referindo o texto existente nesta página que é um 'best of' do que fiz desde que embarquei nesta vida, nesta nova vida.

Pelos vistos alguém mais (para além de mim) gostou do que leu e deu-me um bilhete para esta viagem única.

E de repente alguém nos segura pela mão, somos pequeninos, descemos uma escadaria que nos leva para debaixo do chão. Só isso já é desconcertante. Os pais dizem que ali naquele buraco, nas entranhas da terra, por debaixo da cidade, anda um comboio. Não conseguimos acreditar. Só podem estar a gozar. Mas continuamos a descer mais escadas, escadas rolantes, que descem sozinhas. È um mundo diferente debaixo do chão. A qualquer momento a Alice podia sair de uma daquelas portas, inacessíveis, e acharíamos perfeitamente normal.
Quando chegamos ao cais há uma linha férrea e o assunto fica sério. De facto a coisa parece verdade. Há mesmo uma linha ali. Como nos brinquedos lá de casa. E um túnel. Um comboio fantasma! De um lado e do outro um túnel escuro como breu. De onde vem? Dali ou dali? Quem não tem estas memórias? Quando desapareceu a magia de começar a ouvir ao longe o barulho de um comboio que aumenta e nos deixa pregados ao chão, até se materializar ali na estação? 

Só muito mais tarde o Metro passaria a fazer parte da minha rotina de estudante e a coisa passaria a ser banal. Mas o mistério daqueles túneis nunca desapareceria. Há umas portinhas no final de cada cais que dizem Passagem Proibida. Ahhhh! Que chatice. Espreitamos. Já lá vem? E esperamos pelo próximo que magicamente irá surgir. Nalgumas estações consegue-se ver a próxima e a lagarta a descer lentamente até chegar a vez da nossa viagem. 

Quem teve esta ideia de pôr pessoal a correr naqueles túneis? Compreendo a magia e a atracção e daí o sucesso de algo deste género. Mas imagino a dificuldade de avançar com algo tão fora do comum. Aliar a corrida à magia de o fazer num sítio que tem tanto de banal como de inacessível. Esta iniciativa nasceu em Espanha e embora saiba a motivação da mesma, desconheço a história por detrás do evento original.

Mas como diria a outra, isso agora não interessa nada. 
Alonga aí pró fotógrafo
Era uma noite apenas fresca de um Outono candidato a Outono mais quente de sempre. Já passa bem da meia noite, e à porta da estação de São Sebastião vai grande reboliço. O levantamento do kit de participante decorre sem confusão. Afinal eram apenas 100. Assinam-se termos de responsabilidade, recebe-se um capacete e uma t-shirt, material obrigatório e único aliás. Depois de descermos para a estação e antes de acedermos ao cais, uma minuciosa revista policial iria garantir isso mesmo. Nem garrafas de água, quanto mais telemóveis ou máquinas fotográficas.

A malta da montanha a marcar presença nas entranhas de Lisboa
O tempo lá ia passando entre brincadeiras e as ultimas fotografias. O Nelson Évora com grande espírito posava para centenas de fotos. À hora marcada somos agrupados de acordo com a nossa marca aos 10Km e à velocidade da revista policial descemos ao cais de embarque e depois para a linha. Um pouco por todo o lado os jornalistas, repórteres e cameras são mato. 

A princípio evito aquele carril central que diz Perigo de Morte. Respect! Claro que a corrente estava já cortada, mas estava mesmo? Foram muito anos a ver muita faísca, Perigo de Morte.... Mas depois de ver um fotógrafo a apoiar a camera em cima do carril lá se perde o respeito à coisa. Que frisson!

A pouco e pouco os 10 grupos de 10 vão sendo arrumados em fila indiana ao longo da linha no cais. Não sabemos bem o que vamos encontrar mas a opinião geral é que vai ser difícil correr. Toda a gente da organização nos diz isso mesmo. Inclusive pessoas do Metro. Muito obstáculo no percurso, etc.

Ó p'ra mim em equilíbrio em cima do Perigo de Morte 
Os grupos iriam partir de 90 em 90 segundos. Estou no segundo grupo. Uma cortina gigante de ripas com o logotipo do Discovery Underground esconde a entrada do túnel. Iríamos ser literalmente engolidos por aquele túnel.

Não haveria cronómetros nas precisamente à hora marcada o Nelson Évora dá a partida para o 1º grupo que desaparece por detrás da cortina. 90 segundos depois arrancamos. A euforia é grande, Esqueço-me de iniciar o meu cronómetro. Obviamente ali em baixo não há sinal GPS mas como o Fenix 2 tem um acelerómetro interno ia ser possível registar a distância e o ritmo, com base no movimento do braço. Estava curioso para ver a fiabilidade deste modo que nunca usei. Só o liguei já no Saldanha, cerca de 700m depois. Ó desgraça!

Os túneis tinham iluminação própria que dispensava o uso de frontal. Só numa ou noutra zona uma lâmpada fundida dificultou um pouco a progressão. Ainda assim era só seguir em frente.

Seguimos pela faixa do meio. Há 3 zonas possíveis para correr. Qualquer uma delas salpicada aqui e ali por obstáculos. Ao centro entre as duas linhas que usávamos obrigatoriamente nas estações dado que ali não há bermas laterais. Mal saíamos de cada estação era optar pelo lado esquerdo ou direito onde era possível correr em cima de uma caleira técnica ou em baixo ao lado da linha. Ocasionalmente qualquer uma das zonas apresentava obstáculos que era preciso contornar ou saltar. À entrada de cada estação o ritmo era interrompido pela necessidade de mudar para o centro e de voltar para a berma à saída.

Ao fim de 1 ou 2 estações a mecânica da coisa estava estabelecida. Era possível correr, muito e bem. Os obstáculos repetiam-se, os cabos, as agulhas, o saltitar para mudar de zona. Era mesmo possível ultrapassar, nas bermas, um em cima da caleira e outro em baixo junto à linha. Mas dada a separação por tempos e o espaçamento entre cada grupo rapidamente encaixámos nos nossos ritmos.

Às vezes subia-se bem, outras vezes também se descia bem. O viaduto exterior depois das Olaias permitiu refrescar. Os túneis são muito abafados. Estariam à vontade mais de 20 graus ali dentro. Até tremia de ver o pessoal cheio de camadas de roupa. Mas esta gente nunca andou de Metro?

Imensa gente ao longo dos túneis, espaçados a cada 250m. Os Kms sempre marcados por alguém que segurava uma placa. As estações sucediam-se. Chelas, Olivais , Cabo Ruivo, Oriente... Em Chelas vejo o Paulo Fernandes, grande festa. Abastecimento líquido. Aceito uma água que transporto comigo como de costume.

O ritmo era alto e mesmo sem grande esforço não estava fácil. O corpo não encontrava um ritmo certo, as subidas eram traiçoeiras. Sem grandes pontos de referência sabíamos que estávamos a subir porque as pernas se queixavam. A atenção ao piso era constante e isso também consome energia. Não queria ir muito depressa, antes saborear cada momento daquela oportunidade única, correr num local completamente inacessível e que (pelo menos para mim) nunca se repetirá.

Nunca tinha passado do Oriente para a frente. Foi uma boa estreia. A experência aproxima-se do final. Km 7, 8... Ver as estações ao longe a aproximarem-se ou a surgirem depois de uma curva, qual maquinista de brincar. Imagens que guardarei para sempre.

E por fim chegámos ao Aeroporto. Grande recepção e aplauso. Novo abastecimento e subimos à plataforma. Ficámos por ali um bocado enquanto nos íamos reencontrando. A apreensão de todos era grande. Afinal tivemos de correr e bem. Grande ritmo para quem pensava que ia apenas fazer uma caminhada cheia de obstáculos. Safa! A minha experiência durou cerca de 50 minutos mas o primeiro a chegar só desfrutou de 38. O Garmin marcou 9,3 Km e se somasse os 700m que faltaram iria acertar na mouche. Alguns Suuntos por ali marcavam mais de 11 Kms.,,

Cá fora o autocarro encheu-se rapidamente e zarpámos rumo à partida onde era tempo de despedidas e voltar para casa. Era preciso descansar um pouco antes de voltar a Lisboa, dentro de umas horas, para o Grande Prémio do Natal.

É difícil classificar esta experiência. Posso dizer que adorei esta viagem louca, só tenho dificuldade em arrumar a coisa numa caixinha com um rótulo. Foi algo completamente 'fora da caixa'. Não era preciso ter ido a correr, iria se calhar até desfrutar mais numa visita guiada, mas a correr foi o que se arranjou. A organização foi irrepreensível com tudo a decorrer como planeado a anunciado. A preocupação com a segurança foi grande. Creio que toda a equipa deve estar muito satisfeita como tudo decorreu, pelo menos do que me foi dado a ver.

Não posso dizer que é para repetir porque seguramente não irá acontecer. Pela excentricidade da coisa é algo que se faz uma vez na vida e pronto. Tive essa oportunidade, foi daquelas vezes em que consegui estar no sítio certo na hora certa. Valeu bem a pena Discovery Channel, Nos e Metro, Obrigado pela fantástica experiência!

Por volta das 5h lá adormeci. 

Que a Força esteja convosco - Crossfit de trazer por casa

Nem todos os livros têm de ser complexos e massivos, exaustivos e detalhados. Pelo contrário.

Já há uns tempos que conheço as Dicas do Salgueiro. Lembram-se do anuncio  do Van Damme a fazer a espargata nos camiões TIR?


E do vídeo do fake Chuck Norris a parodiar o do Van Damme?



De repente era um mar de gajos a fazer espargatas em cima de tudo. Mas o do Salgueiro que fazia a espargata em 2 carrinhos de supermercado foi dos melhores. Mesmo cena tuga. Muito bom.

Na altura fui investigar quem era o Salgueiro, vi alguns dos seus vídeos e achei desde logo que estavam muito bem feitos (no livro confirmei porquê). Entretanto as solicitações são tantas e o tempo é tão pouco, só voltei a ter contacto com o Salgueiro quando ouvi a Prova Oral sobre o lançamento do seu livro. Gostei muito de ouvir o programa. Aconselho a que ouçam também. O Alvim é um puto fixe e gosto sempre de ouvir o programa dele. Sigam este link e relaxem. Já voltam para acabar de ler o artigo. O Bruno Salgueiro é um comunicador nato (no livro confirmei porquê também). Partilhei esse facto com alguém e claro, lá levei com o livro quando fiz anos.

O livro é muito interessante. Bem escrito, num tom informal, o autor conta-nos a sua história e faz uma excelente ligação ao leitor com uma abordagem muito bem conseguida. Depois de traçar as linhas base que devem ser seguidas, quer em termos de motivação, quer de alimentação, deixa-nos com uma ementa enorme de exercícios que podem fazer em qualquer lugar sem recorrer a outro aparelho que não seja o vosso próprio corpo e peso, ou com exercícios para quem tenha acesso a um ginásio. Tem um plano de treinos mensal que recorre apenas a conjuntos desses exercícios, que agrupados de várias formas, permitem desenhar um número infinito de sessões de treino. Treinos curtos de alta intensidade que podem adaptar ao vosso nível, aumentando gradualmente o número de repetições, o tempo ou a velocidade de execução, ao longo do tempo. Treinos que vos vão levar ao limite seja qual for o vosso nível. Muito ao estilo do CrossFit embora não seja um livro sobre CrossFit.

Já há uns tempos que, semanalmente, incluí 30 minutos de uma destas sessões em aula, com exercícios mais focados nos Glúteos, Abdominais e Pernas, o famoso GAP, bem conhecido das moças que frequentam ginásios. Claro que numa aula, com o instrutor a puxar por nós, não temos tanta hipótese de desmotivar. Mas aqui é possível uma progressão maior e levar o treino até muito mais perto do nosso limiar, algo que na realidade as 'aulas com gajas' já vão deixando a desejar. 

Como sabe o pessoal do trail, o treino de força é um complemento fundamental para atacar as subidas, as descidas, e de um modo geral reforçar todo o vosso core, dando mais estabilidade em corrida, etc. Um core forte vai permitir-vos correr mais fortes durante mais tempo.

Conclusão, um excelente e simples manual, fácil de ler e de usar. E se for bem usado, para além de dar cabo de vocês, vai-vos dar excelentes armas para melhorarem a vossa performance.


Por fim deixo-vos um dos primeiros vídeos que vi do homem e que para além de ser excelente e cheio de bons conselhos, constitui a base de todo e qualquer tipo de treino. Vejam e sigam.


A Lisbonização da Maratona do Porto



Não sou fã da Maratona de “Lisboa”. Tem os 42.195 metros como todas as outras mas foram sendo incluídas alterações, umas mais radicais, outras mais subtis, que me levaram a deixar de gostar da prova. Neste artigo está um resumo do que me chateou há 2 anos e desde aí, não só por isto obviamente, nunca mais voltei. Há tanta coisa para fazer.

Tal como dizia nessa altura, a Maratona do Porto tinha bem mais motivos para ser a minha preferida. E não era só eu. A Maratona do Porto cresceu naturalmente e afirmou-se como a maior e melhor Maratona de Portugal. Em 2014 escrevi neste artigo todos os motivos que justificavam esse facto. Desde 2010, ano em que a fiz pela primeira vez, que se constituiu quase um ritual ir à Maratona do Porto. 

E escrevi também que a da Maratona do Porto era um cabaz com vários ingredientes . É importante que nenhum destes ingredientes falte para que a receita funcione….E em 2015 a receita foi alterada. 

Em termos gerais, até porque o percurso é 90% idêntico e as coisas funcionam bem, fruto de 12 anos de experiência, o aspeto do petisco é igual e é saboroso. Mas foram introduzidas alterações que não faziam falta a ninguém. Bom, a alguém faziam falta senão não tinham sido introduzidas.

Não me vou alongar muito sobre todas as implicações que as alterações tiveram, nem sobre os reais motivos pelos quais foram feitas, até porque não os conheço. Mas quando se piora uma coisa, do ponto de vista do atleta, começa a ficar aquela sensação estranha. Para que se faz isto? Havia real necessidade? 

O que piorou?

- Local de Partida e de chegada – O local de partida é francamente mau. A organização diz que o novo local foi escolhido para não incomodar a população. Tive de ler várias vezes a frase. PARA NÃO INCOMODAR A POPULAÇÃO? Mas uma cidade é incomodada quando dezenas de milhares de pessoas a visitam para celebrar uma festa como a Maratona? E só a malta da partida é que se sentia incomodada? O pessoal de Matosinhos, da Ribeira, de Gaia e de todos os outros locais são mais tolerantes? E em Paris, Londres, Madrid, Barcelona, Cascais, a malta incomoda? Bom, se nos metem no queimódromo de Matosinhos para não incomodarmos, o melhor se calhar é irmos incomodar para outro lado. Não consigo compreender esta afirmação, mas admito que o problema seja meu.
O local é mau porque é feio, é muito amplo, não se percebe onde as coisas estão. Onde estava o chá e o café? Só vi barraquinhas a vender. Dantes a barraquinha do chá e do café estava bem visível. Não havia um croqui do local. Era apenas um enorme recinto com as barracas dos patrocinadores arrumadas onde alguém entendeu que deviam estar. Quando se chega nem se consegue perceber onde está o corredor de saída e o que se vê ao longe nem sempre é atingível facilmente porque o local tem zonas vedadas, vedações, etc. Local sem qualquer interesse. Voltaremos a ele para falar da chegada.

- A partida – Partida! 50 metros depois curva à esquerda?!!?!? e fazemos 180º para começar a descer. Saímos relativamente à frente e na curva já tivemos de abrandar. Obviamente não estranhei quando a Dora me disse que estiveram vários minutos parados para passar naquela zona. Depois da curva o corredor encolhe e a opção foi fazer aquele 1º Km apertadinho quase em 5 minutos. Havia necessidade disto? Incompreensível numa organização com 12 anos de experiência. Fruto do novo local e para manter? Francamente mau.

- Transportes para o local – Como nos outros anos ficámos no Tuela ala sul. Alojamento low cost, mas que é mais do que suficiente para esticar o esqueleto e tomar um bom banho a seguir. Não optei pelo “pack Maratona” que incluía transporte para a partida. Demasiado caro a meu ver. Nas edições anteriores a partida era perto do Hotel e a organização disponibilizava gratuitamente autocarros para trazer os atletas de volta para a Rotunda da Boavista. Era perfeito. Agora com o novo local desapareceram esses transportes gratuitos. Ou se paga o tal pack que inclui transporte ou então é cada um por si. Nós optámos pelo Metro. 1h desde o hotel até à partida. 15 minutos à espera do Metro. Felizmente havia reforço de carreiras segundo a organização…. senão estávamos quanto tempo à espera? O suposto reforço também não evitou que fossemos tipo sardinhas em lata 10 estações e 20 minutos.  Da estação até à partida ainda é preciso andar 1 Km. No regresso aplica-se a mesma receita. Andar 1 Km, esperar pelo Metro e voltar ao hotel. Mais de 1 hora com a diferença que conseguimos ir sentados. 3,60€ para 2 horas de viagem. Sendo tolerável, quando comparamos com os anos anteriores, percebe-se que mais uma vez se prejudicaram os atletas.

- Alterações no percurso – Em termos gerais tudo o que foi alterado foi para pior. Já falei da partida, depois andamos por ali numas reviangas, a zona industrial é feia, não há qualquer interesse naquele percurso que se percebe foi atamancado na zona. Sobe desde, vai e vem. Depois entramos no percurso habitual e aqui não há muito a dizer. O que já era bom continua igualmente bom e o que era menos bom também.  Para o final estava guardado o contrário da cereja em cima do bolo. A 1Km da Meta subir novamente 200m da Avenida da Boavista para voltar a descer até à mesma rotunda, antes de finalmente podermos ir cortar a meta. Genial. Não havia outro local onde esticar um pouco a coisa? Era mesmo preciso meter desnível, dificuldade e piorar os tempos a 1Km da meta? Vêm-me à memória as palavras da organização. Um novo circuito mais rápido…. Isso mesmo!!!

- Chegada – A chegada é no mesmo local da partida. Aqui só vale a pena referir que se chega a um local sem qualquer interesse. Um enorme descampado alcatroado. Quando dantes a chegada era no Parque da Cidade com uma enorme zona verde à disposição e onde se podia passear um pouco descansar e desfrutar, agora estamos num terreiro de alcatrão. Com o sol forte que estava tivemos sorte em vagar um dos raros bancos à sombra de uma árvore. 

- Prémio de Finisher – Um colete de plástico, sem mangas e com costas de rede. Não sendo mau, o desaparecimento da tradicional garrafa de vinho do Porto foi a estocada final. A garrafa de vinho do Porto era “O” prémio que distinguia esta prova. O ano passado já tinha passado para o final, o que se aceita. Afinal era um prémio de finisher e fazia sentido racionalizar este custo desta forma. Agora fazê-lo desaparecer? Descaracterizou ainda mais a prova. Será que havia a real consciência do significado desta simples garrafa, o impacto e a imagem, a referência a um dos produtos mais emblemáticos da cidade? Era um custo? Não há almoços grátis. Tudo ali é um custo, pago por alguém. Foi possível durante 11 anos. Agora acabou-se. 

Resumindo, a Maratona do Porto agora começa e acaba em Matosinhos, a partida, chegada e percurso foram atamancados ao queimódromo, o melhor é ficar alojado em Matosinhos para se estar perto do local e evitar deslocações ou packs com transporte inimigos da carteira, e no final ganhamos um colete de plástico.

Tudo o resto continua igual, ou seja de excelente nível. Estes aspetos que refiro fazem confusão aos velhos que insistem em regressar todos os anos. Como velhos que são apegam-se a tradições, valorizam em demasia, rabujam e criticam, principalmente quando sentem que as coisas estão a mudar para pior. São pequenos pormenores dirão uns, são coisas que chateiam dirão outros. Sei que a Maratona do Porto que conheci, o tal cabaz que tinha de se manter para que a receita funcionasse, já não existe. Tudo o resto ainda lá está. Aguardemos pelas melhorias da próxima edição…

Do pouco que li a organização não precisou de ouvir qualquer opinião para formar a sua e afirmou que tudo correu lindamente e que o novo local e percurso são excelentes e para manter.


Voltarei? Não sei. Afinal há tanta coisa para fazer.

As montanhas da minha vida


Bonatti!

Quem já fez o UTMB conhece este nome. É um refúgio de montanha, aos 2000 m com uma vista deslumbrante para as Grandes Jorasses que ficam do outro lado de um vale glaciar. Uma vista de fazer cair os queixos. Conseguimos ficar horas a admirar a imponência da montanha que faz parte do maciço do Monte Branco, cada detalhe, a imaginar como seria estar ali do outro lado. Parece tão perto, tão acessível. Ninguém diria que o topo está aos 4000 m, tal é a sensação de estar logo ali. É a dimensão da coisa que engana o nosso cérebro. Ao abarcarmos uma imagem tão grande que ocupa todo o nosso campo de visão o cérebro entra no modo "pfff, isto é tranquilo, subia por ali, ali deslizava até acolá..."

Bonatti, o nome fica instantaneamente no ouvido. Talvez por isso a Salomon tenha dado esse nome ao seu impermeável ultra leve. Imaginamos que o Bonatti foi um tipo, claro, um gajo que devia gostar das montanhas, ou da vista daquele sítio, para ter um refúgio com o nome dele ali. 


Gosto das coincidências que me levam a adquirir conhecimento que de outro modo me passaria ao lado. Afinal há tanta coisa para descobrir. A razão porque de repente descobrimos coisas novas está longe de ser um processo metódico. Pelo menos para mim. 

Tudo começou pelo nosso Tour do Mont Blanc no sentido contrário à prova. Primeiro consegui convencer o Trindade a não ficarmos em Courmayeur. Faríamos o Tour de abrigo em abrigo. Em vez de Courmayeur subíamos mais 1000 metros e ficávamos no refugio Bertonne. Quando foi preciso alterar o sentido da nossa volta já não fazia sentido ficar no Bertonne e escolhemos o Bonatti. Até porque eles foram muito mais simpáticos e prestáveis na hora de reservar. Conhecia o refúgio de ter parado ali no abastecimento em 2013, durante o UTMB.

A noite que passámos no refúgio Bonatti foi fantástica. Boa comida, instalações 5 estrelas, simpatia e profissionalismo. Imensas fotos do Bonatti nas paredes, muita informação. Deu para perceber que o Bonatti tinha sido um alpinista excepcional, old school, anos 50, 60. Um grande explorador também. 

O Bonatti voltou a surgir em Chamonix, numa livraria nas mãos do Trindade. Um exemplar em francês. "Montagnes de ma vie". Perguntei-lhe se conhecia a história dele, se valeria a pena levar o livro. A resposta foi a que mereci ouvir: "Epá o tipo tem um refúgio na montanha com o nome dele. Não há um refúgio Paulo Pires. Se calhar deve ter feita algumas coisas interessantes!"
Tunga. Já foste! Mas a vingança serve-se fria... "Vais levar?" perguntei. "Em francês não dá".
"Dá cá então" :)
Pimba! 7 anos de Alliance Française. Incha agora.

E foi assim que em retrospectiva acabei por conhecer o Walter Bonatti. Um alpinista excepcional, um homem que buscava os limites de forma incessante, muito à frente do seu tempo, mas acima de tudo com a sua ética e com uma coisa que se vê tão pouco e cada vez menos hoje em dia: uma integridade de valores e princípios inabalável. Quanto mais leio e pesquiso sobre quem foi Walter Bonatti mais fascinante é conhecer a vida deste homem que fez do Monte Branco a sua escola de vida. 

Não percebo nada de alpinismo, e mesmo depois de ler o seu livro pouco ou nada sei. O livro conta algumas das mais extremas escaladas que ele fez, muitas das quais ficaram míticas. É difícil para um leigo compreender como nos anos 50 alguém escalava aquelas montanhas com recurso a equipamento do mais básico que existia e em condições extremas de frio e debaixo de gigantescas tempestades, com temperaturas da ordem dos -30ºC. Algumas escaladas foram trágicas. Outras estiveram a um passo de o ser. 

Mas é sobretudo de superação e de ultrapassarmos os nossos limites na busca de conquistas que só o próprio compreende totalmente, que o livro fala. E nesse sentido é uma lição de vida, muitas lições de vida. Não que esteja escrito nesse registo. Longe disso.

Gostei muito de conhecer o senhor Bonatti e as suas montanhas. Uma outra perspectiva de um dos locais mais bonitos que conheço. Acho que não existe traduzido em português mas se pelo menos se sentem à vontade com o inglês, be my guests!


Deixo-vos 2 excelentes reportagens onde podem conhecer um pouco da vida de Walter Bonatti





UTAX - A Lousã toda de uma vez nesta lição


Nota: Contem lições e dicas importantes


Por mais experiência que se tenha às vezes somos vítimas dos erros mais básicos. Por isso esta crónica é também uma lição para estudar e relembrar.

Se por um lado a experiência nos dá o conforto de irmos para a prova mais dura de Portugal continental com o espírito de missão de quem vai ter de encaixar mais uma ultra 100K no bucho, também nos atraiçoa.

Esta não é definitivamente uma prova para estreantes nesta distância. A Lousã é muito dura e para se desfrutar da experiência há que ir aos poucos. Provavelmente se forem de boa cepa até concluem a coisa no tempo limite mas com um preço demasiado alto. Há muita coisa para se entreterem por ali, antes de enfrentarem o boss do UTAX.

Partimos bem eu e o Rui. O plano era fazermos a prova juntos. Sem stress. Este ano já tenho a minha dose e estas coisas também cansam. Estou um pouco saturado de ultra coisas. Já não há épocas, intervalos para descanso, nada. É ir gerindo e descansando de umas para outras a fingir que servem de treino.

Nem 2 Kms, na saída de Miranda o tipo da mota engana-se e quem ia na frente segue atrás. Poucos metros durou mas o suficiente para o pessoal mais calmo seguir as fitas e o caminho correto. Grande granel, encaixa tudo uns nos outros. Os craques aceleram pelas coxias e tentam reposicionar-se na frente. Perco o Rui na confusão. Vou tentando chegar à frente e aproveito algumas subidas para recuperar posições. 

Chegámos à ribeira de Espinho, que estávamos a subir, ao contrário dos Abutres, e sigo com a Sofia Roquete o que é sinal que já estava mais coisa menos coisa no local correto, Contas feitas já em casa, passei em 62º em Gondramaz. Fico por ali a ver se o Rui aparece. No caminho passei o Luis Madeira que me tinha dito que o Rui não tinha passado por ele, portanto vinha atrás. O Rui não aparece e arranco devagar. 

Na véspera em conversa com o Vitorino Coragem perguntei-lhe o que era aquela descida a seguir a Gondramaz e ele explicou que íamos descer a outra ribeira mas só íamos fazer 500 m e depois voltávamos a subir para apanhar a pista de downhill para a Lousã.

Estávamos a sair de Gondramaz pelo estradão e aparece o Rui. Fixe. Seguíamos juntos com mais um casal. Ela era a 3ª da geral. Descemos para a tal ribeira e aviso-os que iríamos fazer 500 m e depois meter à direita para subir.

Aqui fica a 1ª lição.

1ª Lição - Segue sempre as fitas

Corolário 1 - Podes sempre seguir outras coisas que te apeteça, tipo placas reflectoras, placas indicativas do trilho, tudo o que quiseres seguir, MAS CERTIFICA-TE QUE CONTINUAS A SEGUIR AS FITAS.

Corolário 2 - És TU que tens de seguir as fitas. Nunca delegues essa tarefa nem confies em ninguém para a fazer por ti. Porque se o gajo não souber esta lição és TU que te vais tramar.

Aquela zona do trilho esta cheia de marcações refletoras, marcações de trilhos do Centro de Estágio de Trail de Miranda, etc. Com tanta coisa a reflectir por ali, em pelo menos 5 pessoas ninguém se lembrou de perguntar uma única vez: E fitas? Alguém está a ver uma única porra de uma fita?

De repente parecia que estava a escalar o Penedo dos Corvos, mas era de noite e pedra é pedra.... quando vejo as luzes de uma aldeia mesmo ali.... espera lá... isto não estava no mapa. Íamos subir e descer para a Lousã. GONDRAMAZ!!! De repente tudo fez sentido nos meus 3 neurónios. Não seguimos fitas, o trilho virou algures à direita, subimos ao Penedo dos Corvos e voltámos a Gondramaz. 4 km, 45 minutos perdidos e como se não bastasse, para a estocada final, tão cedo na prova em 45 minutos tinha passado toda a gente. Diz uma moça: bem vindos, juntem-se a mim sou a última. Verdade ou não foi um balde de água gelada que nos mandaram para cima. Acorda pá! Esta prova já acabou!

Voltar para trás à procura do erro era ainda mais estúpido do que o que tínhamos feito. Demasiado técnico. Lá aceitámos o convite e voltámos a fazer o mesmo percurso para perceber onde nos enganámos. Podia estar mais bem indicado? Podia. Podia não haver tanta porcaria pendurada por ali a reflectir? Difícil. Não fomos os únicos a cair no engodo mas as fitas estavam lá. À 2ª não falhámos.

Foi preciso mudar o chip e seguir atrás dos ultimos. Na subida ainda passámos alguns mas depois na descida para a Lousã, um single track de downhill havia pouco a fazer. Formavam-se filas ao mínimo obstáculo. Vimos muita gente que estava enganada na prova que se propôs fazer. E também ultrapassar à bruta para quê. Tínhamos quase 1 hora de atraso. Era outra prova que havia a fazer agora. 

Na Lousã encontrámos mais vítimas do engano. Chegámos em 220º quase no fim da tabela. Próxima paragem Cerdeira. Seguimos por trilhos do Louzan Trail. Não me apercebi que o Rui não vinha lá. O abastecimento numa fantástica casa de xisto e madeira da aldeia. Cheio que nem um ovo. Calor humano. Os óculos embaciam de imediato. Parecia o Mr. Magoo. Tiro os óculos e vejo o Hugo. Não estava a funcionar a prova e ia abandonar. Tento convencê-lo a vir connosco em modo desfrutar, nada. Já tinha tomado a decisão. 

Como, bebo, esvazio os ténis de pedras e quando procuro o Rui, nada. Que raio?!?! De repente lá aparece. Estava com uma dor na virilha que o estava a impedir de progredir. Na subida após o abastecimento a coisa não melhorou e separámo-nos. Em princípio iria abandonar em Povorais no Km 48. Que sina. Já o ano passado ficou pelo Km 50 por outros motivos. Não está fácil esta prova. 

Fico sozinho. Triste sina a minha. Sozinho e num sítio da classificação onde não conheço ninguém, não estou no meu ritmo, lá vou ter de gramar outra prova a solo. 

Depois de Povorais e de 2 belas canjas, já de manhã, subo ao ponto mais alto da prova e quase sou arrastado pelo vento, Rajadas seguramente na casa dos 100 Km/h, um trilho manhoso a subir e mesmo nas zonas mais brandas era impensável correr. O vento era tanto que era impossível prever onde os pés iam bater no chão. Qualquer rajada poderia arranjar um entorse ou um tropeção num tronco. Felizmente não estava muito frio. O meu relógio registou mínima de 16º o que parece impossível tal o frio que a ventania fazia sentir. Se estivesse frio a sério acredito que com aquele vento a prova teria de ser cancelada. Também acredito que com frio a sério haveria bombeiros e ambulâncias nos estradões desprotegidos das eólicas...

Eu lá ia prosseguindo na minha árdua missão. Seguia-se mais terreno conhecido de outros passeios, nomeadamente do habitual treino do amigo Vitorino. A descida para o Coentral, toda em grandes nacos de cascalho solto e depois mais descida até Castanheira de Pera, passando pela praia fluvial de Poço de Corga, que me traz boas memórias do verão de há 2 anos.

Se já vinha molhado e sem dúvidas para trocar de roupa na praia das Rocas, mais um local de fantásticas memórias de há 5 anos, uma chuvada no último km só confirmou tudo. Chego geladinho à praia das Rocas. Arranjo um cantinho e calmamente renasço do frio. Fracas condições. Sacos de troca espalhados por ali, balneário sem luz, chuveiros ali a acenarem para nós mas sem água quente, abastecimento num recanto onde 2 pessoas ao mesmo tempo já eram uma multidão. Sem pressa alguma ainda ligo à Dora a contar como as coisas estavam. Coisa rara nas minhas provas mas esta estava a ser uma prova atípica, talvez estivesse a estranhar. Procuro confirmar se o Rui sempre desistiu e fico a saber que o Marcolino desistiu, Ó desgraça. A coisa estava bera.

Enquanto me trocava o céu descarregava a sério. Assim que terminei a coisa acalmou. Olha, uma aberta. Siga. Mal passo a ponte da praia e era falso alarme. Começa a cair uma carga monumental. Bonito serviço. Vá lá que tinha o impermeável vestido mas mesmo assim fiquei um pinto. 

Nova subida dura, novo estradão de eólicas no topo. Chuva nevoeiro e um horrível vento lateral. Faltava descer até ao Talasnal num fantástico downhill onde os ultra raptor brilharam e eu ainda a conhecer os limites dos gajos nem acreditava na capacidade de agarre da coisa. Nitidamente ainda não tenho pés para a coisa :)
O Talasnal parecia uma urgência do Amadora Sintra nos piores dias. Só pessoal com a junta da cabeça queimada. Mal entro começa a chover torrencialmente. Não me posso demorar para não arrefecer ainda por cima vou ter de sair a chover. Falta subir ao observatório e descer para Miranda.

Sem grande história, mais estradões, mais eólicas, já não suportava o barulho das bichas a rodar, nem o raio do vento, Nem 5 minutos estive no observatório. Não havia nada para observar. Ainda saio lá de cima às 18h30 a pensar que fazia aqueles 20 Km em 3 horas, alguma margem para surpresas. A descida vai complicando pelo caminho. Estamos de novo em terrenos de Abutres mas a descer. Quando a coisa chega ao Cardeal com tanta lama a descer, lá vem trabalho a sério.

E é altura da 2ª lição.

2ª Lição - Não uses pilhas alcalinas no teu frontal XPTO com bateria de lítio

Corolário 1 - Vais-te tramar. Estás a contar com uma determinada duração que umas pilhas convencionais não suportam

Corolário 2 - Se o teu frontal permite usar pilhas de backup usa no mínimo as melhores pilhas recarregáveis de NiMH que encontrares

E em pleno Cardeal, mata serrada, breu total, desníveis e encostas de lama o frontal começa a piscar e a avisar-me: Já foste de novo!
Ca porra! Estou tramado com F maíusculo!!!
Vejo alguém com um frontal um pouco mais à frente. Rapidamente o apanho. Eu ainda tinha a bateria original com uma carga indeterminada. Já tinha feito 7 horas durante a noite e em Castanheira de Pera troquei por umas pilhas Varta novinhas. Homem prevenido, está bem... tramado. Não estou a ver nada que rime com prevenido que se adapte aqui....
Duraram 1h talvez.

O dilema era se voltasse a pôr a bateria quanto tempo duraria? Ainda faltava chegar a Vila Nova e depois mais 10Km que seguramente não seriam em estrada com candeeiros. Seguimos juntos. Se ele já não era muito expedito então a arrastar um gajo sem frontal... Sei lá quanto tempo demorámos a fazer a descida até Vila Nova, altamente técnica e toda em lama... que miséria. Ainda se juntou a nós mais um companheiro e parecia a procissão das velas, só faltava levarmos um andor.

Em Vila Nova volto a colocar a bateria e saio com o frontal no mínimo e a rezar. O trilho inicial já conhecia e pensava que íamos a Espinho e descer por onde subimos. Qual quê. Eu com o frontal no mínimo mal dava para ler um livro à noite na cama, mas não queria arriscar mais 1 lumen. Ficar outra vez às escuras naquele terreno nem pensar. Para o final estava guardado um arrozoado de reviangas e voltinhas, trilhos e trilhinhos, lama sem fim. Daqueles finais que estamos sempre a cheirar a meta, levam-nos até aos limites da cidade e voltam a meter-nos no trilho. As marcações já falhavam tanto como a paciência. Em minha opinião acho que são de evitar este tipo de traçados finais. As dificuldades devem estar ao longo da prova. Quando se mostra a meta a alguém já não há necessidade de esmifrar mais. O homem chegou caneco! Já chega!

E pronto. Quis contar-vos esta história porque acho que tem lições importantes. A ultima lição é que mesmo quando as coisas não correm bem é possível atingir outro objectivo. É só mudar o chip. Aqui já fica ao critério de cada um, Eu acho que é parte do desafio sabermos adaptar-nos, reconfigurar a máquina e lá vamos. Acredito que por vezes seja mais simples dizer "não estava bem" e não temos de escrever um artigo no blog cheio de dicas e lições. Por vezes há outras responsabilidades e expectativas. Mas eu funciono melhor assim. Tento transformar as dificuldades em desafios e lá vamos andando.

E foi assim que vivi o UTAX. Poderia ter corrido melhor?